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Correio Braziliense

As histórias (reais) de um taxista

Desde 1958, José Martins Ferreira roda com seu táxi pela cidade que viu nascer, sem parar nem sequer um dia. Aos 81 anos, esbanja energia: acorda às 2h e só volta para casa no fim da tarde


postado em 10/08/2009 08:42

A história chegou assim à redação: “O taxista mais antigo de Brasília em atividade continua rodando. E faz ponto no aeroporto. Segundo o filho dele, o pai tem ótimas histórias para contar desde a época da construção da cidade. Ele foi comerciante, antes de ser taxista”. Taís Braga, coordenadora de reportagem, sempre empolgada com todas as coisas que lhe caem à mão e conhecedora das coisas de gente, me disse: “É a sua cara. Vai lá e faz uma linda matéria...”. Pensei: “Histórias de taxistas devem ser muito parecidas com as de pescadores. Ambas são de uma imaginação sem tamanho. Há um tanto ou todo o tanto de lorota”.

José Ferreira coleciona muitas histórias ocorridas em 51 anos de profissão(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
José Ferreira coleciona muitas histórias ocorridas em 51 anos de profissão (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Partimos para a QF 14, no Riacho Fundo I. Final de tarde da última sexta-feira. Lá, um homem de calça social, camisa de manga curta, também social, e sapatos escuros engraxados com esmero, espera a visita de pessoas que nunca vira até então. Sem problemas. Afinal, carregar gente desconhecida todos os dias e conviver com o inusitado é o seu ofício. O homem bem vestido, com jeito de lorde, andar sem pressa, olhos atentos, vem até porta. Nos convida pra entrar. Acabara de chegar do trabalho. Detalhe: havia começado às 3h da madrugada. Sim, ele acorda, religiosamente, às 2h, toma seu café e parte para mais um dia de longa jornada. É assim há mais de 50 anos.

Era ele, o taxista que havíamos ido encontrar. E lá estava o homem, José Martins Ferreira. Impecável, sereno, atento e gentil, ao alto dos seus 81 anos e sete meses de vida. O táxi, um Santana prata, JGF 5606, ano 2003, cuidadosamente parado na garagem da casa de esquina. Ao lado dele, Orondina Fernandes Ferreira, 73, mulher e companheira de mais da metade de um século.

A conversa, em volta de uma mesa branca de plástico, colocada na varanda, vai começar. E logo se percebe que, muito diferente das histórias de pescadores, aquele é um testemunho de vida. Mais que isso. É a celebração de um homem ao melhor que ele construiu nesta mesma vida: a família e o trabalho sem cessar. José, jeito manso de mineirinho, mas goiano de Corumbaíba, é o personagem principal dessa odisseia.

Certificado recebido em 1964 pelos bons serviços prestados fica na parede de casa(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press/Reprodução)
Certificado recebido em 1964 pelos bons serviços prestados fica na parede de casa (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press/Reprodução)
Era 1957, quando esse homem, aos 29 anos, segundo ano ginasial, recém-casado com sua Orondina, dois filhos pequenos (Ricardo e Reinaldo), desembarcou numa tal de Cidade Livre. O princípio de tudo. “Vim fazer um futuro”, ele diz, sobre a chegada ao Distrito Federal. Lá em Goiás, José ouvia, pelo rádio a pilha, que aqui se ergueria uma cidade que transformaria o país. “Era a notícia dia e noite que a gente ouvia”, lembra.

José não perdeu tempo. Arrumou o pouco que tinha, juntou as economias e partiu. Na Cidade Livre, montou, com a cara e a coragem, um pequeno comércio, na Avenida Central. “Vendia de um tudo, de panela a açúcar e farinha”, ele conta. O estabelecimento ganhou nome: Casa Central. O negócio ia de vento em popa. “A gente guardava o dinheiro (os réis) numa lata, dessas grandes. Meu filho mais novo, o Reinaldo (4 anos na época), ficava em pé na lata. E, com os pezinhos, empurrava o dinheiro pro fundo. Ele achava que assim ia caber mais. Aquela lata era o nosso banco”, recorda-se Orondina, com os olhos distantes, como se visse a cena novamente.

Correu o ano de 1957. A Casa Central começou a vender menos. Motivo? A Cidade Livre se encheu de outros comércios. “Era gente grande. O nosso não resistiu à concorrência”, lamenta o chefe da família Ferreira. Mas era preciso tocar a vida. Encontrar outra forma para sustentar a mulher e os dois filhos. Afinal, José escutara no rádio que a nova capital, que se erguia em meio a tanta terra e poeira vermelha, seria o lugar dos sonhos e da esperança. O futuro que ele tanto esperava.

Yoná Magalhães
Chegou 1958. Com o resto das economias, José decidiu que compraria um carro usado. Foi até Araguari, em Minas Gerais, e fez negócio com um antigo conhecido. O velho Figueiró lhe vendeu um Ford 47. José decidiu, aos 30 anos, que seria chofer de táxi. Escolheu um ponto estratégico: o aeroporto, todo de madeira, que seria inaugurado dali a menos de dois anos.

