Publicidade

Correio Braziliense

O mestre e o pintor de paredes

Há oito anos, Wagner Ricarte se encontrou com Athos Bulcão, o artista plástico que repaginou Brasília com seus azulejos. Hoje, ele ajuda a montar a exposição com reproduções das obras do gênio


postado em 07/03/2009 08:05 / atualizado em 07/03/2009 08:19

Athos Bulcão, o carioca que coloriu Brasília como se colorisse a própria vida, dizia que fazia suas obras não para ele, mas para o povo. A prova disso é que raramente ele as assinava. Achava que elas, uma vez prontas, não lhes pertenciam mais. Morreu assim, acreditando que a arte tinha que chegar aonde o público estivesse e as pessoas passassem. Sábio Athos! Sua obra não só chegou aonde estava o povo, como mudou rumos. Alterou pensamento e fez até um pintor de paredes, depois que o conheceu, também acreditar que é artista. E dos bons. Mas para entender essa história é preciso voltar um bocadinho no tempo. Há oito anos, um jovem pintor de paredes, então com 25 anos, foi chamado para ajudar na restauração do painel que o artista plástico havia feito para o Itamaraty. A obra, chamada de Treliça, fica no mezanino do palácio e tem estrutura de madeira e placas de ferro pintadas com tinta automotiva. Virou destaque na Sala dos Tratados, lugar de visita obrigatória para ministros e presidentes em visita a Brasília. O projeto é de 1957, mas só em 1970 a peça foi inaugurada. Um dia, lá estava ele, o pintor de paredes, raspando a madeira e as placas de alumínio e às voltas com a pintura, quando o mestre, já de andar vagaroso e adoentado, chegou ao local. Havia um mês o pintor se detinha àquele ofício. Athos chegou, parou e olhou o que tinham feito com sua obra. Gostou imensamente do que viu. “Ele até sorriu”, lembra o rapaz. E depois partiu. Aquele foi o primeiro e único encontro do pintor de paredes com o artista plástico. “Eu já tinha ouvido falar do Athos, conhecia a obra dele, via na rua, mas nunca pensei que um dia fosse conhecer ele, ficar cara a cara”, conta, ainda extasiado, depois de tantos anos. Aquele único encontro marcou, para sempre, a vida do pintor de paredes. Foi um divisor de águas. “A partir daquele dia, minha pintura passou a ser diferente. Minha mente se abriu. Mudei a forma de pintar paredes. Comecei a inventar coisas. Usei como paradigma a simetria de Athos”, diz, usando exatamente essas palavras, o homem que começou, a partir daquela restauração na obra do gênio, a se perceber artista. Um dia, num espatulato que fez na parede da sala do apartamento de uma moradora de Águas Claras, ele lhe contou que tinha conhecido Athos e trabalhado na restauração da Treliça, do Itamaraty. “Ela ficou contente e espalhou a história no prédio inteiro”, conta, às gargalhadas. Passaram-se os anos. Na semana passada, um telefonema pegou de surpresa o pintor de paredes. Era um convite. Perguntaram-lhe se aceitaria trabalhar numa exposição em homenagem a Athos, no Museu Nacional da República. Wagner Lopes Ricarte, brasiliense — de 33 anos, ensino médio completo, filho de um paraibano, também pintor de paredes, morador do Gama, casado, uma filha de 9 anos —, não pensou duas vezes. Aceitou na hora. E sabia que teria um desafio e tanto pela frente. “Eu sou movido a desafios. Gosto disso”, justifica o rapaz, que aprendeu o ofício aos 15 anos com o pai. Compositor de espaços E lá se foi Wagner para mais um encontro, agora em memória, com o artista que mudou sua vida. Na exposição Athos, compositor de espaços, organizada pela Fundação Athos Bulcão, serão apresentadas 17 reproduções de obras do artista plástico que morreu em julho do ano passado, aos 90 anos, pouco antes de completar meio século de vida dedicada a Brasília. São obras que se incorporaram à paisagem da cidade e integraram sua arquitetura. “Costumamos dizer que a obra de Athos é um museu a céu aberto. Com esta exposição, fazemos o caminho inverso e trazemos suas obras para um museu propriamente dito”, explica a secretária executiva da fundação, Valéria