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Correio Braziliense CAPA

Carnaval é mais que folia. É herança cultural compartilhada por gerações

Não importa a idade, a magia do reinado de Momo é mesmo contagiante. Que o diga a família de seu Antônio ou a de seu Amâncio. Por lá, a folia é compartilhada por todos, de criança a idoso, e só cresce a cada ano


postado em 11/02/2018 07:00

Se Brasília já foi uma ilha de tranquilidade nos dias de carnaval, de seis anos para cá, a cidade passou a vibrar nos vários ritmos da folia de Momo. Inclusive, nas semanas antes e depois da festa oficial, os foliões enchem o rosto, o corpo, o cabelo e a barba de glitter e ocupam as vastas ruas da capital. Agora, canções carnavalescas tradicionais e marchinhas infantis convivem com o que há de mais novo na música brasileira e estrangeira, como o funk e o eletrônico.

 Antônio Nascimento, 80 anos, José Sóter, 64, Marcos Santana, 31, Victor Henrique, 20, e Yuri Soares, 7, são de gerações diferentes, têm perfis diversos, mas uma mesma paixão: o carnaval. Em Brasília, não importa a faixa etária, os foliões entram na farra, seja atrás de trio elétrico com axé, seja cantando as tradicionais marchinhas, seja jogando espuminha de sabão para o alto. O importante é curtir.

Mulheres maduras se vestem de unicórnio, crianças de Colombinas e adolescentes cantam marchinhas. O velho e o novo entram em harmonia. A tradição e o moderno se encontram pelas ruas da cidade e reúnem todos em uma mesma festa.

Família que brinca unida...

Aos 80 anos, seu Antônio Soares (sentado) não abre mão de brincar o carnaval, paixão compartilhada por toda a família. No detalhe, ele com a filha Claudiane Soares ainda bebê(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Aos 80 anos, seu Antônio Soares (sentado) não abre mão de brincar o carnaval, paixão compartilhada por toda a família. No detalhe, ele com a filha Claudiane Soares ainda bebê (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Aos 80 anos, seu Antônio Nascimento tem mais disposição para o carnaval que muito garoto por aí. Pioneiro em Brasília, o carioca trouxe na bagagem a paixão pelo samba, pelas marchinhas e, sobretudo, pela folia. Um amor que contagiou toda a família. O aposentado já participou de algumas escolas de samba e hoje apresenta, com orgulho, a carteirinha de velha guarda da Escola de Samba Unidos do Cruzeiro (Aruc). Mas a curtição não fica restrita às escolas: os bloquinhos de rua têm lugar garantido na família do carnavalesco.

Seu Antônio é autor de marchinhas de carnaval, motivo de muita diversão para todos. Um dos compositores das músicas do tradicional bloco de Brasília, o Pacotão, costuma juntar os filhos e o neto para cantá-las. “É uma satisfação muito grande. Meu neto nasceu praticamente em um berço carnavalesco, a festa está no sangue. Ele gosta de cantar e me ajuda”, conta Antônio sobre Yuri Soares.

Com apenas 7 anos, o garoto já tem muitas histórias de carnaval para contar. Como toda criança, gosta de bagunça e a diversão preferida é jogar confete e espuma para cima. “Às vezes, o pessoal não gosta e reclama”, admite. Extrovertido, ao ouvir a mãe e os avós falarem sobre a festa de Momo, ele brinca: “Será que quando crescer eu vou ficar igual a eles?”.

Parece que o destino está certo. Com a família, ele canta e dança as marchinhas criadas por seu Antônio. “Depois de velho, eu virei babá, tomando conta de criança para não chorar”, canta Yuri. “Eu gosto das marchinhas do meu avô. Às vezes, eu pegava o microfone e ficava cantando.”

A aposentada Marilene Nascimento, 69, mulher de seu Antônio, veio para Brasília em 1960. Mineira, ela também trouxe com a bagagem o gosto pela típica festa brasileira. “Antes de me casar com ele, eu já curtia. Quando era adolescente, meu pai levava a gente para brincar o carnaval na matinê. Juntava os primos, os sobrinhos e ia todo mundo”, lembra.

Hoje, Marilene acompanha a família nas festas carnavalescas de Brasília e transmite a paixão para os filhos — principalmente para as duas filhas. Nas escolas de samba, Marilene conta que já foi passista e, desde de cedo, levava as crianças para curtir a folia nos barracões. “Com apenas alguns meses de vida, eu levei a Claudiane para a Aruc. Lembro-me dela pequena, toda enroladinha em um pano e já ia para o braço de todo mundo”, relata.

Não é à toa que a funcionária pública Claudiane Nascimento, 48, também tenha se apaixonado pela festa momesca. “O Carnaval para mim é um momento de alegria, faz parte da nossa cultura. Gosto muito de participar e de ver as escolas de samba. Eu sempre vivi isso.”

Na programação de Claudiane para este ano estão o Pacotão, o Bloco da Bateria Furiosa e o bloco infantil Baratinha. Em todos, Yuri vai com ela. “Eu levo o Yuri para ele conhecer e gostar também. Desde adolescente, eu frequento o Galinho e o Pacotão. Agora, eu vou neles e nesses blocos novos também”, afirma.

Seu Gilmar da Silva, 60, não deixa de acompanhar a família da prima Marilene, e a presença no Pacotão, logo mais, já está confirmada. “O Carnaval é uma explosão de felicidade que o brasileiro precisa ter para desafogar um pouco o sufoco que passamos. Amo ver toda a família curtindo, é a melhor coisa do mundo. A família é um cristal que não deve se quebrar nunca”, destaca. 

