Publicidade

Correio Braziliense

Consultas oncológicas realizadas na rede pública do DF crescem 211%

 


postado em 13/04/2009 08:10 / atualizado em 13/04/2009 11:34

Os casos de câncer no Distrito Federal vêm crescendo vertiginosamente. Levantamento inédito, feito com base em dados da própria Secretaria de Saúde, revela que as consultas de oncologia, especialidade da medicina voltada para a doença, aumentaram 211% desde o início da década. O ritmo de crescimento é cinco vezes maior que todos os tipos de atendimento feitos na rede pública, que subiram 42% de 2000 a 2008, conforme o Correio mostrou ontem com exclusividade. No mesmo período, a população do DF e do Entorno cresceu pouco mais de 20%. No ano 2000, foram realizadas quase 11 mil consultas oncológicas. Em 2008, foram 34,2 mil. Se os diagnósticos cresceram, o mesmo não ocorreu com a outra ponta. De acordo com o levantamento, as consultas em radioterapia — principal tratamento para vários tipos da doença que é a segunda causa de mortes de pessoas nos hospitais do DF — caíram para menos da metade. No primeiro ano da década, foram 11.644 atendimentos, volume que despencou para 5.530 no ano passado. A queda foi de 52,5%. O mastologista Antônio Ribeiro, que durante muitos anos trabalhou na rede pública, lamenta o atendimento oferecido. “A gente fica preocupado com quem não tem como reclamar da qualidade do atendimento. Vai esperar morrer?”, indigna-se. “No caso de uma doença como câncer, não há tempo. Vamos nos colocar no lugar dessas pessoas que têm parentes com câncer e acompanham a novela de um equipamento que fica fechado em uma caixa e sem uso por cinco anos”, diz, referindo-se às máquinas compradas em 2003 pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB) e que, até hoje, não estão funcionando (leia memória). O diretor do HUB, Gustavo Adolfo Sierra Romero, explica que as obras do Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) finalmente acabaram. Elas chegaram a ficar paradas durante quase dois anos, período em que os equipamentos permaneceram encaixotados em ambientes climatizados. No entanto, ainda não há uma data certa para a abertura do centro. “A gente está na fase final de implantação. Neste momento, estamos com técnicos testando as estruturas construídas”, explica. “Depois, precisamos do aval da Comissão Nacional de Energia Nuclear e, por fim, da Vigilância Sanitária”, justifica. Mas ainda há dúvidas se todos os pacientes que precisarem de tratamento serão atendidos. “Estamos conversando diretamente com a Secretaria de Saúde porque vamos definir fluxos para pacientes. Falta ver quem vai encaminhar e como serão acolhidas as pessoas. O Cacon vai atender a demanda, mas ainda falta estudar a dimensão do fluxo do Entorno do DF, que pressiona muito a rede”, explica o diretor do HUB. Drama O tumor no crânio foi descoberto há quatro anos. Desde então, a gerente de projetos Marly Gitirana vai ao Hospital de Base do Distrito Federal toda semana. Nem sempre sai de lá com o tratamento em dia. Mas não são os aparelhos quebrados ou a falta de medicamentos que indignam a paciente. “O pior é o descaso e a falta de informação”, comenta Marly, hoje com 34 anos. Ela conta que o próprio médico já reconheceu: se as sessões não fossem adiadas tantas vezes, a cura poderia ter virado realidade. “Aqui, quando o paciente deixa de vir, não é porque foi curado, é porque morreu”, lamenta. O plano de saúde de Marly não cobre as sessões. Ela recorreu à rede pública por falta de opção. Diz que em 30% das vezes em que vai ao hospital, tem que voltar para casa sem o tratamento adequado. “Não foi uma nem duas vezes que mandaram eu ir embora porque o aparelho estava quebrado ou o medicamento em falta. É revoltante, uma situação triste”, desabafa. “A gente chega para o tratamento e é pego de surpresa com essas notícias.” Cansada de esperar melhorias, a paciente procurou o Ministério Público. Pretende ter o tratamento transferido para algum hospital particular de Brasília ou mesmo para outra cidade, como Goiânia. Se for preciso mudar de cidade, ela o fará. “Infelizmente. Moro aqui, mas o que posso fazer?”, questiona. Entre os hospitais públicos, apenas o de Base tem estrutura para o tratamento da doença no DF. Mais casos Enquanto continua faltando estrutura para tratamento de câncer, o número de pacientes com a doença não para de crescer no DF. Somente no ano passado, de acordo com estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), 5.620 moradores de Brasília descobriram que estavam com câncer. Os novos casos atingiram 2.670 homens e 2.950 mulheres. Desse total, 80% foram considerados malignos, necessitando de radioterapia no tratamento. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Saúde informou, por meio da assessoria de imprensa, que está esperando o Cacon da HUB ficar pronto para começar a reforma do Hospital de Base, cujos equipamentos estão sobrecarregados e constantemente quebrados — o HBDF é o único hospital público do DF a possuir esse tipo de equipamento. Não há previsão da duração dessa reforma. A partir daí, vai começar um estudo da demanda. Só então será construído um centro oncológico no Hospital de Taguatinga, caso se mostre necessário. Também não há previsão do tempo para se implantar a rede de atendimento na região administrativa. Leia mais na edição impressa

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade