Cidades

Três mil aderem à campanha por mais tolerância

Brasilienses pedem em abaixo-assinado a revisão do limite etílico permitido no país

postado em 23/07/2008 08:41
Clientes cautelosos, garçons inseguros e comerciantes indignados. A lei de tolerância zero à mistura de álcool e volante provoca debates e reações contrárias à norma sancionada há mais de um mês pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Muitos consideram a lei seca radical e querem, pelo menos, a flexibilização dela. Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) não se pronuncia sobre o assunto, entidades de classe e consumidores brasilienses se lançam em campanhas para tentar sensibilizar as autoridades. O Ministério da Saúde defendeu ontem, em nota técnica, a manutenção dos níveis previstos pela Lei Federal nº 11.705/08, a lei seca, que são de 0,2 decigrama de álcool por litro de sangue ou de 0,1 miligrama de álcool por litro de ar expelido no teste do bafômetro. Segundo a pasta, esses índices torna desnecessária a elaboração de uma lista de medicamentos ou de alimentos que levem álcool em sua composição e, por isso, possam interferir nos resultados dos exames. O parecer do Ministério da Saúde deve servir de base para que o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) regulamente a norma em vigor desde 20 de junho. Mas não falta quem apoie a flexibilização dos limites etílicos previstos na lei. Dados do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Brasília (Sindhobar) indicam que houve queda de 60% no faturamento do setor desde que a lei passou a valer. Também ocorreram 180 demissões. Diante das perdas, o sindicato intensificará nesta semana a campanha ;Responsabilidade, sim. Radicalismo, não!”. Adesivos, camisas e panfletos serão distribuídos nos bares da capital do país. A entidade também organiza abaixo-assinado, que até ontem reuniu mais de 3 mil assinaturas. O presidente do Sindhobar, Cleyton Machado, encaminhará o documento ao Congresso Nacional assim que terminar o recesso parlamentar. O sindicalista defende margens de tolerância para o teor etílico no sangue e a manutenção da fiscalização. É a opinião de boa parte dos freqüentadores de bares e restaurantes do DF. ;Tolerância zero é radical. Seria necessário estabelecer um limite. Antes de tudo, porém, deveria ser feito um plebiscito, uma consulta à população;, sugeriu a estudante de física Alessandra Ferreira, 18 anos. Ela e o namorado, o estudante de artes plásticas Felipe Souza, 19, tiveram de se adaptar à nova rotina. Um ou outro bebe sempre que o casal sai à noite. Mas, normalmente, sobra para ela a direção do carro. A fixação de uma quantidade de álcool pré-determinada encontra respaldo inclusive entre especialistas que elogiam a legislação. O ex-presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo Gilberto Monteiro Lehfeld entende a iniciativa do governo de aumentar a punição para motoristas embriagados como ;excelente;, mas teme o rigor excessivo. ;Essa discussão de limite zero é inútil. A resistência é grande demais para pouco efeito. Não adianta ter a legislação mais rígida do mundo se ela não pegar. Se fiscalizassem com seis decigramas já estaria muito bom;, avaliou. O militar da reserva Jorge Brandão, 61, se identifica com a opinião de Lehfeld. ;Sou a favor da lei seca, mas está muito rígida do jeito que se apresenta. E se eu for a um aniversário em uma chácara de amigos, por exemplo? Não vou poder beber nada;, comentou. Brandão mudou de hábito desde a nova norma. Prefere beber cerveja ao lado de casa, na 210 Norte, a pegar o volante. Também só assume a direção se o encontro com os amigos for no máximo em uma quadra residencial próxima à da família. O militar freqüenta um boteco ao lado do Acarajé da Rosa, estabelecimento que enfrenta dificuldades com a tolerância zero. Quatro freezers estão lotados de cerveja desde quinta-feira. ;O consumo de álcool caiu bastante. Está tudo sobrando. O movimento agora é só no fim de semana;, contou o funcionário Eduardo Rangel Santana Gomes, um dos responsáveis pelo local. Ele trabalhou ontem à tarde vestido com a camisa da campanha do Sindhobar. Por volta das 16h, pouco tinha para fazer. Atendeu apenas a mesa de um casal. O homem bebia cerveja. A mulher, refrigerante. Exame complementar O toxicologista Otávio Brasil, chefe do Centro Toxicológico de Brasília, apóia a nova legislação. Mas enxerga com preocupação a forma usada pelos fiscais de trânsito para medir a embriaguez dos motoristas. Para ele, o teste do bafômetro deveria ser complementar. ;Segundo o Conselho Federal de Medicina, o exame clínico é soberano. Só ele é capaz de revelar as alterações provocadas pelo álcool. Depois de constatado, aí se pede o de sangue. Do jeito que é feito, os direitos do cidadão estão sendo jogados pela janela;, avaliou. O estudante de biblioteconomia Diego Mendes, 22, também vê com ressalvas a eficácia dos bafômetros. Mas, sem chance de contestar a fiscalização, evita dirigir ao consumir bebidas alcoólicas. ;Preferia que tivesse uma margem de tolerância. O problema maior é para quem não bebe tanto. Esse, sim, paga pelos erros dos outros;, afirmou. Para o psicólogo Salomão Rabinovich, diretor do Centro de Psicologia Aplicada ao Trânsito (Cepat) de São Paulo, a bebida alcoólica é apenas um dos causadores de acidentes no trânsito brasileiro. Soma-se às drogas ilegais e farmacêuticas, distúrbios do sono e doenças psicológicas. Rabinovich defende a tolerância zero, mas teme que a medida se perca com o tempo. ;Não há estrutura e gente para manter a fiscalização por muito tempo no Brasil. Daqui a três meses, pode cair em descrédito;, argumentou. Ele acredita que só a mudança de postura dos condutores poderá reduzir o número de acidentes.

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