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Correio Braziliense

Praça da Soberania muda, polêmica não

 


postado em 30/05/2009 08:00 / atualizado em 30/05/2009 17:43

As mudanças feitas por Oscar Niemeyer no projeto da Praça da Soberania deram mais leveza ao monumento pensado para o canteiro central em frente à Rodoviária do Plano Piloto, mas não foram suficientes para a proposta ser aprovada. Mesmo com a redução do obelisco de 100m para 50m e com a divisão do memorial dos ex-presidentes em dois prédios menores, como o Correio mostrou ontem, o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional (Iphan) no DF alega que a construção fere o tombamento do Plano Piloto. A opinião é compartilhada por especialistas, como a arquiteta Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, e pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Dê sua opinião, vote na enquete O principal argumento contrário vem do Iphan. O superintendente do órgão, Alfredo Gastal, diz que o projeto fere as duas leis do tombamento, a federal e a distrital, e a legislação que criou o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — o Decreto-lei nº 25, assinado por Getúlio Vargas e Gustavo Capanema em 1937. A Portaria 314 (a legislação federal) estabelece que “nos terrenos do canteiro central verde são vedadas quaisquer edificações acima do nível do solo existente, garantindo a plena visibilidade ao conjunto monumental”. Por isso, o superintendente do órgão diz que não dará aval técnico para a construção da praça. “Entendo a insistência de Niemeyer, ele tem direito de lutar pelo projeto dele. Mas temos obrigação de preservar a Esplanada dos Ministérios tal como ela foi concebida e tombada”, afirmou.

Projeto de Oscar Niemeyer para a nova Praça da Soberania(foto: Arquivo/Escritório de arquitetura Oscar Niemeyer)
Projeto de Oscar Niemeyer para a nova Praça da Soberania (foto: Arquivo/Escritório de arquitetura Oscar Niemeyer)
Gastal não quis entrar na discussão sobre a qualidade do projeto. Apenas afirmou que o canteiro em frente à Rodoviária “não é o local adequado para a construção dele”. Segundo o superintendente do Iphan, a Praça da Soberania poderia ser feita no Eixo Monumental, perto do Palácio do Buriti. “Nada contra a obra de Oscar. Ele fez em Brasília coisas magníficas e de tirar o fôlego. Mas aquela área não é edificante”, ressaltou. Além do aspecto legal, o superintendente do Iphan alega que o obelisco continua interferindo na visão do Congresso. “Só estou querendo preservar o que ele mesmo projetou.” A arquiteta Maria Elisa Costa elogiou a iniciativa de Niemeyer de ter deslocado o obelisco para desobstruir a vista da Esplanada dos Ministérios, mas ressaltou que continua “contrária a qualquer construção acima do chão no canteiro central do Eixo Monumental”. Para ela, esse conceito é “sagrado” e o importante não é se o que se pretende construir ali é feio ou bonito. “O canteiro central desobstruído faz parte da concepção de Brasília feita por um arquiteto chamado Lucio Costa. Mesmo que ele não fosse meu pai, eu, como arquiteta competente que me considero, tenho discernimento e conheço o Plano Piloto de Brasília. O canteiro central da Esplanada foi feito para ser livre”, disse, enfatizando que será eternamente contra qualquer construção acima do chão porque é fiel ao Plano Piloto. Briga antiga A primeira proposta para a construção da Praça da Soberania foi apresentada ao governador José Roberto Arruda em 9 de janeiro deste ano. Na época, o governador gostou do projeto e chegou a declarar que o entregaria pronto no aniversário de 50 anos de Brasília, em abril de 2010. Mas a divulgação das imagens do primeiro projeto abriu um intenso debate entre críticos e defensores. Foram duas semanas de polêmica até o próprio Niemeyer deixar a ideia de lado. Agora, o arquiteto reabriu as discussões ao projetar uma nova proposta, menor e mais leve. “Brasília discutiu o assunto com muita maturidade e sabedoria. É uma luta muito boa, gostosa e vibrante”, disse Niemeyer, em entrevista publicada ontem no Correio. Questionado sobre o novo desenho da praça, o governador José Roberto Arruda não quis se manifestar. Oficialmente, ele ainda não recebeu o projeto. Os croquis chegam a Brasília hoje pelas mãos do secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, defensor da proposta. Niemeyer também escreveu uma carta ao governador. “O Niemeyer tem autoridade e história para fazer o que quiser. Brasília tem que ter respeito por ele. Esse projeto obedece os mesmos traços do original, mas não impede visão nenhuma. Não vai ter consenso nunca”, ponderou Gorgulho. O secretário, no entanto, ressaltou que a construção depende de orçamento do governo. O presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) no DF, Igor Campos, também preferiu não opinar sobre o projeto em si. Mas disse que a posição do instituto permanece a mesma, de que Brasília não precisa de uma outra praça na Esplanada. “A Praça dos Três Poderes já é a Praça da Soberania. Aquele já é um espaço cívico consolidado, não há nenhuma complementação para ser feita”, declarou. O arquiteto, porém, concorda com a defesa do projeto feita por Niemeyer. “É o que todo profissional deveria fazer.” Colaborou Conceição Freitas

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