Irreverência
Um dos mais antigos blocos da capital, o Pacotão foi fundado em 1978. A festa arrasta desde crianças até os mais velhos, ao som das famosas marchinhas carnavalescas e muitas fantasias inusitadas. O bloco também é conhecido por apresentar críticas à política, por meio de músicas, fantasias e faixas. Desfila hoje e terça-feira, na W3, com saída na 302 Norte, às 12h.

Para a garotada
Voltado para o público infantil, o bloco anima a garotada desde 1990, com muita música e brincadeiras. A festa rola solta hoje e terça, no Parque da Cidade, às 14h.

A hora e a vez dos jovens

Acostumado com o carnaval perto do próprio aniversário, o jornalista Marcos Santana, 31, sempre teve vários motivos para comemorar. Por sorte, na infância, morava em Taguatinga, onde havia vários pequenos blocos voltados para as crianças. Sempre ia acompanhado dos pais.

Na adolescência, a paixão continuou e Marcos começou a frequentar as Micarecandangas. “Eram fora de época, mas eu gostava demais”, conta. Na semana da festa de Momo, porém, a animação não era a mesma. Ele até permanecia em Brasília, mas sentia que os blocos eram voltados para um público diferente: para pessoas mais velhas, para os próprios fundadores. Era o caso do Pacotão, da Aruc e do Galinho.

Quanto aos blocos famosos por arrastar uma multidão mais jovem, caso do Baratona e do Raparigueiros (1), o jornalista não curtia, reclamava que as pessoas não usavam fantasia. “Era com abadá, não tinha tanta graça”, lamenta. Além disso, havia a fama de que os blocos de carnaval da capital eram perigosos. Assim, acabava desanimando e passando o feriadão em casa.

“Foi há seis anos que eu descobri o carnaval brasiliense”, conta animado. Há quem alegue, inclusive, que, na verdade, foi só nessa época que ele começou a existir — pelo menos para os mais jovens. Em 2011, a primeira edição do Babydoll de Nylon tomou as ruas. De lá para cá, vários com um estilo parecido começaram a surgir, além de um tantão voltado para crianças, a exemplo do Carnapati (2).

E, quando Marcos tenta definir o estilo da folia candanga, a palavra mais importante é “diversidade”. “O legal desses blocos mais novos, como Babydoll, Aparelhinho (3), Bloco do amor, Eduardo e Mônica (4), é que eles trazem diversidade, pessoas diferentes, mas com o mesmo pensamento: sair para se divertir. Não importa se é com namorada, namorado ou com a filha de 5 anos. O clima é mais agradável”, declara. Marcos até já levou a sobrinha, de 7 anos, para alguns bloquinhos infantis, como o Baratinha.

Órfãos do Babydoll

Triste com a ausência do Babydoll de Nylon na folia, Marcos Santana e os amigos decidiram ir de babydoll a todos os bloquinhos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Triste com a ausência do Babydoll de Nylon na folia, Marcos Santana e os amigos decidiram ir de babydoll a todos os bloquinhos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O anúncio de que o Babydoll de Nylon não entraria na agenda carnavalesca deste ano deixou muita gente chateada. Inclusive Marcos Santana. Sentiram-se órfãos e, para honrar a curta tradição de cinco anos, decidiram que iam à Praça do Cruzeiro com caixa de som, isopor com gelo e bebida, tal qual nos últimos carnavais. E criariam o Órfãos do Babydoll.

O grupo criou uma página no Facebook e um evento, a princípio para poucos amigos, que acabou com 4 mil pessoas confirmadas. E acabou mesmo, porque, quando Marcos e os amigos viram a proporção que a ideia tinha tomado, tentaram autorização para fazer o evento, mas descobriram que o anúncio de que o Babydoll de Nylon não sairia foi feito um dia depois do prazo que o GDF havia dado para as solicitações.

Mesmo assim, os amigos já estão com a agenda preenchida para aproveitar a festa de Momo: Bloco das Montadas, na Torre de TV, Aparelhinho, Divinas Tetas (5). E, em homenagem ao “menor, mais ridículo e menos promissor bloco de carnaval do Brasil”, estarão vestidos de babydoll em todos. 

1 - Muito axé
O Bloco dos Raparigueiros é um dos queridinhos dos jovens brasilienses. Com muito axé, a atração já chegou a reunir mais de 100 mil pessoas. Desfila hoje e terça-feira, no estacionamento do Estádio Nacional Mané Garrincha, a partir das 16h.

2 - Teatral
Voltado para o público infantil, o bloquinho carnavalesco foi idealizado pelo Teatro Mapati e está nas ruas desde 2009. Concentra-se amanhã, no Estacionamento 4 do Parque da Cidade, a partir das 9h.

3 - Eletrônico repaginado
Para quem gosta de música eletrônica, o Aparelhinho é uma ótima opção. O bloco traz clássicos carnavalescos misturados a músicas eletrônicas, entre outros ritmos. A festa rola amanhã, das 13h às 20h, no Setor Comercial Sul.

4 - A cara de Brasília
Engana-se quem pensa que roqueiro não curte carnaval. O bloco Eduardo e Mônica traz músicas de pop rock em homenagem à banda da cidade Legião Urbana. Sai hoje, às 15h, no SIG, Quadra 6/8, Sudoeste.

5 - Alternativo
Voltado para o público jovem, o bloco é uma das opções de carnaval alternativo e foi criado para homenagear os artistas do movimento Tropicália. Sai amanhã, na SBS — Quadra 5, às 14h.



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