Cidades

Alerta em 12 áreas de risco no DF

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postado em 22/12/2008 08:00
Qualquer nuvem no céu é sinal de alerta para a família de Nyedja Patrícia Medeiros, 25 anos. A dona-de-casa mora na chácara Cachoeirinha, em Ceilândia, com o marido e o filho Gustavo, de 4 anos. A casa tem boa estrutura, é de alvenaria e foi construída com material resistente. Mesmo assim, a mulher fica apavorada quando os meteorologistas prevêem chuvas. E as paredes da casa provam que ela tem razão ao sentir medo: a cada temporal, a água invade a garagem. A força da enxurrada é tão grande que Nyedja é obrigada a fazer buracos na parede para escoar a água e manter a casa de pé. Nyedja é um dos milhares de brasilienses que vivem em áreas consideradas de risco pela Defesa Civil. No início do mês, uma chuva forte inundou todo o condomínio. A vizinha dela ficou ilhada pela enxurrada que abriu uma enorme erosão na beirada de sua casa. Devido ao risco de desabamento, a mulher precisou deixar o lar e o barraco acabou demolido. Nesse mesmo dia, Nyedja abriu mais quatro buracos na parede para tentar impedir que a casa fosse inundada. Precisou contar com a solidariedade dos vizinhos. ;Meu marido não estava em casa e eu fiquei até sem forças. A chuva começou muito forte e, em meia hora, estava tudo alagado;, lembra. A Cachoeirinha é uma das 12 regiões de risco do DF, segundo o último levantamento da Defesa Civil (veja no mapa). Também fazem parte da lista as Vilas Cauhy, no Guará, e a Matadouro, no Riacho Fundo. Outras sete estão em Ceilândia ; os condomínios Pôr-do-Sol, Privê e Sonho Verde, a Vila Madureira e as chácaras Pantanal, 97, além da Cachoeirinha ; e duas em Sobradinho ; a Vila Rabello II e as comunidades Alto Boa Vista e Queima Lençol. Na Estrutural, a Defesa Civil contabiliza 93 pontos de risco, o que inclui acúmulo de lixo nas ruas, esgoto a céu aberto e a presença de erosões. Todas as áreas perigosas são invasões de terras. A Cachoeirinha, por exemplo, é uma das antigas chácaras do Setor P Norte que foram parceladas irregularmente. No lugar de plantações de alface, tomate ou morango, surgiram casas e barracos erguidos com estrutura precária em um local que não tem qualquer infra-estrutura. ;Toda invasão é potencialmente uma área de risco. As terras foram ocupadas sem nenhum estudo ambiental e sem estrutura, como sistema de drenagem pluvial. Além disso, ninguém contratou engenheiro ou arquiteto para erguer as casas;, ressalta o chefe do Núcleo de Vistorias da Defesa Civil, major Toni Monteiro Belinho. A chácara onde Nyedja mora fica abaixo da EQNP 11 / 15, uma quadra regular que tem sistema de drenagem de águas pluviais. Mas a rede não comporta mais a expansão da cidade e não consegue absorver toda a chuva. Assim, a água escorre para o parcelamento. A violência da enxurrada é impressionante. A água leva lixo, terra, placas de concreto, tudo que encontra pela frente. ;O barulho é igual ao de mar;, conta Eva Dantas da Silva, 46 anos, que também mora em Cachoeirinha. Além disso, quando a chuva escorre para a parte mais baixa da chácara, onde passa um córrego, forma grandes buracos pelo caminho. Atualmente, duas erosões ameaçam ;engolir; as casas. E elas se aproximam das construções a cada tempestade. Na casa de Nyedja, por exemplo, uma das paredes está rachada, evidenciando o risco de desabamento. No ano passado, durante uma chuva forte, o filho de Eva, na época com 8 anos, foi arrastado pela correnteza e por pouco não caiu na erosão. ;Se ele estivesse sozinho, teria morrido. Meu genro se jogou na água e conseguiu pegá-lo porque ele ficou preso em algum galho. Se ele tivesse caído no buraco, já era;, conta. Sem sono Até o fim de fevereiro, quem mora nessas áreas deve perder o sono com medo dos temporais. Desde o começo do ano, a Defesa Civil notificou 287 famílias que vivem em locais com perigo de alagamento, desmoronamento ou destelhamento. Essas pessoas devem deixar as casas para preservar suas vidas. A Defesa Civil faz um constante monitoramento das regiões vulneráveis e só entrega a notificação quando o risco de uma tragédia é eminente. ;Primeiro a gente tenta minimizar os danos. Mas quando entregamos a notificação estamos dizendo para o pai de família que ele deve sair dali porque o risco é muito alto;, explica o major Toni. As casas de Nyedja e Eva ainda não foram notificadas e estão em monitoramento. Técnicos da Defesa Civil fazem visitas constantes ao local para verificar se a erosão está crescendo. Apesar do medo, as duas não querem sair. ;Do que adianta preservar nossa vida e passar dificuldade em outro lugar? Não tenho para onde ir e nem condições de pagar aluguel;, alega Nyedja. ;Eu já me acostumei com a vizinhança. Sou costureira, tenho a minha freguesia;, justifica a vizinha.

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