postado em 01/02/2009 08:21
Fotografias e depoimentos reunidos pelo Correio, ignorados pelos investigadores da primeira força policial de Brasília, desmontam a versão oficial de um dos episódios mais marcantes e nebulosos da construção da capital, prestes a completar 50 anos. Segundo o inquérito da época e os responsáveis pela concretização do sonho do presidente Juscelino Kubitschek, tudo não passou de incidente com uma morte e três feridos. Todos operários da Construtora Pacheco Fernandes Dantas. Mas colegas das vítimas falam em massacre, às vez com centenas de executados. Os dois únicos jornalistas que desembarcaram no Planalto Central para cobrir o caso falam em nove mortes e pelo menos 30 baleados.
Não há imagens do conflito entre trabalhadores e os homens da temida Guarda Especial de Brasília (GEB) no acampamento da empresa na tarde de 9 de fevereiro de 1959. Não havia veículo de comunicação na capital na época. O Correio Braziliense, o pioneiro, circularia pela primeira vez no ano seguinte, no mesmo dia da inauguração da capital, 21 de abril. Agora, cinco décadas depois do confronto entre candangos e soldados no terreno onde hoje é a Vila Planalto, o jornal ouviu pelo menos 10 testemunhos do episódio sangrento. Resgatou ainda 21 depoimentos do Arquivo Público do Distrito Federal, além de algumas fotografias dos antigos acampamentos das construtoras envolvidas na construção da nova capital.
As imagens mais significativas são as de um grupo de operários feridos em um hospital de emergência da antiga favela do IAPI, no atual Núcleo Bandeirante. Todas fazem parte do acervo do extinto jornal Binômio. Editado e vendido em Belo Horizonte (MG), foi o único a enviar uma equipe de reportagem para tentar desvendar o que havia ocorrido no acampamento da Pacheco Fernandes no domingo de carnaval de 1959. O periódico não existe há décadas. Mas o dono, o repórter e o fotógrafo ; os dois últimos estiveram em Brasília há 50 anos ; estão vivos. O Correio os localizou na capital mineira. Todos sustentam a versão da matança de candangos.
O processo
O único registro oficial que sobreviveu ao meio século desde a suposta matança é uma cópia do processo aberto na época. O desembargador aposentado Lúcio Batista Arantes a encontrou em 2004 ao vasculhar caixas de documentos em casa ; o magistrado cuidou da primeira fase do caso enquanto titular da Comarca de Planaltina, então estado de Goiás. Os papéis reforçam a história divulgada na época como a oficial.
Apesar da conclusão, o calhamaço detalha o que ocorreu no acampamento da Pacheco Fernandes em 9 de fevereiro de 1959. O ;auto de verificação do delito;, assinado pelo delegado Arquelau Gonzaga, chama a atenção pela quantidade de balas que zuniram no alojamento. A descrição do local do crime indica 41 perfurações em paredes, portas e telhado. Ou seja, os tiros voaram em várias direções. Também se encontrou 13 cápsulas de calibre .38. Também há informações de que 45 operários foram espancados em fila ; um corredor polonês que a polícia costumava promover.
Os documentos confirmam ainda que houve ao menos um início de investigação. A denúncia do Ministério Público, por exemplo, descreve uma discussão ocorrida por volta das 19h entre o cozinheiro, um auxiliar de copa e operários da Pacheco Fernandes. O desentendimento, provocado por causa da comida ruim, fez com que um dos responsáveis pela empresa, Presbi Elpídio de Medeiros, mandasse um funcionário chamar a polícia. Luiz Bandeira Filho cumpriu a tarefa, denunciando a briga ao Departamento de Segurança Pública (DSP).
A ação
O responsável pela unidade enviou três soldados ao alojamento. Os trabalhadores avançaram contra o trio. Luiz Bandeira voltou ao DSP e disse que os policiais estavam na ;iminência de serem mortos pelos operários;. Assim, um grupo de 27 homens, sob as ordens do chefe da Seção de Controle da Polícia, Fernando de Faria Pimentel, chegou ao local no início da noite e descarregou as armas. O operário Evaristo Soares Brandão perdeu a vida. Antonio de Souza, Antonio Ubaldo Morais e Francisco Clemente dos Santos ficaram feridos.
Os quase 30 policiais acabaram detidos no dia seguinte, quando tiveram a prisão preventiva decretada. Mais tarde seriam expulsos da GEB, mas mesmo assim o Ministério Público entendeu na época que não tiveram culpa. O único acusado foi o soldado Otacílio Camelo da Silva, suspeito de ter atirado em Evaristo. Fernando Pimentel apareceu na denúncia como coautor. No entendimento do promotor, no entanto, os dois deveriam responder por lesão corporal seguida de morte. Presbi Elpídio de Medeiros foi denunciado por falso alarme porque levou a polícia a superestimar o perigo. A empresa Pacheco Fernandes Dantas deixou Brasília em 1963. Construiu o Palácio do Planalto, o Hotel Nacional e o Brasília Palace Hotel.
Leia reportagem completa na edição impressa do Correio Braziliense
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o clima da época, logo após o caso.