
O aglomerado das copas verdes dos pinheiros é uma visão cotidiana de que mora ou passa pela região administrativa do Paranoá. Presentes na cidade desde 1972, a presença das árvores vem sendo motivos de embate entre moradores, governo e a empresa que detém o direito de retirada das árvores.
A empresa FCS Engenharia Florestal comprou o direito de retirar e comercializar os pinheiros da região em 2014 e chegou a obter a autorização para fazer a retirada das árvores em agosto de 2018. A ideia era que um parque vivencial fosse construído no local após a retirada. Poém, a autorização de colheita foi embargada pelo governo do Distrito Federal sob a alegação de infração ambiental com base na cetegorização do local como Floresta Distrital do Paranoá, em 2017. Formalizada por meio de decreto, a categorização impede atividades e empreendimentos que comprometam as características naturais da área que coloquem em risco a integridade dos ecossistemas e da bioma local.
Apesar da categorização, a empresa alega que o decreto não impede a colheita dos pinheiros e que a responsabilidade de cuidar da área após a extração dos pinheiros é de responsabilidade do Ibram e do GDF. Em nota o Ibram alega que a suspensão da colheita dos pinheiros foi realizada para a análise dos autos do processo por parte do instituto e que a construção do parque vivencial ainda é um projeto que está sendo definido.
Retirada divide opiniões
A construção de um parque vivencial estava prevista para o local, mas o projeto ainda é incerto e vem preocupando os moradores da região.Moradores do Paranoá e do Setor de Mansões do Lago Norte temem que a extração sem existir uma destinação para a área antes, possa favorecer o aparecimento de invasões no local, além de retirar dos moradores do um espaço de área verde. ;Lá é bonito, várias pessoas fazem ensaios fotográficos, fazem pic nic. Acredito que é necessário a construção de casas, mas isso pode ser feito sem ser necessário o desmatamento dos pinheiros e em locais apropriados;, opina a arquiteta Taynara Coelho.
"Vai se tornar um deserto, um túmulo. Estão tirando o pouco de verde que ainda temos e transfornando em desertos, se o plano é fazer um parque porque não mantém os pinheiros?" , indaga a recepcionista Samira Sousa.
Mesmo com a disputa, alguns moradores defendem a retirada das árvores e alegam que o local é constantemente usados como rota de fuga de criminosos, o que inibe a presença de moradores no local. ;Serve como esconderijo pra malandro depois de cometerem crimes na cidade, é uma área que daria para o governo aproveitar com criação de centros esportivos para que as crianças e adolescentes pudessem se dedicar a algum esporte e não ficasse na rua, muitas vezes, fazendo coisas erradas;, opina o morador Rogério Lima.
Floresta Plantada
Segundo Fernanda Cornils Benevides, professora doutora em Desenvolvimento Sustentável, a resistência da população para retirada da floresta se dá porque a população não entendem a logística das florestas plantadas que possuem um ciclo de plantio e colheita. ;Uma pessoa leiga neste assunto, quando vê uma extração de madeira sendo realizada em uma área de floresta plantada, pode imaginar apenas que ;estão derrubando árvores;, e associar isso a desmatamento, a uma agressão ao meio ambiente;, explica.
De acordo como a pesquisadora é importante entender que às florestas plantadas são áreas de produção que se comparam à agricultura, ou seja, tem um ciclo de plantio e colheita assim como a soja e o milho e caso não sigam esse ciclo passam a ser prejudiciais para a área. ;A floresta plantada, quando desenvolvida seguindo um modelo ideal de cultivo, manejo e colheita, contribui para manter a integridade dos ecossistemas e da biodiversidade;, afirma.
O ideal no caso do Paranoá, segundo Fernanda é que um manejo florestal seja realizado na área. Esse manejo pode ser realizado seguindo algumas estratégias como por exemplo, o Manejo Integrado do Fogo (MIF) que propõe o uso de queimadas controladas no início do período de seca para a garantir a conservação e o uso sustentável do ecossistema. ; O Fogo é amigo do cerrado, quando bem manejado, ele ajuda a quebrar a dormência de sementes, a floração e o provoca surgimento de novas gramíneas;, explica.
Outra estratégia que pode ser adotada após a retirada dos pinheiros é do plantio direto. ;Nesse tipo de abordagem, as semestres das árvores nativas são misturadas a terra e semeadas no solo. O plantio de árvores maiores é complicado, principalmente porque às plantas do cerrado possuem raízes muito longas e isso dificulta o manejo direto;, explica.
Apesar da resistência, a ambientalista defende a retirada da floresta que segundo ela prejudica a conservação do bioma do cerrado. ;Como essa floresta não é nativa do do cerrado, consequentemente não suporta a biodiversidade, sendo incapaz de manter a fauna e flora típica do ecossistema;, explica.