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Correio Braziliense

Peças de acervo da UnB estão desaparecidas

 


postado em 17/12/2008 08:37 / atualizado em 17/12/2008 08:38

A Universidade de Brasília (UnB) não tem uma política administrativa para preservar, fiscalizar e restaurar o seu acervo de 1,7 mil peças de arte. Ao longo dos últimos 46 anos, uma das instituições de referência no ensino superior do Brasil deixou obras de pintoras como Tarsila do Amaral, escultores como Bruno Giorgio e Victor Brecheret e de outras centenas de artistas expostas aos perigos da falta de controle. O resultado do descaso surgiu na atualização de um catálogo das obras de arte, coleções etnográficas e álbuns artísticos originais da universidade, feito no ano passado: pelo menos 32 peças sumiram na última década. A instituição não tem uma estimativa do valor econômico do material. Duas delas foram extraviadas. As demais podem estar na UnB, mas não se sabe onde. Segundo o diretor do Centro de Documentação (Cedoc) da universidade, José Carlos Andreoli, a falta de zelo foi a provável causa do sumiço. A tapeçaria Capital verde, de Rubens Godinho de Campos, o Rubico, exposta na antesala do auditório da reitoria, nunca mais foi vista desde a última reforma no lugar, em 1998. “Ela estava em processo de restauração para recuperar a cor — a um custo de R$ 800 —e pode ter sido confundida com um tapete velho”, lamentou Andreoli. A escultura em madeira (sem título) de Avatar Moraes da Silva, de 1989, adornava o Salão de Atos da reitoria. Em 2002, após a decisão de colocar uma galeria de reitores no lugar, a peça deveria seguir para a Biblioteca Central da UnB. Nunca mais apareceu. Andreoli afirmou que ambos os casos foram devidamente documentados e comunicados às gestões de João Cláudio Todorov (1993 -1997) e Lauro Morhy (1997 - 2005), que não teriam tomado providências. “Em 1997, Todorov viabilizou o levantamento do primeiro catálogo do acervo. Mas o material, feito com o suor de muitas pessoas, acabou engavetado”, lembrou o diretor do Cedoc. As outras 30 obras sumidas ao longos dos últimos 10 anos são, em sua maioria, gravuras — tipo de técnica sobre papel. De acordo com Anelise Ferreira, coordenadora da Casa de Cultura da América Latina (CAL), que reúne 60% do acervo da UnB, boa parte delas pode estar na universidade. “Três gravuras apareceram. Contamos com a comunidade acadêmica para encontrar as demais”, observou. Para ela, a falta de controle na transferência do material provocou o problema: “Toda mudança deve ter documentados o local de origem e o destino. Mas isso não ocorreu”. A maior parte das obras sob a tutela da UnB vem da doação de personalidades, como Stella Maris e Oscar Niemeyer, e de instituições diversas, como o Banco Central. O inventário de 2007 mostrava uma acervo de 1.507 obras. Hoje, o total estimado em 1,7 mil. “É um material muito rico, que traz desde obras de arte consagradas a materiais para preservação de povos indígenas. Mas não temos uma política geral de preservação. Dependemos de ações isoladas”, contou Ferreira. Apesar de nunca ter sido feito um levantamento sobre o valor econômico das obras, sabe-se que elas representam uma fortuna. Novos tempos Uma comissão formada por membros do Cedoc, CAL, Prefeitura, Instituto de Artes e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo trabalha para reverter a situação de risco do acervo. Segundo a historiadora Maria Goretti Vulcão, a nova gestão se mostrou disposta a colaborar. “Esperamos publicar o catálogo com as obras em 2009. Isso permitirá que as pessoas conheçam o acervo e se sintam responsáveis pelo material”, disse. Relíquias Apesar do descaso na preservação do acervo artístico da universidade, a UnB é uma verdadeira galeria de arte pública. Confira dez obras de destaque da instituição, segundo levantamento da Casa de Cultura da América Latina (CAL): 1. Minerva, escultura em bronze de Alfredo Ceschiatti (1963). Fica na Biblioteca Central da UnB. 2. Escultura de mulher deitada (sem título), de Alfredo Ceschiatti. Na Casa Oscar Niemeyer, no Park Way. 3. Cartema, técnica de montagem com cartões, de Aloísio Magalhães (1974): na Biblioteca Central da UnB. 4. Série de 10 gravuras de Tarsila do Amaral. Três delas estão atualmente em exposição na CAL, que fica no Setor Comercial Sul, Quadra 4, Edifício Anápolis. 5. Índia Bartira, escultura de bronze de Victor Brecheret (1952). No auditório Dois Candangos. 6. Três desenhos e uma gravura de Athos Bulcão. Em exposição na CAL. 7. Duas gravuras de Lívio Abramo (Rio, de 1954, e Diva Negra, de 1951): no gabinete do reitor. 8. Pintura de Rubem Valentim (sem título): parte do acervo da CAL. 9. Peixes, do pintor Glênio Bianchetti (1993): no prédio da reitoria. 10. Escritores Brasileiros, de Galdino Gutterman Bicho (1920): seção de obras raras da Biblioteca Central da UnB.

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