Jornal Correio Braziliense

Canta Brasília

Música eletrônica conquista a capital duas décadas após surgimento do rock

No fim dos anos 1990, o estilo entrou no circuito de festas da capital. House, trance e drum and bass eram os estilos que existiam por aqui.

Nos anos 1980, alguns jovens buscavam uma manifestação cultural para expressar as angústias e as inquietações em Brasília. A geração do rock da Legião Urbana, do Capital Inicial e da Plebe Rude alcançou repercussão nacional e também preparou o terreno para um novo estilo que, duas décadas mais tarde, dominaria o público alternativo da capital: as batidas ritmadas e aceleradas da música eletrônica.

No fim dos anos 1990, o estilo entrou no circuito de festas da capital. House, trance e drum and bass eram os estilos que existiam por aqui. Tudo muito simples: os eventos pequenos, espalhados em casas de amigos, com DJs que ainda buscavam espaço.

[SAIBAMAIS]Um desses jovens é o DJ Giulliano Hopper, 40 anos. Fã do rock ; tinha até uma banda ;,começou a se aproximar dos sons eletrônicos e sintetizados e, desde então, nunca mais parou. ;Na realidade, como todo garoto que morava em Brasília no fim dos anos 1980, estava ligado ao rock, pois a cidade respirava isso: Legião, Capital e Plebe Rude. Em 1997, tinha um interesse crescente por música eletrônica, pois frequentava as festas do gênero que aconteciam pela cidade. Então, passei a gostar também de techno e house. Me apaixonei pelo trabalho de mixagem e resolvi expandir meu conhecimento para me tornar um DJ. Gosto dos dois ritmos com a mesma intensidade. Para mim, o que importa é a música;, conta.

Para estabelecer o caminho de uma carreira que já dura 15 anos, Hopper frequentou muitas festas. A primeira foi em 1994, em uma casa do Lago Norte. ;Acho que tudo começou ali. Teve também uma no hangar de ultraleves. Depois, houve uma com DJs alemães, organizada pelo Instituto Goethe no subsolo do Teatro Dulcina, que marcou bastante a cidade e revelou o lugar como palco de milhares de outras festas durante muitos anos. Em 1996, tivemos por um tempo o primeiro clube de Brasília, que se chamava WLOD, no Setor de Oficinas Sul. Na época, os artistas eram Cnun e Sunrise 1, que depois adotaram os nomes de Isn;t & The Six, além do Oblongui. Foi uma época incrível de descobertas. Aprendi muito ouvindo e vendo eles tocarem;, lembra.

Trance


Rodrigo Salomão, 33 anos, também frequentava esse cenário. O rapaz trabalhava com o desenvolvimento de sistemas de som e foi assim que começou a ter contato com as batidas sintetizadas. Em 1998, virou fã do trance e passou a tocar de brincadeira na casa de uns amigos.

;Eram festas informais, não tinha alvará, ninguém pagava as taxas de direitos autorais para o Ecade. No máximo, havia umas 200 pessoas. É a época do nascimento do estilo em Brasília. Ainda não tinha uma cena tão forte e capaz de encher grandes espaços na cidade;, comenta Salomão.

Em 2000, Rodrigo Salomão passou a utilizar o nome artístico de CH5, após uma festa em Florianópolis. O rapaz foi a uma comemoração na cidade e, na cara e na coragem, pediu para tocar. ;Cheguei na porta do evento e quis falar com o dono. Perguntei se tinha algum furo no line-up e ele respondeu: ;Você caiu do céu;. Assim, comecei a tocar profissionalmente.;

Depois desse batismo, CH5 resolveu promover o trance na capital. Assim, ele entrou no mundo da produção dos grandes eventos. ;Foi essa batida que trouxe o boom da música eletrônica para Brasília. Ele derrubou todos os outros estilos, colocou a cidade no cenário. Entre 2002 e 2005, foi o pico, quando saímos da cena underground e conseguimos patrocínios.;

Também foi nessa época que Rodrigo virou definitivamente CH5. ;Por conta de toda essa movimentação dentro da cidade, larguei a faculdade de agronomia e o emprego. Decidi que viveria somente da música eletrônica. Acreditava que isso seria minha profissão até a velhice, mas a cena deu uma esfriada e as coisas não foram exatamente assim;, recorda. Hoje, o DJ é também engenheiro de som para sobreviver.

Sucesso fora do DF

Os DJs de Brasília também já fizeram sucesso em outros locais. CH5, por exemplo, já participou do prestigiado festival Universo Paralelo, na Bahia. Komka e Hopper também levaram o som da capital para outras cidades, como São Paulo.