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Correio Braziliense

Caron é condenado a 8 anos em regime semi-aberto

Advogados de defesa prometem recorrer da sentença


postado em 14/04/2009 23:15 / atualizado em 15/04/2009 13:41

Depois de 14 horas de sessão no Tribunal de Justiça de Goiás, o ex-médico Marcelo Caron foi condenado a oito anos de prisão em regime semi-aberto e ao pagamento de indenização de R$ 30 mil à família de Janet Virgínia Novais Falleiro. A advogada morreu em decorrência de complicações supostamente decorrentes de uma lipoescultura efetuada por ele em 14 de janeiro de 2001. "A Justiça foi feita e essa condenação é só o começo. Outras virão, pois todas as vítimas dele merecem isso", comentou a mãe de Janet, Clélia Novaes, assim que a sentença foi lida, por volta das 22h30. Os advogados de defesa anunciaram que vão recorrer. "Tenho certeza de minha inocência", sustentou o réu durante o interrogatório, que durou duas horas. Ele defendeu ter plena capacidade para atuar como cirurgião plástico. O julgamento teve início na manhã de ontem, no 1º Tribunal do Júri, em Goiânia (GO). Caron é apontado como responsável pela morte de quatro mulheres, em Goiânia e Brasília, e por lesões em outras 30. Todas se submeteram a cirurgias plásticas com ele. A Justiça de Goiás decidiu levar Marcelo Caron a júri popular com base também em uma investigação comandada pelo promotor Diaulas Ribeiro, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MDFT). Diaulas comprovou que Caron usou diploma falsificado de especialização em cirurgia plástica para conseguir registro profissional no Conselho Regional de Medicina de Goiás (CRM-GO). O certificado tem o timbre do Hospital Municipal Mário Gatti, em São Paulo. O MPDFT investigou Caron após ele ter sido acusado de matar duas mulheres no DF. Elas também eram pacientes dele. Adcélia Martins de Souza morreu em 29 de janeiro de 2002, e Grasiela Murta de Oliveira, em 15 de fevereiro do mesmo ano. No DF, Caron foi denunciado por dolo eventual (quando se assume o risco de matar) e ficou preso dois dias, na 3ªDelegacia de Polícia (Cruzeiro), mas o Tribunal de Justiça do DF lhe concedeu habeas corpus. Os advogados alegaram que ele tinha habilitação e era especialista em cirurgia plástica o que, depois, o MPDFT provou ser falso. Por causa da fraude, o promotor Diaulas Ribeiro entrou com ação para responsabilizar Caron. Se for condenado por esse crime, ele poderá pegar até 12 anos de cadeia. Em função dessa denúncia e das mortes em série, Caron foi o primeiro médico a ter o registro profissional suspenso pela Justiça Federal. Ele não fez residência médica e, portanto, não poderia realizar cirurgias, no entendimento do MPDFT. Indenizações Caron foi condenado, em 2003, a pagar indenização de R$ 88 mil a Marlene Maria Alves, uma das 17 pacientes que ficaram com graves seqüelas após se submeter a cirurgia com o médico. A pena foi aplicada pelo juiz Gerson Santana Cintra, da 11ªVara Cível de Goiânia. Foi a primeira condenação de Caron em processos de indenização. Pelos danos materiais, ele foi condenado a pagar R$ 8mil. Por danos morais, R$80 mil. Marlene Alves teve seqüelas após ser operada por Caron, em 24 de julho de 2000, em Goiânia. Em setembro de 2008, o ex-médico teve a prisão decretada pelo juiz Jesseir Coelho Alcântara, da 13ªVara Criminal de Goiânia, por ele não ter comparecido ao tribunal. Mas o ex-médico acabou solto. Marcelo Caron acabou condenado novamente em 2006. Em outro processo, o juiz da 1ª Vara Cível de Taguatinga mandou o ex-médico pagar uma pensão mensal individual de R$ 388,83 aos três filhos de Adcélia Martins de Souza, morta após uma cirurgia plástica feita por ele em janeiro 2002. Adcélia Martins deu entrada no Hospital Anchieta para uma cirurgia de lipoaspiração e implante de prótese de silicone nos seios, e morreu após o procedimento. Os filhos da vítima entraram com ação também contra o hospital, mas o juiz excluiu a responsabilidade da instituição. Infrações A ficha criminal do médico Denísio Marcelo Caron é longa. Histórias escabrosas envolvendo o cirurgião plástico de 45 anos ultrapassam as salas cirúrgicas. Além das cinco mortes de pacientes em lipoaspirações feitas por ele, o profissional responde a processos por estelionato, desvio de dinheiro público, formação de quadrilha, furto, uso de documentos falsos e falsificação de documentos públicos e particulares. Todos tramitam na Justiça de São Paulo. O acusado aguarda julgamento. Paulista de São José do Rio Preto, Caron ficou conhecido em Brasília após reportagem publicada no Correio que revelou a morte da secretária da Terracap Adcélia de Souza, operada por ele no Hospital Anchieta, em Taguatinga, em 29 de janeiro de 2002. Outra paciente, a universitária Graziela Oliveira, 26, que também passou por lipoaspiração em 8 de janeiro de 2002, morreu após duas semanas em coma. Em Goiás, há seis processos e 35 sindicâncias (25 por mutilações em plásticas) contra Caron no Conselho Regional de Medicina do estado. Dentre os processos que estão na Justiça paulista contra Marcelo Caron, um deles trata do desvio de dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS) e de formação de quadrilha. Ele e 11 colegas do Hospital Dr. Mário Gatti, em Campinas, são acusados pelo Ministério Público Federal de receber por plantões que nunca fizeram, em 1997. Nesse hospital, aliás, Caron garante ter feito residência médica em cirurgia plástica. Caron responde também por um furto, ocorrido em 3 de janeiro de 1996 no sítio de uma ex-namorada, no município de Tuiuti, interior paulista. O médico é acusado de ter roubado um cofre com jóias e talões de cheques. O processo está suspenso por um benefício previsto em lei. O réu assinou um acordo com o Ministério Público de São Paulo em fevereiro de 1997, que o obrigava a prestar contas a um juiz bimestralmente, o impedia de mudar de cidade sem comunicação prévia à Justiça, entre outras sanções.

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