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Correio Braziliense

Quem são os conselheiros espirituais de Brasília e por que eles fazem sucesso

Da astrologia ao tarô, saiba quem é quem na hora de buscar o autoconhecimento


postado em 25/01/2009 09:08 / atualizado em 25/01/2009 09:19

Anunciada em sonhos e premonições, Brasília carrega consigo um misticismo de tamanho e beleza proporcionais ao céu que a cobre. Místicos garantem: essa é a dita terra prometida e, por esse motivo, tantas crenças diferentes por aqui nascem ou se acomodam. Os filhos da cidade também carregam um forte gosto pelo sagrado. Não é à toa que buscam tanto o apoio de conselheiros espirituais para determinar novas metas, ou até mesmo para mergulhar no autoconhecimento. Doutor em filosofia da religião pela Universidade de Londres, Agnaldo Portugal, professor da Universidade de Brasília (UnB), vê ciência por trás dessa característica. Com raízes culturais ainda bem incipientes, o brasiliense se permite experimentar as mais variadas crenças — até mesmo aqueles que já seguem uma religião determinada. “O alto grau de instrução também ajuda nessa liberdade. Grande parte declara-se ‘sem religião’, mas na realidade alimenta um conjunto pessoal de crenças”, explica Portugal. A superstição e a atração pelo mágico, naturais do povo brasileiro, têm por aqui um terreno fértil. “Surge uma abertura para ser católico, mas também aconselhar-se com um pai-de-santo de candomblé e tomar um passe no centro espírita”, exemplifica o professor. Mas qual seria o perfil dos grandes conselheiros espirituais de Brasília? A Revista ouviu pessoas influentes na cidade para descobrir quem são os mais badalados do momento. Alguns, como Raul de Xangô, se mantêm na lista dos mais procurados após décadas de atendimentos com búzios e tarô. Outros, como o astrólogo Carlos Maltz, cresceram nos últimos anos por oferecerem um serviço diferenciado. Além de fugirem do título de guru e de se negarem a comentar sobre os clientes importantes, eles carregam outra crença em comum: sentem-se predestinados a viver em Brasília e, aqui, ajudar pessoas a encontrar o sentido em outras coisas além do material. Sensibilidade acima da média O pernambucano José Acleildo, 51 anos, esteve pela primeira vez na cidade quando tinha 17 anos. Vinha do Rio de Janeiro, onde trabalhava como figurante em programas infantis de TV. Não veio por escolha, e sim por ordem. Ele já se dedicava ao espiritismo e, em uma ocasião, entrou em estado de transe e viu a Esplanada dos Ministérios e uma pirâmide, que hoje identifica como o prédio da CEB, no início da Asa Norte. Em 1983, mudou-se para cá. Sem expectativas, mas com a certeza de estar cumprindo uma missão espiritual. “Sentia a cidade como o berço do amanhã, a cidade dos médiuns, o grande centro responsável pelo sossego do mundo”, conta. Na década de 1990, ele submeteu-se a estudos de universidades norte-americanas que comprovaram faculdades paranormais. Acleildo conta que, logo que chegou, percebeu um aumento de sua sensibilidade. Por três anos, conciliou o trabalho de atendimento espiritual com o funcionalismo público. O reconhecimento como conselheiro surgiu depois de atender algumas pessoas da sociedade. A fama se espalhou e, pouco depois, ele já atendia políticos de alto escalão, artistas, médicos e desembargadores. Muitos evitam ir ao consultório pessoalmente, mas mandam emissários para as previsões. Na lista dos clientes notórios estão o ex-presidente Fernando Collor e a apresentadora Xuxa. “Há muita responsabilidade, eu sei. Ajudo a definir desde elenco de filme a secretariados de governos, com base na análise das energias”, conta. A agenda torna-se cada vez mais concorrida, já que Acleildo tem reduzido o número de atendimentos diários. Ele conta mais de 15 mil pessoas atendidas, sendo a metade de brasilienses. “Tenho orgulho de já atender netos de Brasília. Esta cidade é meu porto”, diz. O faxineiro cósmico Raul de Xangô, 78 anos, é natural de Natal (RN). Aos 11 anos, abandonou a escola e passou a estudar ciências humanas de forma autodidata. Filho de kardecistas, ele descobriu o culto afro ainda na adolescência. Conheceu Brasília em 1958, e sete anos depois, recebeu uma proposta profissional para montar uma empresa na nova capital e, com ela, “uma missão espiritual”, como diz: deveria instalar um terreiro de candomblé na cidade. Ao chegar aqui, ficou na Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante. Tempos depois, o terreiro foi transferido para uma chácara na região do Paranoá. Raul também tem 13 filhos, com idades entre 61 e 14 anos. A personalidade de Raul de Xangô é algo ímpar: uma mescla de mago, pai-de-santo, boêmio, poeta, sonhador. O passo lento não combina com a rapidez do raciocínio. O homem se transforma durante os rituais: canta e dança com o mesmo vigor dos 30 e poucos. Ele domina a conversa, aconselha com citações de grandes pensadores, busca a beleza na arte de viver. “Sou um artesão de energias, um lembrador de quem não lembra de si, além de agir como um faxineiro cósmico quando é necessário”, filosofa, ao se definir. Nas consultas, feitas com o auxílio dos búzios e das cartas de tarô, as informações são dadas “aos sacolejos”, como diz. Coisa com que os clientes não se importam — percebe-se pelo tempo de espera por uma consulta, que chega a três semanas. “Sou um bruxo com os pés no chão. O cotidiano deve receber o tratamento que merece, não sou de alimentar criações na cabeça dos outros”, define. Procurado por autoridades em diferentes gerações, ele mantém a discrição sobre quem o busca. Mas garante já ter atendido até padres e freiras — alguns teriam se submetido a rituais de magia. “Não me importo com doutrinação, com religião. Meu dever é com o bem-estar”, diz. Bruxa moderna Brasília revelou à servidora Márcia Bianchi, 45 anos, uma nova personalidade. Quando chegou aqui, em 1991, vinda de São Paulo, ela se descobriu uma grande mãe dentro da wicca, a bruxaria moderna. Na religião, ela ganhou o nome de Mavesper Cy Ceridwen, associado a deusas da maternidade: sua missão, a partir dali, seria de usar as artes mágicas para cuidar das almas dos outros. Anos depois, ela assumiria a presidência da Associação Brasileira de Arte e Filosofia da Wicca (Abrawicca). Um dos papéis de uma bruxa é usar os oráculos, vistos por elas como uma ponte entre os homens e a natureza. Assim, em 1998, ela iniciou um trabalho de atendimento com as cartas de tarô, associado à prescrição de rituais mágicos para quem precisa encontrar sorte, paz, amor ou prosperidade. Grande parte dos clientes que a procuram chega com grandes expectativas. Depara-se, no entanto, com uma pessoa livre do semblante sorumbático das fábulas infantis. Não fossem alguns símbolos espalhados na chácara onde mora, ninguém diria ser ela uma bruxa. “Alguns ficam muito bravos, por pensarem que o título de bruxa me faz ser capaz de resolver qualquer problema, como nos filmes”, conta. Ensinar e não realizar magias, segundo ela, é uma forma de se proteger dos vínculos energéticos com os clientes. Outro tipo indesejado é o viciado em oráculos, ou seja, pessoas que não conseguem resolver nada sem buscar ajuda. Por esse motivo, Márcia rejeita consultas com menos de três meses de intervalo. “A resolução está em entender os motivos dos problemas, e não em livrar-se deles. Nem todos estão dispostos a enxergar isso”, diz. Estrela do rock A birra natural de um escorpiano fez com que Carlos Maltz, 46 anos, se interessasse por astrologia, na década de 1990. Ele ainda era baterista da banda Engenheiros do Hawaii e, de olho em uma garota, resolveu estudar a relação dos planetas com os homens para impressioná-la. No entanto, o lado científico que descobriu nos livros fez com que se apaixonasse pelas estrelas. “Era minha diversão durante as viagens com a banda. Passava o dia inteiro lendo sobre o tema.” Ao sair do grupo, em 1995, e arriscar frustradamente a carreira com outras bandas, a astrologia surgiu como uma oportunidade profissional. Em 1999, veio visitar amigos em Brasília e, na ocasião, olhou para cima de uma forma diferente. “Foi o céu quem me chamou. Era impossível ser astrólogo e não estar tão próximo dele, como a cidade proporciona”, afirma. Maltz desenvolveu um método pessoal de atendimento, focado na análise da psique do cliente. Não gosta muito de previsões. “Favoreço um olhar para a realidade, mostro às pessoas como elas são”, explica. Algumas vezes, de forma contundente. “Ainda fico espantado com o fato de ter conseguido crescer na carreira. Muitos saem me odiando, mas voltam, ao perceberem que a bronca é para o bem”, brinca. A natureza do trabalho acaba selecionando a clientela entre pessoas de maior nível cultural. “O lado científico diminui a barreira, especialmente entre os céticos”, avalia. Mas nem isso o livra dos fanáticos de plantão. “Há quem chegue aqui para comprovar que são seres iluminados, ou que estão com um lugar garantido no céu”, conta. Nem todas as cartas são marcadas Desde a infância, o mineiro Paulo Troncoso, 59 anos, percebia sinais perturbadores da realidade. Levado a um psiquiatra pelos pais, as visões e premonições foram interpretadas como um sinal de paranormalidade. O menino foi instruído a encarar tudo com naturalidade e não estimular o dom. Aos 19 anos, ele desembarcou em Brasília para acompanhar os irmãos mais velhos que buscavam trabalho. Chegar à cidade, no entanto, despertou novamente a sensibilidade. “Nesse tempo, eu já tinha lido muito sobre psicologia e pude contar com grupos de estudos da espiritualidade, que ajudaram a manter meu equilíbrio”, lembra. Em 1987, ele percebeu que os dons de premonição podiam ser “educados” com o uso de oráculos. Buscou a cartomancia como forma de canalizar as previsões e começou a atender as pessoas. Por anos, trabalhou como assistente em um consultório de psicologia: as consultas às cartas ajudavam a entender o que se passava na cabeça das pessoas. “Isso ainda mexe muito comigo. É difícil se acostumar com revelações tão íntimas que surgem com tanta espontaneidade”, diz. Esse trabalho moldou a sistemática de Paulo no trabalho como oraculista. As previsões, tão desejadas pelos clientes mais ávidos, são sempre ponderadas com os traços da personalidade de cada um. “Isso torna a consulta mais difícil para alguns, por não quererem admitir a parcela de culpa nos problemas”, conta. Discreto, Paulo descarta o discurso de infalibilidade. Em algumas consultas, é como se o oráculo simplesmente não quisesse revelar nada sobre o cliente. Segundo ele, uma das situações mais embaraçosas da profissão. As pessoas interpretam sempre como se um grande mal estivesse prestes a acontecer. “Fica difícil convencê-los de que nem sempre isso significa algo grave. Peço para voltarem em uma hora mais favorável.” Leia matéria completa na Revista do Correio deste domingo

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