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Correio Braziliense ARQUITETURA DO PASSADO

Professores e alunos da UnB redescobrem casas quase esquecidas pela onda modernista vinda com a construção de Brasília


postado em 05/07/2009 08:10 / atualizado em 05/07/2009 08:10

Há muito o que aprender com a arquitetura das casas que existiam em Brasília antes da capital existir. A ventilação, a praticidade, a proteção contra as altas temperaturas, o aconchego da cozinha são qualidades que foram esquecidas pelo novo jeito de construir moradias. A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de Brasília (UnB) está redescobrindo o Goiás que havia antes do Distrito Federal chegar. Para tanto, foi preciso recuar dois séculos no tempo. Resgatar o que a excitação da mudança da capital soterrou: a história da região onde a cidade moderna foi construída.

Há muita história já contada. Basta procurá-la. São relatos de expedições, livros, arquivos paroquiais e cartoriais que agora motivam estudos acadêmicos. Nessa investigação, aparece um inevitável personagem, o historiador Paulo Bertran, morto em 2005. O goiano de Anápolis, que se movia com a força da paixão pelo cerrado e pela gente cerratense (neologismo que ele criou), inspira e instrui as novas pesquisas.

Dois desses estudos estão em andamento na FAU: o da arquiteta Lenora de Castro Barbo e o do historiador Wilson Vieira Júnior. Ela está mapeando a arquitetura rural vernacular da cidade modernista e refazendo o roteiro dos viajantes que cruzaram o Planalto Central e passaram pelo sertão onde no século 20 seria construída uma capital moderna.

A partir da superposição dos mapas das viagens feitas nos séculos 18, 19 e 20, Lenora identificou caminhos, casas e topônimos que existiam desde três séculos atrás e que há 50 anos pertencem ao Distrito Federal. A arquiteta já identificou 10 casas (leia quadro) e já sabe de outras oito. Alunos de graduação da arquitetura registraram as principais características de cada uma das casas e fizeram projetos para melhorar as condições de uso e viabilizar a subsistência de seus moradores.

Período colonial
A arquitetura rural do DF que ainda resiste ao tempo é vernacular, ou seja, característica do país daquela época. É resultado de demorado exercício de construção, feita pelos próprios moradores, que testaram o conforto e a praticidade dos recursos utilizados. Na pesquisa, professores e alunos encontraram uma sabedoria arquitetônica comum ao período colonial. “São casas bem ventiladas, mais cheias que vazias (ou seja, têm janelas pequenas)”, aponta Lenora Barbo. Ao contrário do que se imagina, a janela pequena protege da insolação, o que não ocorre com os janelões e os muitos vidros que se costuma usar numa cidade tão ensolarada quanto Brasília.

Mesma planta
As casas rurais antigas de Brasília têm quase a mesma planta: são quadradas ou retangulares e têm quatro cômodos com um corredor no meio. A ventilação corre por esse corredor que vai da porta de entrada à da cozinha. É uma arquitetura que foi “testada e arranjada por muitos e muitos anos”, diz o diretor da FAU, Andrey Rosenthal Schlee, que visitou algumas das casas. Ficam, em geral, à beira dos córregos — longe, portanto, das estradas e têm na cozinha o cômodo onde a vida social acontece.

» Vestígios no Parque Nacional

A varredura de Wilson Vieira Júnior cobre uma área de 30 mil hectares do Parque Nacional de Brasília. O propósito é quase o mesmo do de Lenora: localizar vestígios de habitações, estruturas rurais, de cemitérios e de estradas dentro da área hoje protegida. Num primeiro momento, entre 2005 e 2007, Vieira Júnior identificou cinco vestígios de casa, um cemitério, dois valos (valas que faziam as vezes de cercas das propriedades para evitar a fuga de animais) e sete trechos de estradas coloniais.

Em seguida, precisou as coordenadas geográficas de cada uma das marcas da presença humana e fez o levantamento da cartografia, dos documentos cartoriais, ouviu depoimentos e fotografou as marcas arqueológicas que confirmam que a área do parque foi, entre os séculos 18 e a primeira metade do 20, uma região de intensa movimentação, considerando-se o fato de que essa era uma região de muito baixa densidade populacional e desconectada do restante do país. A fase agora é a de fornecer subsídios ao Iphan-DF para que o patrimônio cultural encontrado seja protegido.

» Viajantes

Confira personagens que se embrenharam pelo Planalto Central em séculos passados e ajudaram a forjar uma história da construção:

José da Costa Diogo — 1734
Tropeiro, parte das margens do Rio São Francisco à procura do ouro das minas dos Goyazes. Ele escreve um diário de viagem — transcrito no livro Viagem pela Estrada Real dos Goyazes — relato mais antigo encontrado até agora de viagem pelas terras do DF.

Tosi Colombina — 1751
Francisco Tosi Colombina, engenheiro militar e cartógrafo genovês a serviço da Coroa Portuguesa, foi o autor de mapas e registros de ocupação do Planalto Central em meados do século 18. Propôs construir uma estrada de São Paulo para Cuiabá, passando por Vila Boa, atual Goiás Velho. Em contrapartida à construção, pedia uma sesmaria a cada três léguas de toda a extensão da via e o privilégio de explorar a estrada por um período de dez anos. O privilégio foi concedido, mas Tossi não construiu a estrada.

Barão de Mossâmedes — 1773
Dom José de Almeida e Vasconcelos de Soveral e Carvalho, governador da capitania de Goiás, saiu de Lisboa em setembro de 1771, chegou a Vila Boa em julho do ano seguinte para tomar posse no governo de uma das mais extensas capitanias do Brasil setecentista. O Diário de viagem do Barão de Mossâmedes: 1771-1773 é o relato da viagem feita pelo governador da cidade do Rio de Janeiro à capital de Goiás. O ajudante-de-ordens Tomás de Souza, escriba e geógrafo, fez os dois mapas da capitania.

Luís Cunha Menezes — 1778
Fidalgo português foi o quinto governador e capitão-general da Capitania das Minas de Goiás, de 1778 a 1783. Deixou o manuscrito Jornada que fez Luís da Cunha Menezes da cidade da Bahia para Vila Boa, capital de Goiás, onde chegou em 15 de outubro de 1778. Veio pela estrada salineira da Bahia.

Cunha Matos — 1823
Brigadeiro português, serviu como soldado em São Tomé da África por 19 anos. Escreveu a Corografia Histórica da Província de Minas Gerais e uma resumida Corografia Histórica da Província de Goiás. Veio pelo caminho do correio de Goiás.

Luiz Cruls — 1892/1894
O astrônomo belga chefiou a célebre Comissão Cruls em duas expedições, a primeira, de 1892 a 1894, quando percorreu o Planalto Central para estudar a região e definir a área onde seria construída a futura capital. Define o quadrilátero de 14,4 mil quilômetros quadrados.
No segundo semestre de 1894, voltou para concluir alguns estudos e definir a área exata da nova capital dentro dos 14 mil km quadrados.

» Moradas às margens das estradas

De um encontro com Paulo Bertran nasceu na arquiteta Lenora de Castro Barbo a vontade de pegar a estrada dos viajantes que cruzaram o quadrilátero antes de ele assim existir e de conhecer as casas que aqui haviam antes de a arquitetura moderna roubar a paisagem. O encontro aconteceu num dia de 2004, quando Lenora levou seus alunos de arquitetura para conhecer o Memorial das Idades do Cerrado. Os alunos foram embora e ela começou uma conversa tipicamente goiana com Bertran — ela nasceu em Goiânia e ele, em Anápolis. “Você é filha de quem?”. O pai de Lenora, Manoel Demosthenes Barbo de Siqueira, foi prefeito de Anápolis, fervoroso mudancista e engenheiro-chefe da construção de Goiânia.

Com seus passos vagarosos, movidos à bengala, Bertran foi até sua preciosa biblioteca, dela retirou o exemplar de um livro, fez uma dedicatória (“Para Lenora, devolvendo o livro a quem o merece, com o carinho do Paulo Bertran”) e o entregou à visitante. Era um exemplar de Estudos sobre a nova capital do Brasil, que o pai dela publicara em 1947. Passados cinco anos do encontro com Bertran, Lenora está inteiramente mergulhada na pesquisa, à qual deu o nome de O resgate da arquitetura rural das estradas coloniais do Planalto Central.

Uma dessas estradas cortava o norte do Distrito Federal, num traçado quase horizontal, de leste a oeste, no que hoje é a margem do Parque Nacional de Brasília. A atual DF-001, no trecho passa pelo Lago Oeste, percorre 8km dessa via colonial. Mas não é exatamente dessas estradas que trata a pesquisa de Lenora Barbo. Elas servem apenas de roteiro para o que ela busca: encontrar, reconhecer e estudar as casas que haviam no DF nos séculos anteriores a Brasília.

Das que já foram identificadas, uma das que mantêm mais fidelidade à arquitetura original é a de Viriato de Castro Neto, neto de Viriato de Castro, o garoto que serviu de guia para a Missão Cruls, no fim do século 19. É uma casa de fachada com duas janelas, telhado de quatro águas, porta que se abre ao meio e forma mais uma janela, tijolo de adobe e estrutura de aroeira, assoalho de madeira sobre um porão. Fica na área rural de Planaltina, à margem da DF-131, estreita estrada de terra que passa diante do portão da casa de Viriato, goiano de 72 anos, que tem tantas histórias para contar quantos são os anos que sua família habita a região. Só a casa onde mora tem 130 anos — é de 1879.

“Naquele tempo, terra como aquela de Brasília não valia nada. Era terreno que fazendeiro dava de graça para não pagar imposto”, conta Viriato, ele mesmo um candango da construção de Brasília. “Fui tirar madeira do mato para construir o Catetinho. Achava que aquilo não ia pra frente, não.” Aquilo foi pra frente, mas se esqueceu por completo da história dos antigos ocupantes do lugar.

“Registro do mito”
A propósito desse esquecimento histórico, Lenora Barbo cita Sylvia Ficher, professora de arquitetura da UnB: “Arcaísmo e contemporaneidade se misturam em Brasília. E sua história continua sendo escrita no registro do mito, apresentada como ocupação primeira de um local virgem, apagados os traços de alguns séculos da história do Goyaz, agora aparentemente sem passado e sem tradições próprias, esquecidos aqueles que aqui viveram antes da sua construção”.

Outra das casas que ainda estão de pé com quase o mesmo esqueleto de origem é a de Maria Ramos Ventura, 51 anos, goiana de Padre Bernardo. Desde menina, Marli (seu apelido) conhecia a casa onde mora, no Núcleo Rural de Curralinho, em Brazlândia, mas não se lembra a quem ela pertencia. É uma casa bastante maltratada, cujo telhado de barro afundou e foi preciso substituir parte dele por telhas de amianto. Mas a estrutura de madeira continua de pé, o piso de tábuas soltas resiste ao tempo, os portais, portas e janelas de madeira também.

» Quatro perguntas para Andrey Rosenthal Schlee, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UnB

Dois projetos em andamento na FAU procuram rastrear a ocupação humana no DF antes de ela existir como tal. O que representa o resgate dessa arquitetura e dessa história para o conjunto da história do DF e para os brasilienses?

A melhor maneira de valorizar Brasília é conhecê-la. Tive um professor que costumava dizer: “Só se protege o que se ama. Só se ama o que se conhece!”. Passados cinquenta anos da inauguração da capital, temos o dever de encará-la de frente e resgatar e valorizar cada momento de sua longa trajetória. Essa história que não começou com JK e não terminou em 21 de abril de 1960. Brasília é uma cidade brasileira do século 20 e, como tal, apresenta os problemas que o país não soube resolver ao longo de sua existência. A questão dos latifúndios improdutivos, do acesso desigual à terra, da injustiça social é histórica e está presente no território do DF (e no território anterior a Brasília). Rastrear a ocupação humana no DF pode significar compreender tais processos sociais. A história sempre está nos ensinando.

Tem sido também uma mudança no enfoque do curso, não?


No caso particular da FAU, há ainda outro resgate, que é o do papel social da própria escola de arquitetura. Estamos tentando dar conta de uma de nossas muitas responsabilidades. Temos que voltar nossos olhares acadêmicos também para o Entorno, para as questões que envolvem o planejamento regional, para a própria história regional e considerar a escala metropolitana de Brasília. Os estudos sobre as antigas fazendas do DF, sobre os caminhos que cortavam o seu atual território ou mesmo sobre as antigas vilas de Goiás estão inseridos nessa de retomada de responsabilidades.

Alunos de graduação participaram do levantamento da arquitetura rural e de propostas para recuperação das casas.

No conjunto, como foi a reação dos estudantes?
No início foi um choque. Um verdadeiro mergulho forçado! Nossos alunos são muito bons e capacitados. No entanto, vivem numa espécie de redoma que, pouco a pouco, vai gerando um processo de alienação da realidade. É papel da universidade forçá-los a encarar essa dura realidade onde todos estamos inseridos. Eles serão arquitetos e urbanistas e não decoradores de mansões do Lago Sul! A disciplina era de “Intervenção no patrimônio cultural”. Optamos por trabalhar com as antigas sedes de fazendas, na sua maioria abandonadas ou duramente mantidas por proprietários com poucos recursos. Nossos alunos não sabiam o que fazer... Algumas casas não têm sanitários. Outras estão arruinadas, embora habitadas. Na verdade, houve um grande choque cultural. Logo, os alunos perceberam que não poderiam impor o “padrão de conforto” deles para aquele “outro” mundo. Um mundo sem closets, lavabos, home theaters e outras imposições de consumo. Um mundo real, duro, empobrecido e digno.

As casas até agora identificadas guardam muito da história da arquitetura rural? O que é essa arquitetura? Ela se diferencia da de outras regiões do Brasil de mesmo período?


A arquitetura rural estudada e ainda encontrada no DF é vernacular. Construída e utilizada pelos moradores da região. Portanto, foi testada e “arranjada” por muitos e muitos anos. Responde bem aos condicionantes e determinantes locais, sejam eles climáticos, programáticos ou culturais. É lindo perceber o papel das “varandas de fundos” ou salas de estar associadas ao espaço de cozinhar (o fogão a lenha). São construções sem arquitetos, vivenciadas por seus moradores e repletas de história... São as casas rurais que guardam semelhanças e, ao mesmo tempo, grandes diferenças com outras do mesmo gênero, mas erguidas em São Paulo, Minas Gerais ou no distante Rio Grande do Sul. Todas belas e ainda úteis.

» Grandes fazendas

As casas identificadas pela arquiteta Lenora Barbo pertenciam, à época em que foram construídas, a fazendas de Goiás. Veja quais são essas propriedades e onde se situam atualmente:

Curralinho — Antes pertencia ao município de Luziânia.
Com a criação do Distrito Federal, passou a pertencer a Brazlândia
Desterro — Antes, Luziânia. Com o DF, Brazlândia
Gama — Antes, Luziânia. Agora, Núcleo Bandeirante
Monjolo — Era de Planaltina e continua sendo
Monjolo II — Pertencia e continua pertencendo a Planaltina
Saco Grande — Era do município de Formosa. Agora é da Região Administrativa do Paranoá
Saco Grande II — Antes, Formosa. Hoje, Paranoá
Sobradinho — Era de Planaltina. Agora é de Sobradinho
Sobradinho II — Idem
Fazenda Velha — Ibidem

 Planta baixa da residência de Viriato: arquitetura testada e arranjada por muitos anos(foto: Acervo da Faculdade de Arquitetura da UnB/Divulgação)
Planta baixa da residência de Viriato: arquitetura testada e arranjada por muitos anos (foto: Acervo da Faculdade de Arquitetura da UnB/Divulgação)

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