Quando chegou à capital com a família, em 1957, José montou um pequeno comércio na Cidade Livre(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press/Reprodução)
Quando chegou à capital com a família, em 1957, José montou um pequeno comércio na Cidade Livre (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press/Reprodução)
E começa aqui a segunda e última profissão do homem que acreditou em sonhos. Todos os dias, lá estava ele, no mesmo ponto, carregando e trazendo gente. Eram engenheiros, políticos, forasteiros, estrangeiros, gente anônima. “Não existia a permissão (até porque ainda não tinha órgão que regulamentasse a profissão) nem taxímetro. O preço era combinado na hora e eram apenas dois trajetos: do aeroporto à Cidade Livre ou para o Hotel Nacional, que começava a ser construído.” E conta mais: “Como tinha pouco táxi, era comum quatro ou cinco passageiros dividirem o mesmo carro. Cada um pagava a sua parte”.

A capital foi inaugurada com pompa e circunstância. Naquele 21 de abril de 1960, José nunca trabalhou tanto. Viu, de perto, o sonho de JK virar realidade. “Foi uma festa linda”, ele diz. Em casa, junto com os dois filhos pequenos, Orondina acompanhava pelo rádio as notícias da cidade batizada de Brasília. No seu Ford 47, o taxista ouvia e via as histórias de uma gente em busca do mesmo futuro.

Os anos se passaram. Em 1964, já com a permissão em mãos, todo formalizado, José recebeu o Certificado de Honra ao Mérito “pelos seus anos de bons serviços prestados à praça de Brasília e ao Sindicavir (o sindicato da categoria à época)”. O goiano de Corumbaíba se sentia cada vez mais brasiliense. “Fiquei muito satisfeito com essa homenagem”, ele fala. O certificado, hoje transformado em quadro, decora a parede da sua simpática casa de dois quartos. Mas já decorou as casas de Taguatinga, do Gama, de Ceilândia, Samambaia e do Guará, lugares onde já viveu até chegar ao Riacho Fundo.

Com o trabalho, vêm as lembranças. José conta, com orgulho, do dia em que carregou a atriz Yoná Magalhães, Ulisses Guimarães, Brizola e até Sílvio Santos, o Homem do Baú. “Com a dona Yoná, eu não resisti. Disse que ela era uma artista especial e que admirava muito o seu trabalho. Ela ficou feliz, me deu um sorriso e pegou na minha mão, na despedida.” Pergunto se ela era realmente bonita. Ele, de olho espichado para sua Orondina, diz, baixinho: “Era muito linda”.

Discrição
Ao longo dos seus 51 anos carregando e trazendo gente, ouvindo as mais diferentes e algumas impublicáveis histórias, José ensina o segredo para permanecer tanto tempo na praça: “Saber tratar bem o passageiro e ser discreto. Fingir que não ouve e só responder se a pessoa perguntar. Nunca dar palpite na conversa alheia. E principalmente ser honesto”. O homem que fez do táxi uma profissão de vida está há 16 anos sem receber uma multa de trânsito. Mas reconhece que dirigir em Brasília está cada vez mais difícil e perigoso. “Tem assalto a taxista todo dia (embora ele nunca tenha vivido tal experiência), os engarrafamentos deixam o povo nervoso demais, xingando tudo...”

Sentadinho na varanda da casa, ele dá uma dica para os novos companheiros de profissão: “Quando for trabalhar, deixar os problemas de família em casa. Quando voltar pra casa, largar as dificuldades lá fora, atrás da porta da rua. Não se pode misturar as coisas. O passageiro não tem nada a ver com isso”. Orondina, a eterna companheira, escuta. Balança a cabeça, em concordância. E deixa escapar, em tom de admiração: “A vida toda ele foi trabalhador. E tudo que fez foi pela família”.

A primeira e única vez em que José andou de avião foi em 1957, quando chegou a Brasília com a mulher e os filhos. “A gente veio de Anápolis até aqui. Era um avião bem pequeno, com dois motores.” Nesses grandes, que vê todo dia subindo e descendo do estacionamento do aeroporto, nunca chegou perto. “Acho uma beleza aquela coisa daquele tamanho subir.” Ele prefere a terra, o chão firme, o táxi, seus passageiros anônimos, sua vida simplesinha.

O taxista renovou sua carteira de motorista até 2011. Pretende trabalhar ainda por muito tempo. “Me sinto muito disposto. Se eu ficar em casa, tenho medo de adoecer”, diz o homem de 81 anos e saúde de touro. “Acordo às duas horas da madrugada, me arrumo, tomo minha vitamina (preparada, claro, por Orondina), vou pro aeroporto e fico lá. Na hora do almoço, volto, almoço (a comidinha gostosa feita até hoje pela mulher), descanso um pouco e retorno. Só chego em casa no fim da tarde. Faço isso de segunda a segunda, não tenho feriado nem fim de semana.” É a sua receita da produtiva longevidade. E sabedoria.

Não, a história de José não é lorota de pescador. É um belo exemplo de vida. A lição do homem que um dia partiu para o desconhecido “atrás de um futuro”. Sem imaginar, ele escreveu uma saga, anonimamente. A saga dele mesmo.

O princípio do sonho
Como parte das obras de infraestrutura necessárias à construção de Brasília, foram abertas pela Novacap, no final de 1956, as principais avenidas do Núcleo Bandeirante, mais tarde conhecido como Cidade Livre. O loteamento estava destinado a ter uso exclusivamente comercial. Para incentivar a vinda de comerciantes para a região, a localidade também estava livre do pagamento de impostos. Daí a origem do nome Cidade Livre.

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