Cabral. Um dos curadores da exposição, Agnaldo Farias, emenda: “Athos raciocinava sobre o espaço que lhe era dado e criava em cima dele. Por isso podemos chamá-lo de compositor de espaços”. E no meio dessa gente importante que tão bem conheceu Athos e suas obras, lá está ele, o pintor de paredes, dando forma à exposição. “Eu jamais poderia recusar esse trabalho”, ele insiste. Para ajudá-lo, Wagner chamou o pai, também pintor, para dar a primeira mão de tinta nos painéis. Depois, convidou o desenhista Cláudio Gonzaga, 32, para ajudá-lo nas reproduções. “É um prazer pintar a obra dele”, confessa o rapaz. E a fundação cedeu o funcionário Dalton Germano de Aquino, de 32 — que conviveu com o artista por 13 anos, virou motorista, cuidador e o ajudou nas últimas obras. “Com ele, eu aprendi a gostar de arte. Ele me ensinou coisas importantes”, conta. Estava formado o time que, em apenas oito dias, teria a missão de fazer todo o trabalho. Foram 12 horas, todos os dias, sem descanso. E até segunda-feira, a jornada continua. Wagner buscou a perfeição. “Às vezes, sinto como se a energia dele estivesse por aqui, apontando o dedinho e dizendo: ‘Tá faltando mais uma mão de tinta’. É preciso ser fiel à obra dele”, emociona-se. E o pintor de paredes constata, olhando uma das principais telas da exposição, a reprodução de um painel, obra que o mestre fez para o Hospital Sarah, do Lago Norte, e levou quatro dias para ficar pronta no museu: “A obra dele é de um colorido mágico, único. Athos é lúdico. Até as crianças se encantam”. Calçadão Entre as obras reproduzidas para a exposição, uma é inédita. Ele a deixou pronta, está lá, na sua fundação, num desenho guardado como um tesouro. É uma calçada que Athos imaginou em algum lugar de Brasília. Nela, detalhes dos seus azulejos. No Museu Nacional da República, a obra tem 197m². Ocupa o centro do espaço de Niemeyer. O povo que o artista sempre exaltou e para quem efetivamente dedicava suas obras poderá caminhar por ela durante a visitação, como se estivesse na rua. Na tarde de ontem, de bermuda, camisa branca manchada de tinta e chinela de dedo, Wagner e seus dois colaboradores se dedicavam aos retoques finais da calçada. Ainda sem acreditar que mais uma vez está diante da obra do homem que lhe fez ver de verdade a arte, o pintor de paredes sonha em nunca parar. “Quero abrir leques e fazer arte. Já trabalhei como frentista, fui gerente de posto de gasolina, mas é como pintor que me realizo. É aqui exercito o melhor de mim”, reconhece. Semana que vem, a exposição será aberta ao público. Wagner já fala em saudade. “É um prazer estar aqui. Vou sentir muita falta. Quando você termina a obra, vê a simplicidade do trabalho de Athos. A vida é simples como arte dele”, compara. Planos? “Trazer toda minha família aqui. E vou dizer à minha filha de 9 anos que o pai dela conheceu o homem que deu cor a Brasília.” E o pintor de paredes — que anda no Escort 1988, escreve poesia, leu recentemente A mão e a luva, de Machado de Assis, achou “surreal” o fim de A Insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, gosta de Chico Buarque, é amante enlouquecido do bom rock n´ roll e já usou o cabelo na cintura — também virou fã incondicional de Athos, o artista que repaginou Brasília com seus azulejos coloridos. Foi um encontro improvável. E ele aconteceu há oito anos. Era o artista consagrado e ovacionado, já doente e falando com dificuldade, com o jovem e desconhecido pintor de paredes. Um morreu e deixou um legado inestimável à cidade que amou desde que a viu. O outro se transformou a partir daquele dia. A vida também é feita de acasos. Athos deve estar feliz.


NÃO PERCA A Exposição Athos Bulcão: compositor de espaços abre ao público na próxima quinta, dia 12, no Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios. Fica até 12 de abril, de terça a domingo, das 9h às 18h30.
Veja videorreportagem sobre os bastidores da exposição

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade