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Correio Braziliense

Niemeyer desiste da praça na Esplanada

O projeto do monumento à soberania, com obelisco e Memorial dos Presidentes, ficará na gaveta. Arquiteto desistiu da obra que inflamou a capital, acatando argumento da falta de dinheiro para a construção


postado em 04/02/2009 08:15 / atualizado em 04/02/2009 09:04

Depois de duas semanas na trincheira, alvo de intensos debates e discussões, Oscar Niemeyer decidiu encerrar a polêmica sobre a construção da Praça da Soberania na Esplanada dos Ministérios. Entristecido, emocionalmente exausto e convicto de que o tema foi discutido na “medida certa”, o arquiteto escreveu o artigo em que se propõe a encerrar a questão e colocar de lado a ideia da praça — ao menos, “provisoriamente”. Aliviado e convencido de que este é o ponto final, Niemeyer vai se entregar novamente à leitura de A viagem do elefante, do português José Saramago, o romance que conta a história de um elefante transportado de Portugal à Áustria no século 16. O elefante era um presente para a coroa austríaca. Um presente menos polêmico que aquele oferecido pelo arquiteto a Brasília. O texto ao lado é o quarto escrito pelo arquiteto nos últimos 14 dias — todos foram publicados pelo Correio. No primeiro, Niemeyer, que esteve em Brasília no fim de 2008 às vésperas de completar 101 anos, criticou o tombamento. Afirmou, em 22 de janeiro, que “as metrópoles mundiais vêm sofrendo mudanças que se justificam, impossíveis de conter”. No artigo do último dia 30, quando muitos especialistas e a população brasiliense já haviam se manifestado contra a construção da praça, o arquiteto ofereceu uma explicação do projeto. Dizia que a “briga” estava boa, polarizada entre as opiniões que considerava “elegantes” e aquelas “petulantes”. E já sugeria ao governador José Roberto Arruda criar uma comissão para tratar dos problemas urbanísticos de Brasília e demais cidades do Distrito Federal. O arquiteto insistia, em seu terceiro texto, no dia 1º deste mês, na necessidade de voltar os olhares para todo o DF. A separação entre ricos bem acomodados no Plano Piloto e pobres amontoados nos arredores perturbou Niemeyer. Mais uma vez, ele pediu comissão para avaliaros desafios urbanísticas da capital. A proposta dividiu os especialistas. Alguns lembraram que já existem vários grupos com essa função, entre eles o Conselho de Planejamento Territorial do DF (Conplan) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Arruda acolheu a ideia de reunir arquitetos, mas não prometeu criar a comissão. Agora, Niemeyer reforça a importância da praça, mas acata a falta de dinheiro alegada pelo governador para não prosseguir com o projeto. E avisa que vai se recolher às suas leituras e aulas de cosmologia, uma atividade que encara como um aprendizado da pequenez humana no universo infinito.

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