O criador voltou à cidade que um dia colocou no papel. Três anos após a última visita, Oscar
Niemeyer chegou nesta quarta-feira (10/12) a BrasÃlia. Ele participará da abertura da Biblioteca
Nacional, ao lado da Rodoviária do Plano Piloto, e lançará a revista Nosso caminho. O arquiteto
passou o dia no BrasÃlia Palace Hotel, obra desenhada por ele e inaugurada antes da capital. Saiu
apenas para uma consulta médica. À noite, o homem responsável pelos traços geniais da
arquitetura local recebeu o governador José Roberto Arruda para uma conversa sobre a cidade que viu
nascer há quase meio século. Criticou os problemas de metrópole, como a ocupação urbana
desordenada. Mas elogiou o esforço do governante em preservar a qualidade de vida do lugar.
O arquiteto Oscar Niemayer fala sobre o crescimento da cidade que ajudou a projetar e sobre a
revista "Nosso caminho" que vai lançar amanhã
Aos 100 anos, a lucidez de Niemeyer impressiona. ;Voltar a BrasÃlia é sempre muito bom. Vejo que a
cidade está evoluindo e se fortalecendo. Mas é preciso estar atento a alguns problemas de uma
cidade em crescimento;, alertou. Ele se referia à falta de planejamento e estrutura para assistir
as regiões administrativas do Distrito Federal mais afastadas do Plano Piloto e os municÃpios
goianos do Entorno, que crescem e ameaçam a qualidade de vida em BrasÃlia. ;É um absurdo;,
classificou Niemeyer, ao lado dos arquitetos Carlos Magalhães e Fernando Andrade, colegas de
profissão que o representam em BrasÃlia. No bate-papo como Arruda, o arquiteto também ressaltou a
necessidade de construir um sambódromo e outras opções de lazer: ;O divertimento do povo não
pode ser esquecido;.
De acordo com Niemeyer, o tempo deu a BrasÃlia o sentido monumental que a capital merecia ter. Ele
citou a Praça do Povo, no Setor Comercial Sul, como um exemplo desse ganho. ;É um espaço popular,
que favorece a todos. Essas novas obras dão a ela (a cidade) esse aspecto monumental;, observou o
arquiteto, que chegou a considerar o projeto da praça um dos melhores trabalhos que fez para a
capital. A conversa com o governador teve um tom informal e ocorreu no quarto onde Oscar está
hospedado. ;Para mim, é um privilégio poder estar ao lado de um homem com a inteligência e a
história de Niemeyer, temos de aproveitar esses momentos. Vim para lhe dar as boas-vindas;, elogiou
o governador. ;Creio que Arruda está atento aos problemas da cidade; devolveu Oscar.
O arquiteto não escondeu a preocupação em relação à revitalização do Palácio do Planalto.
;Eu não mexeria em nada. É difÃcil planejar uma cidade em cinco anos. Mesmo com a pressão e o
pouco tempo para pensar em uma arquitetura para a cidade, procurei o diferente e fiz o meu melhor;,
disse. Niemeyer também falou sobre a revista que vai lançar hoje, às 18h30, na abertura da
Biblioteca Nacional. A publicação, segundo ele, tem o objetivo de provocar uma reflexão nos
jovens sobre a vida. ;A juventude não pensa nos problemas do mundo, na pobreza, na falta de
solidariedade. A revista Nosso caminho tenta melhorar um pouco o lugar onde vivemos, abordando
alguns desses temas. É claro que também falo de arquitetura nos artigos;, explicou.
Café no quarto
O mestre criador das formas modernistas da capital federal passou o dia descansando. Oscar Niemeyer
chegou a BrasÃlia na madrugada de ontem. Dormiu até por volta das 11h, tomou café no quarto e
desceu para o bar batizado com seu nome. Passou o fim da manhã e a metade da tarde rodeado de
amigos e familiares, entre eles o secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho, os arquitetos Fernando
Balbi e Fernando Andrade, o embaixador Arnaldo Carrilho e a mulher dele, Maria Helena, afilhada do
arquiteto. Niemeyer só se levantou da cadeira para tirar fotos em frente ao painel do salão de
festas de autoria do amigo Athos Bulcão, morto em julho deste ano. ;BelÃssimo;, enalteceu o
arquiteto. Hoje, antes do evento na biblioteca, o arquiteto se encontrará com o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, às 10h.
Mesmo cansado da viagem que fizera no dia anterior em sua Mercedes Benz, acompanhado da esposa Vera,
do neto Paulo César, de um funcionário e do motorista, Oscar Niemeyer mostrava-se satisfeito por
ter vindo à capital que idealizou com o urbanista Lucio Costa. O arquiteto também se disse muito
satisfeito com a recuperação do BrasÃlia Palace Hotel, erguido em 1957 e tomado pelo fogo em
1978. Durante anos, a carcaça de concreto serviu de abrigo para muitos sem-teto. Depois, os jovens
da capital descobriram que o esqueleto era um ótimo ponto para a prática de rapel, e os amantes da
aventura passaram a descer pelas paredes pendurados em cordas. Depois de muitas tentativas de
revitalização, o hotel começou a ser finalmente reconstruÃdo em 2001. A reinauguração ocorreu
em 2006. O projeto de restauro também foi feito pelo escritório de Niemeyer no Rio de Janeiro.
;Tem até um certo luxo;, avaliou o criador.
No almoço ainda no bar Oscar, em que continuou acompanhado dos amigos, o arquiteto comeu um prato
de macarrão e tomou suco de laranja. Durante as conversas, em que volta e meia comentava os que
considerava errado nos rumos da capital, Niemeyer fumou três cigarrilhas ; hábito que cultivou
durante toda a vida. No próximo dia 15, ele comemora o 101º aniversário e certamente continuará
a degustar o tabaco com prazer.
Olhos
Apesar de a mente continuar extremamente ativa, o corpo do arquiteto dá sinais de que o vigor não
é o mesmo de antes. Quando mostraram-lhe uma foto dele na época da construção de BrasÃlia,
Niemeyer não reconheceu a própria figura na imagem: ;Não enxergo;, disse para logo abrir um
sorriso largo ao lhe dizerem de quem se tratava.
O problema na vista foi outro motivo, além da inauguração da biblioteca, para a vinda do criador
das paisagens modernistas da capital. Os pulmões funcionam plenamente, as pernas permitem que se
locomova, ainda que amparado, mas os olhos já não o ajudam tanto. Nem mesmo as pranchetas
produzidas pelos arquitetos de seu escritório ; onde comparece diariamente ; consegue mais ver com
nitidez.
Às 16h, o centenário arquiteto foi ao médico. Passou cerca de duas horas no consultório do
oftalmologista Carlos Ãvila, na Asa Sul. O secretário Silvestre Gorgulho o acompanhou até a
clÃnica. Na saÃda, contou aos jornalistas que o médico deu uma boa notÃcia ao mestre. ;Há
recursos disponÃveis para ajudá-lo;, comemorou Gorgulho. Na saÃda, Niemeyer estava otimista. Ao
ser perguntado se o médico iria mesmo ajudá-lo, respondeu sorrindo: ;Vai sim! Tomara que sim;.
Torcida é o que não falta.