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Correio Braziliense

O encontro do guerreiro Igor com o novo mundo

Após ter sua história contada pelo Correio, garoto que tem uma grave distrofia muscular realiza o sonho: ganhou dois computadores. Mãe doará um deles à escola classe do filho


postado em 19/03/2009 08:39 / atualizado em 19/03/2009 08:41

Ele olha as fotos no computador e ri. Ali, registrada pela mãe ou pelo pai, numa câmera amadora, está toda sua vida — a maior parte dela na UTI de um hospital. Ele junta as duas mãozinhas e com os punhos movimenta o mouse. É inacreditável a forma que arrumou para superar e driblar as limitações. Passa uma a uma as muitas fotografias. Embora bem miudinho, as lembranças ficaram impregnadas na sua memória. Ele conta um ou outro detalhe do que vê. Reconhece quem está com ele. E escancara um sorriso. Enche o quarto humilde, decorado com papel de parede, de felicidade. Enche o lugar de vida. Aquele computador é o maior presente que aquele menino já ganhou na vida. E ele o chamou, como se o batizasse, de Maria Clara. Por quê? No fim desta reportagem você saberá. Essa é a história de Igor Diolindo Silva, de 4 anos, que mora em Planaltina. E a luta que travou pela vida, a torcida de toda uma equipe médica e a incansável e comovente insistência dos pais para que ele sobrevivesse. O menino venceu terríveis prognósticos. Não passaria dos 2 anos, em função da suspeita de ter uma grave atrofia muscular espinhal. Com um mês de vida, o primeiro sinal, aquele que mudaria para sempre a vida de toda a família. Igor foi internado com insuficiência respiratória. Os pais, a dona de casa Rosângela Diolindo, então com 28 anos, e o pai, o pizzaiolo Domingos Sebastião Silva, com a mesma idade, se desesperaram. Levaram-no ao Hospital Regional de Planaltina (HRP). O quadro era de uma infecção viral, que causava dificuldade respiratória. Ficou ali alguns dias. Voltou para casa. Mas começaram as intercorrências. Igor se dividiu entre o HRP e o Hospital Regional da Asa Sul (Hras). Exames tentavam investigar a causa para a piora gradativa do bebê. Veio a internação definitiva. A UTI do Hras começava a ser o seu endereço. Foi submetido a uma traqueostomia (abertura cirúrgica feita no pescoço para permitir a passagem de ar e a remoção de secreções do pulmão). Além disso, fez também uma gastrostomia (procedimento cirúrgico feito à altura do estômago para a fixação de uma sonda alimentar). O sofrimento era avassalador. Todo dia era como milagre. Renascimento O valente Igor deixou a UTI e foi para unidade semi-intensiva. Chegara a um ano e meio de vida. E o hospital tinha sido a única casa que conhecia. Aos poucos, ele foi deixando o respirador. E veio o diagnóstico final, depois de um exame de DNA. A melhor notícia que os pais esperavam. Igor não é portador da Síndrome de Werdning Hoffman, como suspeitaram os médicos. Ele tem uma grave distrofia medular à altura da quarta cervical, que o impedirá, para sempre, de andar. A única esperança está nas células-tronco. Com dois anos e meio, finalmente, deixou o hospital. A equipe médica foi às lágrimas. Ele conheceu a vida lá fora. Foi para a escola. Está matriculado no ensino regular, na Escola Classe 1, de Planaltina. Virou o xodó da professora e dos coleguinhas de sala. Mais: no Centro de Ensino Especial 1, também da cidade, tem aula de informática e música. Na faculdade Uniplac, no Lago Sul, faz fisioterapia duas vezes por semana. A agenda do miudinho é extensa. Na sexta-feira passada, o Correio contou, com exclusividade, a história desse menininho que desafiou a morte como gente grande. E revelou, lá pelas tantas, o sonho dele: ganhar um computador. Ele é fascinado pela engenhoca. Uma vez, na casa de um primo, viu um. Ficou extasiado. Gostou das fotos, dos joguinhos e das músicas que saíam dali. Disse à mãe: “Eu queria ter um”. No mesmo dia em que a matéria foi publicada, o telefone celular da família não parou de tocar. Toca até hoje. É gente parabenizando a mãe e o pai pela luta e pela valentia do menino. Gente querendo ajudar de alguma forma. E gente que ligou apenas para realizar o sonho dele. A primeira chamada veio ainda logo cedo, na manhã daquela sexta-feira. Era uma moça da 107 Sul. Conversou com a mãe do menino. E disse que desejaria muito doar o computador. No sábado pela manhã, os pais de Igor o levaram até a Asa Sul. E lá, emocionada, a moça, que se chama Maria Clara, o abraçou e lhe entregou o que ele tanto esperava. Um micro com tela de LCD, praticamente novo. Os dois conversaram animadamente. E ele gravou o nome dela como tatuagem. Na volta para casa, disse à mãe: “O nome do meu computador é Maria Clara (na voz dele, a pronúncia é Malia Clala)”. Rosângela arregalou os olhos. Ele repetiu ao pai o que dissera à mãe. Solidariedade E houve mais telefonemas de pessoas se oferecendo para doar computadores. Rosângela agradecia e dizia que o filho já tinha ganhado. Mas ainda falta chegar um, que está a caminho. “O doutor Jairo (Lourenço de Almeida, chefe da Defensoria Pública do DF) ligou para dizer que também vai doar um computador. A doação será feita em nome da associação da categoria à qual pertence”, ressalta Rosângela. E conta o que fará com um deles: “Vamos doar para a escola onde o Igor estuda. Na Sala de Recursos não tem computador. "Vai servir para todos os alunos”, explica a incansável mãe. E o computador tem feito sucesso na casa humilde do menino. “Ele sabe usar mais do que a gente. Dá aula pra mim e pra mãe dele”, conta, embevecido, o pai. Comovida, Rosângela agradece: “Com tanta coisa ruim no mundo, fiquei surpresa ao perceber que ainda tem muita gente solidária e disposta a ajudar. Nunca pensei que essa história tivesse uma repercussão assim”. Até o médico Maurício Neiva Crispim, coordenador do Núcleo Regional de Atendimento Domiciliar da Secretaria de Saúde (antigo Samed), comemorou: “Ele é inteligente, tem o cognitivo espetacular. É um menino vitorioso. O computador só vai estimulá-lo mais ainda. Pode até fazer disso sua profissão futura”. Maurício acompanha Igor desde que o bravo menininho deixou a UTI. E a alegria do miudinho não para. O computador, ou melhor “Malia Clala”, virou o melhor amigo. Os pais vão ligá-lo à internet. Sentado na sua cadeira de rodas, Igor quer descobrir o mundo. Voar dali, como super-homem. Supera-se a cada dia. Ensina um monte de coisa a uma gente adulta — inclusive o sentido de vida. E vira, a cada segundo, herói de uma história onde é o melhor protagonista. Esse baixinho realmente é fantástico.

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