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Correio Braziliense

A reintegração dos 'alunos-problema' é difícil

 


postado em 04/08/2008 08:36 / atualizado em 04/08/2008 08:42

A reintegração dos adolescentes que estão cumprindo medidas socioeducativas na escola é outro desafio para a rede de ensino brasiliense. Tratados como “alunos-problema”, muitas vezes eles desistem novamente dos estudos durante o processo de reintegração escolar. Em outras, acabam atrapalhando o cotidiano do ambiente de ensino por conta de problemas de indisciplina. “Em uma inversão de valores, alguns usam o fato de serem LA como insígnia de superioridade”, afirma Mauro Evangelista, coordenador da política de promoção de cidadania e cultura da paz da Secretaria de Educação do DF. Os LA, como são conhecidos nas escolas, são os jovens que cumprem medidas de liberdade assistida. Evangelista reconhece que nem todos os diretores têm boa vontade com os alunos que já cometeram delitos. Mas reforça a importância de integrá-los às escolas da rede. “Quando se faz o acompanhamento deles, com avaliações constantes, eles respondem com resultados”, afirma. De novo, a situação ideal seria pais e professores comprometidos no processo de recuperação dos estudantes, o que, na realidade, não costuma se verificar. “A desestruturação familiar é anterior à prática dos delitos. Quando eles acontecem, a distância para a família aumenta”, lamenta Renato Barão Varalda, promotor de Defesa da Infância e da Juventude do DF. Já os diretores, muitas vezes, até comemoram o fato de um aluno LA deixar a escola. “Por lei, os diretores são obrigados a matricular. Mas se esses estudantes abandonam a sala de aula, eles não se importam”, lamenta o promotor. Há 27 anos, a Escola do Parque da Cidade – Promoção Educativa do Menor (Proem) recebe estudantes tachados de “alunos-problema”. Atualmente, 220 estudantes estão matriculados, sendo que apenas 173 são freqüentes. Um terço deles está cumprindo medidas de liberdade assistida. “Tentamos envolvê-los na base da conversa, do conselho e do carinho”, conta a diretora Maria dos Anjos Menezes, que trabalha na escola há 22 anos. Apesar de gostar do trabalho, ela reconhece as dificuldades de quem perde entre três e quatro alunos assassinados por ano: “Ou eles se recuperam, ou vão para Papuda ou para o cemitério”. DEPOIMENTOS “Tenho 19 anos, estou entre a 7° e a 8° séries. Fiquei atrasado porque os meus pais mudavam muito e eu tinha que ficar sempre trocando de escola. Não sou santo. Já me prenderam por furto. Também já fiz coisa com arma (roubo). Eu fazia para ter dinheiro, para comprar uma roupa melhor, um tênis. Ou para sair com os amigos, ir a um show. Hoje, não faço mais. Chegou uma hora em que eu pensei na minha qualidade de vida. Você conhece bandido aposentado? Eu não, foi por isso que deixei essa vida de lado. Aqui na escola aprendi a tocar saxofone. Adoro. Também recebi muito conselho. Não quero mais vida de bandido porque eu tenho sonhos. Quero uma família, uma casa, um emprego. É preciso força de vontade, mas eu estou conseguindo.” Pedro, 19 anos* “Já estive na ‘vida louca’, era sem juízo. Usei drogas — maconha e cocaína. Para ter dinheiro, roubava lá na Asa Norte. Roubava em turma, seis, sete, cercando uma pessoa. Perdi as contas de quantas pessoas assaltei nessa época. Já estive na DCA e no Caje. Mas, para bandido, a vida se resume a três Cs: cadeira de rodas, cadeia e caixão. Eu não quero nenhum deles para mim. Eu fui mudando aos poucos. No começo, ninguém reparava. Agora, é que estão reparando e me apoiando. Cheguei no Proem atrasado, na 5ª série, fui estudando e melhorando. Hoje, estou no 2º ano do 2° grau e estudo no Cesas. Também trabalho, ganho R$ 350 por mês e acho bem melhor esse dinheiro do que aquele da época em que eu roubava. Roubar atrasa a sua vida e a da outra pessoa.” Rafael , 17 anos* *Nomes fictícios em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente

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