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Correio Braziliense

E os ossos de vidro se encheram de esperança

Dez dias depois de o Correio publicar reportagem sobre Alexandre, portador de uma doença rara que o faz sofrer fraturas até quando está dormindo, caminhos do rapaz de Sobradinho começam a se abrir


postado em 23/08/2009 11:25 / atualizado em 23/08/2009 13:36

Alexandre Abade passeia com a família. Próximo passo é conseguir uma cadeira de rodas motorizada(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Alexandre Abade passeia com a família. Próximo passo é conseguir uma cadeira de rodas motorizada (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Quinta-feira, 20 de agosto, 17h, auditório de um hotel em Sobradinho. Um rapaz de 30 anos — que nunca andou, nunca penteou os próprios cabelos, nunca vestiu a própria roupa, nunca conseguiu segurar o próprio copo d’água que sacia a sede diária — falava de superação, desafios e esperança para uma plateia de mais de 25 ouvintes. Em silêncio total, as pessoas escutavam aquele homem completamente limitado dizer que sempre há uma saída. Que tudo pode ser melhor. Ele não falava de teoria que escutou em livro de autoajuda. Ele é a carne aberta da própria experiência.

No meio do assunto, uma consultora de famosa marca de cosméticos que assistia à palestra — e precisava aumentar suas metas de venda — disse, com a voz embargada e os olhos umedecidos: “Diante de você, de tudo que ouvi e vi hoje, nada será mais barreira pra mim”. A plateia silenciou. O homem na cadeira de rodas, que mede 1,20m e pesa pouco mais de 30kg, sorriu para aquela mulher. Alexandre Ferreira Abade é um herói.

Há 10 dias, o Correio contou com exclusividade a história do menino de Sobradinho que nasceu com uma rara doença genética. De tão rara, até o nome é estranho. Chama-se osteogênese imperfeita. Os pacientes nascem sem uma proteína necessária (colágeno) ou sem a capacidade de sintetizá-la. A consequência imediata desse desequilíbrio é a fragilidade de todos os ossos do corpo. O bebê, ao nascer de parto cesariano, ao primeiro contato com o mundo, já estava com as duas pernas fraturadas. Eram as primeiras de uma série de muitas que viriam pela frente.

Melhor aluno
Até os 17 anos — data da última internação, graças a uma intensa reabilitação no Hospital Sarah e ao encontro com um médico homeopata de Sobradinho —, Alexandre sofreu mais de 300 fraturas por todo o corpo. Os ossos se partiam até mesmo quando ele dormia. Vivia engessado. E passou a ter o hospital como a sua segunda casa. A família, porém, nunca desistiu de cuidar do menino. Ainda com 17 anos, foi pela primeira vez à escola. Cursou o ensino fundamental e médio. A Rede Sarah desenvolveu para ele um computador especial, sensível aos poucos movimento que possui. Sempre foi o melhor aluno da sala. Prestou vestibular para gestão de marketing de pequenas e médias empresas, numa faculdade de Sobradinho. Foi aprovado em primeiro lugar.

Na próxima sexta, 28, Alexandre colará grau. Será, certamente, um dos dias mais importantes de sua vida. Vestirá beca e, sentado na sua cadeira de rodas, empurrada pelo irmão e pela mãe, será o orador oficial da turma. E dirá, olhando fixamente para aquele auditório lotado, usando a letra de uma música preferida dos Titãs: “Quando não houver esperança, quando não restar nem ilusão, ainda há de haver esperança”.

Há 10 dias, desde que teve sua história contada nas páginas do jornal, a vida de Alexandre mudou ainda mais. Emocionadas, pessoas de todos os cantos do país ligaram para ele. Queriam ouvi-lo. Saber mais. Paravam-no na rua, na paróquia que frequenta. Queriam dizer que foram profundamente tocadas pelo seu relato. Outras agradeceram pelo bem que, sem imaginar, ele acabara de lhes proporcionar. Outras, muitas outras, mandaram e-mails. A caixa-postal abarrotou. Choveram convites para palestras — a de quinta passada, narrada no começo desta reportagem, foi o início de tantas já marcadas até setembro.

Na quarta, 26, às 19h, Alexandre atravessará o DF de uma ponta à outra. O irmão o acompanhará mais uma vez. O rapaz dos ossos de vidro deixará Sobradinho e seguirá para Ceilândia. Chegará à Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. No meio da tarde da última sexta, o Correio voltou à casa dele. Sempre otimista, revelou: “Recebi duas propostas de emprego. Aguardo com muita esperança que alguma delas realmente se efetive”. Uma mulher do Guará prometeu ajudá-lo na compra de uma cadeira de rodas motorizada. “Ainda não chegou, mas ela (a cadeira) virá de algum lugar”, aposta.

Lágrimas de alegria
Maria Abade, 55 anos, mãe de Alexandre, admite: “Há uma semana, só choro de felicidade”. O irmão caçula, o motorista desempregado Eduardo Abade, 28, que cuida do mais velho desde muito menino, se emociona: “Com quatro anos, eu dava água pra ele na boca. Foi sempre assim”. E confessa: “Com toda a fragilidade que tem, ele me ensinou a ser forte. Se ele está feliz, não importa como eu esteja. O que vale é a felicidade dele”. Alexandre engasga a voz e devolve: “Desde a morte do nosso pai, há dois anos, ele (Eduardo) é o meu maior presente. Nunca se cansou ou desistiu de mim”.

Numa breve volta pela rua onde mora, com a pesada cadeira de rodas empurrada pelo irmão, o rapaz que nunca andou com as próprias pernas comenta: “Não falta esperança nos meus sonhos”. Diz isso com uma ternura de comover quem o escuta. Alexandre sempre surpreende: “Eu tô sempre caminhando para alcançar minhas metas. E acredito que ainda tenho muito para caminhar, muita coisa para conquistar”. E conta seu maior segredo para juntar tanta esperança: “Tá na minha fé, que é o ar que respiro, o meu sustento. Eu acho que é assim: a gente agradece e Deus acrescenta”.

Maria, a mãe, mais uma vez engole o choro de contentamento. Passa carinhosamente as mãos sobre a cabeça do filho. Acarinha-o. Beija-o na testa. “Ele é quem me dá força pra seguir”, diz. Ele sorri pra ela. A conversa segue outro rumo. Ele conta, meio envergonhado, que uma moça, por quem está curtindo uma amizade especial, tem lhe mandado mensagens carinhosas por e-mail. “A gente tá se conhecendo”, despista. E brinca: “Acho que agora meus ossos ficaram mais resistentes”. Ah, o amor...

Esse é Alexandre, o rapaz que a cada dia renasce. Criou um jeito muito particular de ser feliz. Reinventou-se. E aprendeu que limites só existem quando nos boicotamos a nós mesmos. Elocubremos: se o presidente dos EUA, Barack Obama, o conhecesse e soubesse de luta diária daquele homem para todo dia estar vivo, talvez retificasse o que já disse certa vez por aí: “Você, sim, Alexandre, é o cara”. Ninguém teria dúvida disso. Ninguém. Tem gente que, de fato, nasceu para fazer a diferença. Em todos os sentidos.

Boa causa
Contato com Alexandre: pelo e-mail aleximagem@hotmail.com ou
3591-5020 e 9234-2167. Ele aceita convites para palestras sobre superação

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