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Correio Braziliense

Antes do obelisco, o Pássaro da Paz

 


postado em 02/02/2009 08:18 / atualizado em 02/02/2009 08:35

A Praça da Soberania não é a primeira ideia de Oscar Niemeyer para incrementar a Esplanada dos Ministérios. Antes da proposta de construção de um obelisco com 100m de altura, com estacionamento subterrâneo para 3 mil carros e um memorial de ex-presidentes em frente à Rodoviária do Plano Piloto, saiu da prancheta do arquiteto o projeto de um grande prédio com o formato de uma ave. No interior das asas de concreto, haveria dois auditórios. Para Niemeyer, o nome do monumento seria Pássaro da Paz e representaria a esperança de que o mundo pode caminhar melhor, como ele mesmo declarou em entrevista à época. O projeto surgiu em meio à construção da Biblioteca Nacional e do Museu da República, em frente à Catedral, durante o governo de Joaquim Roriz. Mas nunca saiu do papel. Em seu em seu escritório no Rio de Janeiro, Niemeyer recebeu, em 2004, o então secretário de Infraestrutura e Obras, hoje deputado Tadeu Filippelli, e lhe entregou a criação, empolgado com a possibilidade de ampliar a sua obra na capital do país. O local previsto era justamente o que hoje abrigaria a Praça da Soberania. “Não fizemos (o Pássaro da Paz) porque avaliamos que poderia desagradar a muitas pessoas pela sua localização”, contou Roriz ao Correio. “Então, fizemos primeiro os outros projetos”, acrescentou o ex-governador. No fim do Eixo Uma solução chegou a ser cogitada: construir o monumento em outro lugar, no fim do Eixo Monumental, depois da Catedral Rainha da Paz. Segundo Filippelli, a possibilidade foi bem-aceita por Niemeyer. “Consideramos que a obra enriqueceria o conjunto arquitetônico de Brasília, mas poderia ser construída em outro local, já perto do Cruzeiro para evitar qualquer risco de levantar críticas quanto à preservação de Brasília”, conta o deputado federal. Apesar do aparente entendimento, o projeto ficou esquecido numa das prateleiras da Novacap. Pouco se falou sobre o assunto na ocasião, o que evitou uma celeuma como a que se instalou agora. artigo Breves notas sobre a Praça da Soberania Muito há que se fazer para nos aliviar das inadequações do Plano Piloto diante da nova realidade que o aumento da população de Brasília provocou. Não é razoável que a vaidade de alguns conservadores venha a manter o caos do trânsito da cidade, a desordem de vários setores (...) e a falta de estacionamento em praticamente todas as regiões Por Reginaldo de Castro * A polêmica sobre o projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer para a Praça da Soberania, alimentada fundamentalmente por opiniões individuais e subjetivas de representantes de setores administrativos ou não, interessados na mumificação de Brasília, revela que nem mesmo o idealizador da grande e admirável obra implantada na nova capital pelo indiscutivelmente belo traço de Niemeyer está a salvo dos fundamentalistas do tombamento de Brasília. Os argumentos dos que têm reprovado a proposta são pífios e absolutamente desprovidos de autoridade legal. Há os que são brandidos pelos órfãos do inesquecível e admirável Lucio Costa que, não raro, ousam substituí-lo como se pudessem reencarnar sua sensibilidade e talento para opinar sobre os destinos de nossa inigualável cidade. Outros inspirados no que denomino movimento do “tombochatismo”, cujo objetivo é obrigar a todos nós habitantes de Brasília a viver em um plano urbanístico mumificado, alheio à natural e indispensável modernização dos equipamentos urbanos que devem nos servir, óbvio que construídos com o cuidado de preservar e manter o que faz de Brasília uma cidade ímpar e tão amada por todos os seus moradores. Aos sucessores de Lucio Costa cabe lembrar que a autoridade de sua voz deve ceder passo e respeito a Oscar Niemeyer, pois, se foi o primeiro o autor do maravilhoso traçado urbano do Plano Piloto, o segundo deu-lhe alma e vida. Tanto um quanto o outro têm o direito de encaminhar propostas para novas edificações, segundo autoriza o parágrafo 3°, do Artigo 9º, da Portaria 314/92 do Iphan. Aos fundamentalistas respondo com o insuperável argumento de Glauco de Oliveira Campello, ex-presidente nacional do Iphan: “Brasília não foi tombada como sítio histórico. E mesmo as cidades tombadas como sítios históricos, a exemplo de Ouro Preto, Olinda ou Paraty, não estão condenadas ao congelamento. Nelas, podem surgir construções novas em áreas específicas, mediante parâmetros reguladores. Novos equipamentos de conforto podem ser adotados em suas infraestruturas. (%u2026) Portanto, do ponto de vista da preservação da cidade-capital, a civitas, e da cidade-parque, a urbs, o que prevalece são os ditames claramente estabelecidos no Plano Piloto, os quais são bem definidos, mas não são nem rígidos nem engessadores, por se tratar, justamente do plano de uma cidade, um organismo vivo. Tal como salientou o próprio Lucio Costa, no texto Brasília revisitada, onde chega a comentar que a definição de uso em cada setor apenas indicava uma predominância e não uma obrigatoriedade.” Sou um dos moradores de Brasília que aqui chegaram no longínquo ano de 1961, portanto, interessado na preservação da capital e, por isso, titular do direito de me manifestar sobre o tema e o faço para afirmar que as resistências à sugestão de Oscar Niemeyer foram previamente refutadas pelo próprio Lucio Costa como acima demonstrado. Muito há que se fazer para nos aliviar das inadequações do Plano Piloto diante da nova realidade que o aumento da população de Brasília provocou. Não é razoável que a vaidade de alguns conservadores venha a manter o caos do trânsito da cidade, a desordem de vários setores, como o Comercial Sul, os bancários Sul e Norte, a deterioração contínua do Setor de Diversões Sul e a falta de estacionamento em praticamente todas as regiões, sobretudo na Esplanada dos Ministérios e Praça dos Três Poderes. Oscar Niemeyer, do alto de seus 101 anos, presta mais um relevante serviço a Brasília quando nos desperta para o dever de livrar nossa cidade das amarras que têm impedido seu ajustamento às nossas aspirações. * Ex-presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)

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