Outro ponto na área central do Plano Piloto também faria juz ao apelido de Buraco do Rato. Assim que começa a escurecer e as lojas fecham suas portas, usuários e traficantes tomam conta da praça central e dos corredores do Conic, no Setor de Diversões Sul. O posto desativado da Polícia Militar, no meio do centro comercial, onde hoje funciona o Centro de Comercialização de Artesanato (da Secretaria de Trabalho) virou o ponto preferido deles. Crianças, adolescentes e jovens, em sua maioria, se espremem nos cantos do pequeno prédio de concreto para fumar crack.
São tantos que às vezes falta espaço. Quando estão sem dinheiro, viciados perambulam pelo lugar à procura de uma latinha de refrigerante amassada, na tentativa de encontrar algum vestígio de pedra para fumar. Também ficam de olho nos parceiros de vício, na expectativa de serem convidados para dividir a lata com crack ou mesmo com a intenção de roubar a droga.
Por noite, o Conic e a droga atraem até 50 viciados. A oferta de crack no conjunto de lojas e salas comerciais é farta. Traficantes oferecem pedras de R$ 10 a R$ 50 a qualquer um que passa. Isso ocorreu diversas vezes com a equipe do Correio. Nem o equipamento fotográfico intimidou a maior parte dos bandidos, que circulavam com mochilas nas costas. Mas alguns chegaram a ameaçar os jornalistas pedindo que deixassem o local.
O Correio flagrou jovens vendendo crack a meninos e meninas que aparentavam ter menos de 12 anos. Também presenciou mulheres e homens bem vestidos fumando o entorpecente ao lado de crianças e adolescentes maltrapilhos. Todos os lojistas e funcionários do Conic ouvidos pela reportagem reclamaram da presença dos viciados.
Comerciantes e trabalhadores contaram que os usuários intimidam clientes e cometem pequenos roubos e furtos para comprar mais crack. Mas ninguém quis se identificar, com medo de represálias dos traficantes. ;Se fizer isso, eles destroem meu bar. Cansei de ligar para a polícia, mas ela nunca aparece;, comentou um dos comerciantes.
Nas quatro noites em que a equipe de reportagem acompanhou a movimentação de traficantes e usuários no Conic, houve repressão policial em duas. Em ambas, com a ajuda de lanternas, uma dupla de PMs tentava flagrar o consumo de crack nos lugares mais escuros. A presença dos policiais afugentou os viciados do interior do centro comercial, mas não impediu a venda e o uso da droga nos arredores do prédio.
Homens, mulheres, adolescentes e até crianças foram fotografados fumando crack nos estacionamentos da frente e dos fundos do Conic. O fotógrafo também flagrou um grupo de nove pessoas dividindo as latas com a pedra alucinógena sob o viaduto ao lado do Conic. Eles conseguiram se esconder de um trio de PMs que faziam ronda a cavalo.
Em duas noite de campana no Conic, a equipe do jornal presenciou um grupo de PMs fazendo ronda nos corredores. Mas eles não estiveram no antigo posto da corporação, foco do tráfico e consumo de droga, nem abordaram qualquer viciado ou vendedor de crack. Apenas conversaram com os poucos comerciantes que ainda mantinham as portas abertas.
Ao lado da linha do metrô
Os usuários e traficantes de Ceilândia aproveitam a falta de iluminação e o baixo movimento de carros e pedestres de um terreno baldio da QNN 11 para vender e fumar crack à vontade. A venda e o consumo são intensos durante todo o dia na área de terra batida entre os fundos do Supermercado Tatico e as telas da linha do metrô.
Um dos lugares preferidos dos viciados é o conjunto de pés de manga em frente a um prédio da Subsecretaria de Apoio da Secretaria de Fazenda do DF. Uma placa instalada no local afirma que o prédio está ;fechado para reforma;. Mas, sem qualquer material de construção por perto e muito mato em volta, fica evidente o abandono do patrimônio público.
A cerca de 50m do prédio, pequenos morros de terra da obra de um edifício residencial ajudam a esconder usuários e traficantes. Por dois dias consecutivos, o Correio encontrou no local uma mulher de 38 anos. Em ambas, ela fumava sem parar as pedras de crack colocadas em uma lata amassada de cerveja, em meio à lama provocada pelas fortes chuvas.
No primeiro contato com a equipe do jornal, a mulher começou a falar da vida dela. ;Pode fotografar, meu filho. Mostra o quanto essa droga é uma merda. Tô assim desde que comecei a fumar isso, há um ano. Se eu ficar um dia sem, desmaio. Até o juiz já me deu um atestado de viciada para não me prenderem, mas não tenho dinheiro para comprar os remédios;, contou, mostrando cópia da decisão judicial.
Família perdida
Ela nunca foi rica. Mas, até quatro anos atrás, tinha vida estável. Morava em uma casa de três quartos de Ceilândia com o marido e os três filhos, hoje com 6, 8 e 13 anos. O casal trabalhava ; ela como doméstica em uma casa do Lago Sul, ele como motorista de ônibus ; e os filhos estudavam em boa escola. A família começou a ruir em 2004, quando a mulher experimentou merla e ficou dependente.
Desde então, o marido a abandonou e os filhos passaram a ser criados pelos avós maternos. ;Eu nem vou mais em casa. O dinheiro que junto com as latinhas recicladas gasto todo em crack. Moço, sei que é ruim para mim, mas não consigo sair dessa vida;, desabafou ela, em meio a baforadas do crack fumado no cachimbo improvisado, acompanhada de longe de outros usuários.
A mulher e os demais viciados que freqüentam o terreno baldio da QNN 11 compram a droga em outra área mal iluminada e sem policiamento, distante duas quadras. Dois traficantes se apoderaram da obra abandonada do Ginásio Esportivo de Ceilândia, ao lado do Terminal Ceilândia Norte do metrô e da biblioteca da cidade.
Do ginásio, só construíram o esqueleto, sem a cobertura. Os moradores da região dizem que a obra parou há mais de 10 anos. O lugar onde deveriam ser erguidos os vestiários dos atletas e o banheiro do público virou boca-de-fumo. As chamas dos isqueiros e o brilho das pedras de crack são as únicas luzes dentro dos cubículos, durante a noite. Nos cantos do que seriam as arquibancadas, os banidos vendem a droga.
Prostituição
Em Taguatinga, o tráfico e o uso de crack se concentram no centro da segunda cidade mais populosa do DF ; a maior é Ceilândia. Assim que começa a noite, os viciados aparecem atrás dos traficantes e das pedras, que se misturam às mulheres, aos jovens e travestis que se prostituem nas ruas e becos ladeados pelos prédios comerciais entre a C3 e a CSA1. (RA)