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Correio Braziliense

Campanha no Sudoeste: cocô do totó é na lixeira

 


postado em 16/05/2009 11:38 / atualizado em 16/05/2009 11:42

Caminhar pelas quadras de Brasília sem topar com um presente deixado por cães e gatos que vivem nos prédios da vizinhança é tarefa quase impossível. Remover as fezes dos bichos da via pública é obrigação do proprietário — a norma está prevista em lei distrital há mais de 10 anos —, mas nem todos seguem a regra na cidade. Para resolver o problema, a Quadra 101 do Sudoeste inovou com lixeiras recicladas, sacos e pás de papel que facilitam a coleta de dejetos dos animais de estimação. A medida estimulou moradores a retirar os cocôs dos bichos e as calçadas estão quase livres da sujeira. Na 101 do Sudoeste, vivem 114 cães, de acordo com levantamento da prefeitura. Alguns moradores tinham o hábito de recolher as fezes dos bichos, mas muitos restos continuavam sobre calçadas e jardins. “Aqui, temos várias crianças, então ainda tinha o problema da saúde. Muitas brincam descalças na praça. Tudo isso nos levou a colocar as lixeiras, e a quantidade de fezes já diminuiu bastante”, disse a prefeita da quadra, Imaculada Mantovani, 63 anos. A prefeitura comprou 16 lixeiras feitas com tubos de pasta de dente reciclados e as instalou por toda a quadra. Elas têm a imagem de um cachorro para sinalizar a finalidade. Uma vez por dia, um funcionário da quadra recolhe os sacos depositados e mantém as lixeiras limpas. Elas são resistentes e não enferrujam. Cada um dos 11 prédios conta com uma caixa com capacidade para 100 saquinhos de coleta. A embalagem é feita à base de papel e não tem plástico. Dentro do saco, há uma pá de papelão que auxilia na coleta das fezes. A pá vai para o lixo com o saco — descartáveis, eles não devem ser reutilizados. Em outros pontos do Sudoeste, como a 304, há placas indicando a importância da limpeza e sacolas plásticas gratuitas à disposição. Preguiça, nojo ou esquecimento. As desculpas para não recolher os dejetos são inúmeras, mas nenhuma delas faz parte do vocabulário do estudante de direito Spencer Miranda, 20 anos. O morador da Quadra 101 do Sudoeste é cego desde que nasceu, mas isso não o impede de deixar as calçadas limpas durante os passeios com Happy, um labrador de 3 anos que trabalha como cão-guia. O jovem desce sozinho com o cachorro até quatro vezes por dia, sempre com um saquinho no bolso. Spencer não deixa de retirar a sujeira e fechar o pacote — ele conta com a ajuda de funcionários do prédio para levar os sacos até a lixeira apropriada. “No treinamento com o cão-guia, você aprende a fazer a coleta. Sempre carrego comigo uma sacola, mas quase ninguém faz isso, é complicado conscientizar as pessoas”, afirmou o estudante. Falta conscientização Spencer faz sua parte na manutenção da limpeza pública, mas também sofre com os restos deixados por outros donos de bichos. Vez ou outra, se depara com uma sujeira no meio do caminho. “Se todo mundo se preocupasse mais, não seria assim. O cachorro faz alguma coisa e a pessoa pensa: deixa pra lá. Não custa nada abaixar para pegar, não suja a mão”, explicou. O rapaz está com Happy há um ano e três meses e o animal o acompanha a todos os lugares: faculdade, academia, curso de idiomas e outros ambientes. Preocupada com a limpeza da 101, a prefeita conheceu uma empresa de Curitiba (PR) que produz as caixas recicladas e pensou que seria uma boa solução para a quadra. O dono do animal pode usar um saquinho próprio e depositá-lo nas lixeiras específicas ou pegar a embalagem de papel na portaria do prédio. “Quem acha desagradável pegar as fezes com o saco plástico pode usar esse, que já vem com a pá”, comentou Imaculada. A prefeita quer avaliar a quantidade de saquinhos usada pelos moradores para organizar a próxima encomenda. Ela calcula um gasto aproximado de R$ 0,30 por embalagem. O sistema funciona há duas semanas e já mostra resultados. A maior parte das calçadas estava limpa na manhã de ontem, mas havia alguns restos nos gramados. Ainda tem gente que passa ao lado da lixeira e não se mexe para coletar as fezes dos bichos, mas outros aderiram à proposta da coleta. A barwoman e babá Aline Silva, 18 anos, leva a schnauzer Angel, de 10 meses, para passear na área verde duas vezes por dia. Para cada passeio, ela pega um saco de papel na portaria do bloco. “Tinha bastante sujeira, as crianças pisavam. Agora, tá mais limpo, mas acho que as pessoas podiam fazer isso sempre”, comentou Aline. Até o pequeno Eduardo Henrique Pimenta, 4, dono de Angel, sabe usar a pá de papelão para limpar a calçada, assim como a colega Natália Faria, 6. “Vi o moço fazendo e aprendi”, disse a menina. Uma lei distrital de 1998 estipula que cabe aos donos remover os dejetos deixados pelos animais em via pública, assim como responder pelos danos que os bichos causem a terceiros. Não existe fiscalização para controlar o abandono de fezes em jardins, mas a vigilância deve começar ainda neste ano.

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