Cidades

Grupo de moradores de Planaltina se organiza para defender patrimônio

Rodolfo Borges
postado em 09/07/2009 11:16

Um grupo de pessoas com projetos diferentes, mas com o mesmo objetivo de preservar a história. É assim que Simone Macedo define a Associação dos amigos do centro histórico de Planaltina, fundada e presidida por ela desde 2007. Depois que parte da estrutura da Igreja São Sebastião foi depredada(1), há dois anos, alguns moradores da região perceberam que era preciso cuidar do patrimônio da cidade antes que fosse tarde demais. Hoje, o grupo, composto por mais de 50 pessoas, trabalha pelo tombamento do centro histórico e tenta conscientizar moradores e donos de casarões antigos sobre a importância da preservação.

Entre as principais estratégias do grupo está levar arte e cultura para dentro dos casarões. O Hotel Casarão, que existe desde 1962, já cedeu parte de sua estrutura para a construção de um Espaço das Letras, com biblioteca e atividades para jovens da região. "Tentamos fazer com que o proprietário se apaixone por seu casarão. Ele não deve encarar a preservação como obstáculo", explica Simone.

Curso
Próximo ao hotel fica a sede da associação, também em um antigo casarão, que está sendo reformado e deve abrigar projetos de preservação - os amigos do centro histórico pretendem criar um curso de educação patrimonial em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A Casa do Idoso é outro local preservado, mas o interior da residência onde morava dona Nigrinha, na Rua 13 de Maio, mostra o mal que o tempo vem fazendo a Planaltina. Estruturas de barro originais que davam sustentação à casa estão expostas no interior do terreno e a casa mal se sustenta em pé.


O centro histórico de Planaltina fica ao redor da Praça Salviano Guimarães, no quadrilátero localizado entre as ruas Sergipe, 13 de Maio, 1; de Junho e Hugo Lobo. São dezenas de antigos casarões, que deram lugar a casas depois do parcelamento e venda dos outrora extensos terrenos. Mas ainda restam estruturas originais ao redor da praça, como a fachada do Casarão Azul(2), uma das mais bonitas e menos preservadas da cidade. A associação já fez um orçamento para a restauração e negocia a obra com o proprietário, que não mora na casa.

Também está nos planos dos amigos do centro histórico construir um corredor cultural na rua do Casarão Azul e restringir o trânsito de carga pesada pelo centro histórico. "A passagem de ônibus e caminhões danifica a estrutura das casas, que já estão muito fragilizadas", diz José Rui Lima Jorge, um dos diretores da associação. Na cidade, apenas a Igreja São Sebastião e o Museu Artístico e Histórico de Planaltina são protegidos pelo patrimônio histórico. Os casarões que restaram são preservados graças a um acordo de cavalheiros.

Para ajudar na conservação da cidade, o professor e amigo do centro histórico Flávio Pau Pereira, 42, vem trabalhando o tema da preservação em sala de aula. "Meus alunos sabem o que é um pilão e um moedor. Apresento esses instumentos a eles e os levo aos monumentos históricos para que desenhem a igreja e o museu", conta. Outro envolvido no trabalho é o professor de geografia Rafael Rodrigues Queiroz, 25. "Quem mora nessas casas não tem consciência da importância de preservar a história do local. Mas vamos trabalhar para mostrar que é possível", resume.

1- DESRESPEITO
Em fevereiro de 2007, um mourão (pedaço de madeira utilizado para amarrar cavalos) do século 19 foi arrancado e utilizado para fazer duas pequenas fogueiras a 40 metros da porta da igreja. A peça já estava bem desgastada e, depois do ocorrido, foi substituída por uma réplica.

2- HISTÓRIA ORAL
O Casarão Azul foi residência do primeiro médico de Planaltina, conhecido como dr. Osana, que teria usado a construção como hospital por algum tempo. A história do casarão é uma das muitas que os amigos do centro histórico tentam recuperar. Como são poucos os registros escritos, é preciso buscar relatos orais dos moradores mais velhos.

Para saber mais
Igreja de São Sebastião nasceu com promessa


O local onde se encontra a Igreja de São Sebastião foi doado em 1811 pelas famílias Gomes Rabello e Carlos Alarcão. Na época, a região foi vítima de uma epidemia e as famílias prometeram ao santo que ergueriam uma capela em seu nome caso escapassem da doença. A capela foi construída inicialmente em adobe e palha e finalizada em 1870, mas a paróquia mesmo só surgiu 10 anos depois.

Tombada pelo Governo do Distrito Federal em 1982, a igreja foi restaurada em 1984 por meio de convênio entre a Administração Regional de Planaltina, Pró-Memória e a extinta Secretaria de Educação e Cultura do DF. Hoje, já apresenta rachaduras de cima a baixo em vários pontos. Uma das janelas não pode nem ser aberta, sob risco de cair, e o chão, que antes era de madeira, foi substituído por pedras.


Personagem da notícia
Casarão virou escolinha de futsal

É no casarão de dona Nigrinha que o técnico e professor de futsal Alécio Gomes (foto), 57 anos, toca sua escolinha há oito meses. São 250 jovens, de 4 a 18 anos, que recebem lições da modalidade e de cidadania de um técnico bicampeão brasileiro de futsal (feminino, em 1996, e masculino, em 1998). "A casa pertencia a Zé Baiano, que trabalhava com madeira como ninguém, e dona Nigrinha. Depois, passou para uma filha de criação", lembra Gomes, que estabeleceu como meta extrair talentos esportivos de Planaltina.

Jogador profissional por 12 anos, ele foi o primeiro professor de futebol de vários jogadores de expressão em nível nacional, inclusive do zagueiro Lúcio, capitão da Seleção Brasileira de futebol. "Mas eu não gosto de falar sobre isso, para as pessoas não acharam que quero aproveitar o sucesso dos outros", diz. Toda segunda, quarta e sexta-feira, o professor leva os alunos das 8h às 11h30 e das14h às 17h30 para a quadra poliesportiva da Praça São Sebastião.

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