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Correio Braziliense

União pelo legado de Athos

 


postado em 22/03/2009 21:46 / atualizado em 22/03/2009 22:29

O descaso com as obras de Athos Bulcão tem data marcada para acabar. Pelo menos é isso que esperam José Carlos Coutinho, titular da diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico (Depha), e Alfredo Gastal, superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). As duas entidades estão elaborando um inventário de obras do artista para que, no aniversário de Bulcão, elas sejam tombadas como Patrimônio Artístico e Cultural. “Seria perfeito que, em junho, quando ele completaria 91 anos, pudéssemos tombar as obras”, afirma Gastal. De acordo com ele, o processo é demorado. Há quase 200 trabalhos assinados por Athos Bulcão em toda a cidade, incluindo pontos como o Teatro Nacional, o Itamaraty, escolas e até mesmo algumas residências. O artista faz parte do cotidiano do brasiliense, que se acostumou a viver em um lugar onde a escultura, o mosaico e a pintura estão sempre ao alcance de todos. “O processo está andando bem, mas a obra do Athos é vasta. Por isso, é um processo detalhado”, argumenta Gastal. “Imaginamos que o tombamento pode ajudar a proteger os trabalhos de Athos Bulcão, que são tão importantes para a história de Brasília e tão familiares aos moradores da capital”, completa Coutinho. O tombamento é uma lei que restringe as possibilidades de interferência do bem que ela protege. “Mesmo sem tombamento, era de se esperar que o material de Athos estivesse protegido. Ninguém pode destruir uma tela de Picasso só porque é dono dela. São obras de arte e devem ser tratadas com cuidado”, revolta-se o diretor do Depha. Distribuição Os dois historiadores mostraram descontentamento com o que têm ocorrido com as peças do artistas. Esta semana, pela primeira vez na história o Teatro Nacional foi alvo de vandalismo. As paredes externas do centro cultural que, até 2007, eram adornadas por 3.391 cubos de concreto, amanheceram pichadas na última segunda-feira. Os blocos — idealizados por Athos — haviam sido instalados em 1996 e foram retirados para manutenção há dois anos. Para Gastal, a demora da reinstalação incentivou o vandalismo. “O vazio convida manifestações desse tipo. Deram uma pintura branca e não recolocaram os cubos”, critica Gastal. E, há 11 dias, durante demolição do que foi a sede social do Clube do Congresso, ficou patente o sumiço de dois painéis de Athos Bulcão que enfeitavam as paredes. Um deles, pintado nas cores azul e branco e com as inconfundíveis formas geométricas do artista, embelezava a sauna. O outro, uma montagem com blocos de gesso em autorrelevo, adornava a parede que acompanhava a escadaria de mármore do hall de entrada. “São acontecimentos absurdos”, considera Valéria Cabral, diretora-executiva da fundação que leva o nome do artista. “É incrível a falta de respeito das pessoas com o nosso patrimônio”, desabafa. Valéria explica que a ação conjunta do Depha e do Iphan garantirão dois tombamentos para aumentar a chance de preservação do legado de Athos. “Haverá um tombamento nacional e um distrital”, explica. O artista, que morreu aos 90 anos em julho do ano passado, era do Rio de Janeiro, mas apaixonado por Brasília. Aos 18 anos, na capital fluminense, ingressou na Faculdade de Medicina, que abandonou três anos depois quando decidiu dedicar-se à carreira artística. Foi na casa do paisagista Burle Marx que conheceu o arquiteto Oscar Niemeyer, de quem se tornou amigo e parceiro de muitos trabalhos. Em 1957, recebeu um convite de Niemeyer: colaborar na construção da nova capital da República. Em agosto do ano seguinte, mudou-se definitivamente para a capital. Descaso Três incidentes danificaram ou destruíram obras de Athos Bulcão em 2009 10/1 Um incêndio destruiu parte da parede da Capela de Nossa Senhora de Fátima, a Igrejinha da 308 Sul. Alguns azulejos feitos por Athos Bulcão ficaram completamente destruídos, outros se descolaram e caíram. Após investigação, constatou-se que uma vela acesa causou o acidente. 10/3 A derrubada da antiga sede social do Clube do Congresso denunciou o desaparecimento de dois painéis projetados em 1972 por Athos Bulcão para enfeitar as paredes do lugar. Ninguém sabe dizer exatamente o que ocorreu com o trabalho do artista, mas a probabilidade maior é que os trabalhos tenham sido destruídos. 16/3 O Teatro Nacional Cláudio Santoro, cujas paredes eram adornadas por mais de 3.500 cubos de concreto idealizados por Atos Bulcão, amanheceu pichado. Foi a primeira vez, desde que o teatro foi erguido, em 1961, que a estrutura foi alvo de vândalos.

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