postado em 12/01/2009 07:00
A pista de skate era um daqueles sonhos que se tem acordado. "Sempre foi uma viagem minha, irmão. Eu dizia assim: ;um dia vou construir isso aqui;. E construi, entendeu?", tenta explicar Tiago Barros, 20 anos, com fala e roupa largadas e um gorro na cabeça que ele não tira por nada. O rapaz é responsável por uma reviravolta entre os skatistas do Recanto das Emas. Sem esperar ajuda de ninguém, ele construiu rampas, corrimões e criou o único espaço apropriado para andar de skate na cidade. O lugar virou ponto de encontro da juventude. E serviu de impulso para que a turma conseguisse apoio do governo e respeito da comunidade.
Essa história começou a se concretizar em 2006, quando o lote 18 da quadra 101 da principal avenida do Recanto ficou ocioso. No local, funcionava uma casa de show que desabou depois de um temporal. O proprietário do terreno nunca mais apareceu. Um dia, Tiago passou por ali e visualizou o sonho de construir a pista de skate. Foi para casa, montou um projeto cheio de desenhos e cálculos e saiu em busca de patrocínio pelas madeireiras da vizinhança. Garantiu R$ 700 em material e buscou o que faltava em terrenos baldios. Tirou dinheiro do próprio bolso para comprar um pouco mais de madeira e durante um mês construiu, sozinho, as primeiras rampas.
O sonho movia Tiago. Assim que tudo ficou pronto, ele conseguiu emprestado um caminhão para levar o material da própria casa, transformada em carpintaria, para o local abandonado. As tintas para pintar as rampas foram doação da loja que fica do outro lado da rua. E a carcaça do fusca vermelho que é o xodó dos skatistas, Tiago comprou em um ferro-velho por R$ 90. Aos poucos, o que estava no papel ganhava vida. "Eu ralei, corri atrás. Não é por acaso que isso existe e que eu estou aqui", comenta o jovem que, de tão empolgado, às vezes se perde na fala. Ele evita assumir ser o protagonista dessa história. Mas sabe que é.
Houve quem criticasse o rapaz e achasse que ele estava sendo muito idealista. Ele preferiu não dar ouvidos e continuou a sonhar. A tática deu certo. Não demorou muito para os primeiros skatistas da cidade começarem a ocupar a pista. Tiago emprestava o skate para quem não tinha o seu e, com isso, a garotada ia aprendendo algumas manobras. Logo as atenções da juventude se voltaram para a pista. E Tiago, não satisfeito, queria mais. Passou a organizar campeonatos e idealizou, com a ajuda de um amigo, o Poerão do Rock, uma sátira do tradicional festival de Brasília. A pista de skate, desde então, se transforma duas vezes por ano em palco para bandas alternativas.
A iniciativa de Tiago despertou muita gente. A maior prova disso é que, este ano, enfim, o projeto Skate Park nas Cidades ganhou fôlego depois de 10 anos de luta do coordenador Fábio Campos, 29 anos, também morador do Recanto. "Isso aqui foi o começo de tudo", reconhece, ao falar da ideia do colega. As oficinas começaram na semana passada. Tiago é o instrutor. Três vezes por semana, 60 meninos entre seis e 17 anos fugirão da ociosidade. Divididos em duas turmas, uma pela manhã e outra à tarde, a garotada aprenderá que pode ocupar o tempo livre sem cair na vala da criminalidade. A oficina prioriza quem não tem condições de comprar o próprio skate.
O apoio agora vem de todos os lados. O Ministério dos Esportes e o Instituto Comunidade Participativa doaram 10 skates e equipamentos de proteção para a oficina. O sucesso do espaço idealizado por Tiago também acelerou a construção do Skate Park do Recanto. Em 60 dias, a administração promete deixar pronta a pista oficial, que será construída entre as quadras 206 e 300 e terá inclusive vestiários. Depois da inauguração, as aulas serão transferidas para o novo espaço. Mas a pista onde tudo começou não será desativada. E continuará sendo palco do Poerão do Rock. "Não vou abrir mão disso aqui tão cedo. Esse lugar guarda um sonho", destaca Tiago.
Risco nas ruas do Recanto das Emas
Antes de Tiago realizar o sonho de construir uma pista de skate, os praticantes desse esporte radical no Recanto das Emas se arriscavam no meio da rua. O estudante Pedro Vinicius Pereira, 25 anos, lembra que um posto de gasolina era o ponto de encontro da turma. Hoje ele vê o filho de 6 anos, o Pedrinho, caçula da oficina, deslizar seguro na pista construída às margens da principal avenida da cidade. E o garoto, de tênis e uniforme apropriados, está empolgado com a brincadeira. "Antes eu só andava sentado na prancha, agora sei até bater o ollie (manobra básica)", orgulha-se Pedrinho, que anda de skate desde os quatro anos.
Os irmãos João, de 13, e Ruan, 11, garantiram vaga nas aulas três vezes por semana. Eles são filhos de catadores de papelão. Caminham 15 minutos para chegar à pista. Não têm skate nem calçado próprio para andar sob a prancha. "Mas acho até melhor andar de chinelo", diz o mais novo. Os dois descobriram o skate por causa do jovem Tiago, que mora perto da casa deles e os convidou para frequentar a pista. "Vim uma vez e agora venho sempre. Melhor do que ficar em casa sem fazer nada", explica João, o mais falante do grupo. "Nunca tinha andando em um skate novo. Aqui estou realizando meu sonho", comenta o garoto, ao estrear os equipamentos novos doados para o início da oficina.
O skate surgiu como alternativa para uma juventude que só tinha o futebol como opção de esporte na cidade. Os filhos da dona-de-casa Célia Cristina Gomes, 38 anos, vão entrar na oficina quando começar a funcionar a pista nova. "Se não tiver isso, você sabe o que acontece, né? Os jovens vão para a criminalidade", discorre a mãe, consciente da dura realidade na periferia. Jhonatan, 12 anos, já concordou em dividir o tempo livre entre o futebol e a pista de skate. A irmã Juliana, 10 anos, está ansiosa com a inauguração do novo espaço, prevista para daqui a dois meses. "Eu gosto de skate. E não tenho medo cair. A gente aprende é caindo mesmo", comenta.
A oficina no Recanto das Emas servirá de modelo para que o projeto Skate Park nas Cidades tome conta de todo o Distrito Federal. Na Vila Areal e em Planaltina, o trabalho está mais avançado e as aulas começam também este semestre. O impacto do sonho de Tiago é maior do que ele pode imaginar. A iniciativa desse jovem, querendo ou não, sacudiu o mundo do skate no DF. "Sou muito realizado. Acho que sou um instrumento nas mãos de Deus para ajudar a minha comunidade", resume o rapaz, que terminou o ensino médio e, além de continuar dando aulas, agora quer fazer engenharia para construir mais pistas e ajudar a realizar mais sonhos.