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Correio Braziliense

Os riscos do excesso de ferro no organismo

 


postado em 11/04/2009 08:52 / atualizado em 11/04/2009 10:14

A menina agitada e brincalhona de repente mudou. Luana, 4 anos, parecia indiferente e cansada. Um dia desmaiou e foi levada às pressas para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Quando a mãe, Eliane Virgens dos Santos, 21 anos, recebeu o resultado do exame de sangue da menina, levou um susto. “Ela sempre comeu feijão, carne, vegetais, biscoitos. Não imaginei que pudesse ter anemia.” O tratamento já dura três meses. Luana toma medicamento para se recuperar da queda das taxas de ferro no sangue. A anemia é um problema de saúde pública tão grave no Brasil que, em 2002, o Ministério da Saúde, em parceria com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tornou obrigatória a adição de ferro e ácido fólico à farinha de trigo, fubá e flocos de milho. De acordo com a Resolução nº 344/02, os fabricantes deveriam acrescentar a esses produtos 4,2 miligramas de ferro e 150 microgramas de ácido fólico, no mínimo. Até hoje, o Ministério da Saúde não tem pesquisa sobre a prevalência de anemia entre a população. Mas estudos isolados apontam que, em algumas regiões, 50% das crianças menores de cinco anos são vítimas da doença. Entres as mulheres grávidas, o índice é de 30%. Passados seis anos da obrigatoriedade de fortificação das farinhas, a pesquisadora Juliana Frossard, da Universidade de Brasília (UnB), faz um alerta: a legislação criada para resolver um problema pode causar danos à saúde de outra parcela da população que, naturalmente, tem a dieta rica em ferro. É o que revelou o estudo com 134 moradores de São Sebastião e Sobradinho. Parte do grupo que tinha quantidade elevada de ferro no organismo apresentava mais danos nos lipídeos e proteínas. “O excesso de ferro potencializa a produção de radicais livres, que, por sua vez, atacam os lipídeos e as proteínas, modificando a sua estrutura e fazendo com que eles percam as suas funções”, explicou Juliana. As consequências dos danos a estas estruturas, segundo a pesquisadora, são o desencadeamento de doenças crônicas, entre elas problemas cardiovasculares, câncer, mal de Parkinson e Alzheimer. “Estudos no Japão, Europa e Estados Unidos também apontam a relação entre o surgimento dessas doenças e o excesso de ferro no organismo”, completou. A população e a cidade estudadas foram escolhidas por sorteio. Segundo Juliana, a renda de 68% dos entrevistados era inferior a um salário mínimo (R$ 465) por mês por pessoa. E a dieta era composta basicamente por pão, arroz, feijão e carne, distribuída entre café da manhã, almoço e jantar. “Por isso, acredito que a situação seja ainda mais preocupante. Se em famílias de baixa renda familiar e alimentação simples como essa tivemos esse resultado, como seria se a análise tivesse como alvo a parcela da população com dieta rica em carnes, verduras, leite e derivados, castanhas e alimentos fortificados?”, questionou. Limites Para a pesquisadora, o resultado dos estudos revela a necessidade de se criar uma política direcionada para o combate à anemia entre a parcela da população com carência de ferro. “Não se pode tratar esse tema de forma generalizada. E é preciso limitar a quantidade de adição de ferro e ácido fólico à farinha de trigo e ao fubá. Alguns fabricantes colocam mais que o dobro do mínimo para garantir que até o fim do prazo de validade o produto mantenha o ferro e ácido fólico exigidos por lei”, alertou. Em quatro situações, o bioquímico Antônio Araújo, 49 anos, constatou por meio de exame de sangue que estava com quantidade excessiva de ferro no organismo. “Foram eventos esporádicos. Mas quando isso ocorre, evito comer carne vermelha e vegetais escuros, principais fontes do ferro”, contou. No fim do ano passado, Araújo fez um hemograma para a realização de uma cirurgia no pé. “O exame estava tão alterado que os médicos descartaram a necessidade de transfusão de sangue após a cirurgia.” Conselheira do Conselho Federal de Nutricionistas (CNF) e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Ana Célia Oliveira dos Santos disse que no Brasil casos como o do bioquímico são raros. O mais comum, especialmente no Norte e Nordeste, é encontrar pessoas com carência de ferro no organismo. Defensora da política de fortalecimento das farinhas, ela concorda que é preciso adaptar a legislação fixando o máximo permitido. “Mas a própria tecnologia acaba limitando porque, em grande quantidade, o ferro e ácido fólico podem alterar o sabor do alimento. Também é certo que nem todo ferro ingerido é absorvido”, ponderou. Ana Célia lembrou ainda que o ferro foi um dos primeiros elementos reconhecidos como essenciais à vida, pois está relacionado a todos os processos celulares que envolvem o oxigênio, seja para o transporte e armazenamento ou para a produção de energia pela célula. A professora reforçou que a carência de ferro no Brasil ainda é muito comum. E que a anemia ferropriva é a principal carência nutricional no mundo. “Aqui no Nordeste, temos esta condição com alta prevalência. Um estudo com crianças da Zona da Mata de Pernambuco em 2004 revelou que 73,2% delas apresentavam carência de ferro aos 12 meses de idade. Um trabalho mais recente publicado em 2008, também com crianças, encontrou prevalência de 46,9% de anemia por carência de ferro”, citou. A carência desse elemento dificulta a produção de energia. Por isso, a primeira manifestação da anemia é o cansaço, a fadiga. A carência também compromete a imunidade e o desenvolvimento cognitivo. Desequilíbrio pode afetar o fígado A principal causa de anemia em crianças é a alimentação incorreta. Por isso, explica o hematologista do Hran Tokudi Moezoe, além do ferro é necessária a ingestão de vitamina C, responsável por auxiliar na absorção do nutriente. “Se houver a deficiência dessas substâncias, e carência de ácido fólico, o amadurecimento dos neurônios pode ser comprometido, além de outras consequências”, explicou Moezoe. Em relação aos adultos, Lídia Abdalla, gestora técnica de um laboratório, acrescenta que as taxas de ferro podem ser diminuídas por doenças que causem hemorragias frequentes e pela presença de miomas (em mulheres). “O ferro, ingerido em grandes quantidades, é tóxico. Interfere nas reações de geração de energia nas células”, esclarece o hematologista Moezoe. De acordo com ele, o acúmulo do elemento no organismo não tem sintomas aparentes e ocorre com mais frequência nos homens. “As mulheres, por conta da menstruação, mantêm níveis mais baixos.” A principal consequência do excesso do nutriente, segundo ele, é a sobrecarga do fígado. “Em situações prolongadas, pode ocorrer cirrose e degeneração do órgão”, explicou. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que a fortificação das farinhas de trigo e milho no Brasil foi proposta em decorrência da necessidade de reduzir a prevalência de anemia por deficiência de ferro, um grave problema de saúde pública. E que foi considerada a segurança de uso pela população, dentro do limite de ingestão diária desses micronutrientes. Uma das etapas dessa ação é o monitoramento das farinhas para verificar a adequação da quantidade à legislação vigente. Ainda de acordo com a Anvisa, ao longo da implementação dessa estratégia, verificou-se a necessidade de revisar a Resolução nº 344/2002, com o estabelecimento dos limites máximos. Esta discussão está em andamento, envolvendo o Departamento de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde e a própria Anvisa.

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