Acusada pela polícia de manter uma rede de prostituição infantil, Simone Alves, 31, conquistava a confiança das adolescentes com festas e passeios em cachoeiras. Pelo menos foi assim com duas das vítimas, uma menina de 14 e outra de 15 anos, ambas com problemas de relacionamento familiar. Elas disseram que conheciam a cafetina há cerca de um ano. Mas que o pesadelo começou há dois meses.
A garota de 14 anos diz ter perdido a virgindade em uma relação sexual forçada por Simone. "Foi num colchão na cozinha do barraco dela com o Vinte e Dois (apelido de um homem que ela não sabe o nome). Eu sentia muita dor. Aí ela passou óleo de cozinha. Mesmo assim não consegui", relatou a menina, enquanto apertava os dedos uns contra os outros. A amiga dela, de 15 anos, estava ao lado. "Ele deixava ela descansar um pouquinho e partia para cima de mim. A Simone ficava olhando e rindo", contou a adolescente.
De acordo com as garotas, Simone marcava os encontros com os clientes ligando do orelhão. Com exceção de Vinte e Dois, todos eram homens mais velhos. "Eles não sabiam que a gente era forçada a fazer aquilo". Os clientes pagavam entre R$ 10 e R$ 20 para fazer sexo com elas. Algumas vezes, eram obrigadas ter relações a três. Quase sempre com Simone como espectadora.
Em uma das vezes, as meninas foram levadas a um motel. Pouco antes da entrada, elas tiveram de entrar no porta-malas do carro. Simone foi na frente com o cliente. "Quando chegou no quarto ela pediu umas comidas, um arroz. Depois, entrou na banheira e enquanto a gente ficava com o cara ela olhava pelo vidro e ria", relatou a menina de 14 anos. "Quando a comida chegou, a gente não pode comer porque ela não deixou. Disse para o cara que a gente tinha almoçado, mas era mentira. Éramos obrigadas a confirmar, senão apanhávamos depois", completou a amiga de 15 anos.
A vida delas ficou ainda mais difícil quando foram levadas à força para viver em Santo Antônio do Descoberto, a 44 km de Brasília. Elas passavam a noite na casa de Abadio Alves Pereira, 77 anos. "Ele transava com nós duas ao mesmo tempo. Mas parecia que não tomava banho de tanto que fedia", relembram as garotas. Pela manhã, voltavam para a casa de Emerson de Farias, 22 anos, irmão de Simone e onde as outras garotas eram mantidas. "Aí a gente tinha que arrumar os quartos e lavar a roupa. Se reclamasse, apanhava. A filha dela (uma menina de 12 anos) também batia na gente quando a Simone mandava. Ela dizia, filha, vai lá, bate na cara dessas vagabundas. Ela vinha e batia", completou.
Durante o tempo em que foram mantidas na casa, as meninas contam que passavam a leite e pão. Almoço, só de vez em quando. "Quando as pessoas ofereciam comida, ela dizia que a gente já tinha comido", relatou uma das meninas.
Foi justamente um dos algozes que as ajudaram a escapar dos abusos. Na última vez que estiveram na casa de Abadio, aproveitaram que Simone as esperava no portão ; e não na cozinha, como costumava fazer ; e contaram o sofrimento. "A gente falou que passava fome, apanhava e que ficava com ela à força, porque ela obrigava. Ele tirou R$ 30 do bolso, levou a gente para os fundos da casa e mostrou uma parada de ônibus que ficava depois de um matagal", contou uma das meninas. Abadio foi ouvido pela polícia e confirmou a história.
Agora, as duas adolescentes fazem planos de recomeçar os estudos no próximo ano. Não pretendem deixar o abrigo tão cedo. Temem voltar para casa, na Estrutural, e serem mortas. Também não querem voltar a viver com os pais, com quem mantinham um relacionamento conflituoso. Perguntadas em que pretendem trabalhar, uma reponde que pensa ser enfermeira. A outra, advogada.
A delegada-chefe da 8ª Delegacia de Polícia (SIA) vai continuar a investigar o caso. Quer descobrir quem são as outras meninas. Se a filha de Simone também era forçada a se prostituir e qual a participação do irmão de Simone no crime. Em depoimento, ele teria confirmado que ajudava a irmã a manter as crianças na casa.