Cidades

Lixão da Estrutural não fecha nem à noite

Coleta de garrafas, papéis e latinhas é ininterrupta na Estrutural. Crianças acompanham os familiares madrugada adentro e há quem monte barracas de lona e papelão para se proteger do frio e da chuva

postado em 16/01/2009 08:03
A noite é escura no aterro da Estrutural. Não há postes para iluminar os mais de 160 hectares repletos de lixo. No meio da escuridão, no entanto, algumas luzes fracas iluminam o chão. São lanternas dos catadores que trabalham na madrugada. A coleta de garrafas pet, papéis, latinhas e comida não tem intervalo no Lixão. E, para aguentar o frio da madrugada ou a chuva desta época, muitos já construíram abrigos. As barracas de lona, madeirite ou papelão servem para proteger os adultos e abrigar crianças. Os pequenos acompanham os pais no trabalho ou, simplesmente, não têm com quem ficar. Ana Lúcia* , de 27 anos, levou a filha de 8 anos de carroça para o Lixão. Era tarde quando foi abordada por um dos agentes da portaria. A mãe argumentou que um vizinho dela havia tentado abusar da menina. ;Não tenho confiança de deixar ela lá. Meu marido é vigia três noites por semana e ela não pode ficar em casa sozinha;, alegou a mulher. É uma decisão difícil porque à noite o aterro é ainda mais insalubre. Os animais, principalmente os ratos, ficam ariscos e o trabalho de coleta, perigoso. No escuro, é fácil machucar as mãos com cacos de vidro ou pisar em pregos enferrujados. ;A gente vai escolhendo as coisas pelo que vai sentindo com a mão;, relata o adolescente Ricardo*, de 16 anos. Ele não gosta de trabalhar durante a noite, mas reconhece que às vezes é a única opção. ;Tem dias em que a gente não consegue muita coisa e fica até mais tarde;, afirma. No caso do rapaz, um agravante. Ele não usa botas para trabalhar, apenas um chinelo. Há também crianças e adolescentes que entram no Lixão às 5h da madrugada, quando a fiscalização não é grande. É uma forma de vasculhar a área sem chamar a atenção. ;Fica mais fácil se esconder no meio dos sacos de pet;, explica Ricardo. A prática tende a ficar mais perigosa. A empresa Valor Ambiental, que administra o local, está abrindo valas de três metros de profundidade e dois de largura ao redor dos 18km de perímetro do aterro. Antes, apenas cercas impediam a entrada no Lixão e elas eram cortadas. A medida tenta afastar pessoas não cadastradas no aterro e, principalmente, evitar a entrada de meninos e meninas. Dias contados? De acordo com Francisco de Assis Almeida Linhares, diretor da Central de Cooperativas de Materiais Recicláveis do DF (Centcoop), o trabalho noturno está com os dias contados. Com a implementação da coleta seletiva, a previsão é de que não haja trabalho à noite nem presença de crianças ou doenças ligadas ao lixo. ;Serão 18 galpões, em cidades diferentes, que receberão o material selecionado;, explica. Cada grupo de catadores, em associações ou cooperativas, será responsável por um lugar e responderá legalmente pela presença de crianças, por exemplo. ;Não vai ser permitido criança e a situação da saúde vai melhorar.; A Centcoop reúne hoje 18 organizações, num total de 3.500 catadores. Um edital publicado no Diário Oficial do dia 5 deste mês estabeleceu regras para o cadastramento de grupos de catadores que pretendem participar da Coleta Seletiva no DF. Cada um deles terá prazo de 60 dias para apresentar os documentos exigidos pelo Serviço de Limpeza Urbana. Os assistentes sociais da empresa Valor Ambiental, que hoje administra o local, estão estimulando a formação de cooperativas. O edital funcionará como um concurso. Se houver mais associações do que vagas, o GDF irá selecionar quem terá direito de trabalhar. As cooperativas serão classificadas por pontos. É esta lista classificatória que definirá quais instituições participarão da coleta seletiva de lixo no DF. A pontuação levará em conta o número de cooperados, o tempo de trabalho com resíduos sólidos e a capacidade técnica ; uma declaração emitida por órgão público ou privado. ;A ideia é boa, mas tem resistências;, observa Assis. ;Os empresários têm medo de perder dinheiro. Os político não querem perder votos e os catadores não querem perder a liberdade de coletar.; *Nomes trocados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente Memória Bird exige fim do aterro Para receber recursos do Banco Mundial (Bird), o governo do Distrito Federal precisa desativar o aterro do Jóquei Clube, o Lixão da Estrutural. Essa é uma das exigências da entidade internacional para liberar uma linha de crédito de US$ 57 milhões. Os recursos serão aplicados pelo governo local na segunda etapa do projeto Brasília Sustentável, que prevê obras de urbanização nos condomínios Pôr do Sol e Sol Nascente. Em novembro do ano passado, uma equipe do Bird veio à capital avaliar o andamento de obras nos setores de saúde, educação e transporte, tratadas como contrapartida para a liberação da linha de crédito. Na mesma ocasião, os técnicos do Bird estiveram no aterro e observaram catadores disputando material reciclável em condições insalubres. A proposta de fechar o Lixão deve ocorrer juntamente com a abertura do aterro de Samambaia, que funcionará próximo à Estação de Tratamento de Esgoto da região administrativa. O Bird é o financiador do projeto, que inclui a revitalização da área do atual aterro e a construção do novo. A previsão é de que a estação de tratamento de Samambaia esteja funcionando no segundo semestre deste ano.

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