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Correio Braziliense

Ônibus semiurbanos são insuficientes para atender as 600 mil pessoas que usam o sistema


postado em 24/08/2009 07:50 / atualizado em 24/08/2009 12:12

Ary Filgueira
Leilane Menezes
Rodolfo Borges


O transporte semiurbano que liga o Entorno ao Distrito Federal é o mais movimentado(1) e caro do Brasil, mas não atende às necessidades dos passageiros que o utilizam. Composta por ônibus velhos e desconfortáveis, a frota de 1.578 veículos que circula em torno da capital do país é pequena para as 600 mil pessoas que necessitam do serviço diariamente. “Viajamos apertados, como em carros de boi”, compara o estudante Lucas Emanuel de Souza, 10 anos, que mora em Valparaíso e costuma chegar com os pés doendo à escola por viajar em pé.



Em 2008, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) registrou 1.246 queixas contra algumas das dez empresas habilitadas para ligar o DF a cidades como Águas Lindas, Planaltina de Goiás e Valparaíso, de onde vem gente como a copeira Nice Freitas de Sousa, 43 anos. Nice deixa sua casa às 6h todos os dias com o filho André, 7, rumo à parada do centro de Valparaíso, onde pega a linha 308.5, da Viação Anapolina, para chegar ao trabalho.

A viagem de Valparaíso a Brasília custa R$ 2,95 e é disputada. Os passageiros se espremem na condução diariamente para não perder o horário. Onde cabem 48 pessoas sentadas e 40 em pé (em média), viajam pelo menos 120 nos períodos de maior circulação — 36% acima da capacidade máxima. Quando o ônibus demora a passar, resta à copeira embarcar em outro veículo, vindo de Luziânia, cujo bilhete custa R$ 4,25.

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Para Nice, a única opção dos passageiros é se acostumar à situação. “É a realidade, sempre foi assim”, lamenta a copeira, que trabalha na Asa Norte. “É difícil passar entre as pessoas com a mochila, mas fazer o quê? Tenho que ir à escola. Já aprendi a segurar no ferro para não cair, mas chego ao colégio com o braço doendo”, conta André. Apesar do desconforto, quase metade do salário mínimo de Nice é gasto no transporte.

A tarifa das empresas que prestam o serviço entre o DF e o Entorno varia de R$ 1,10 a R$ 5,55 (a mais cara leva para Luziânia) e é estabelecida pela ANTT com base na quilometragem percorrida. O preço é tão alto em algumas cidades que seus moradores têm dificuldades para conseguir emprego no DF. “Conseguir um serviço depois de Águas Claras já é muito difícil”, reclama o ladrilheiro Luís Gonzaga da Silva de Sousa, 37, que vive em Planaltina de Goiás.

 

Confira videorreportagem sobre o sucateamento dos ônibus no Entorno

 

 

Reação
As passagens para o Entorno foram reajustadas no mês passado, motivando protestos em várias cidades. Em Águas Lindas, os moradores atearam fogo a pneus e ônibus da empresa Taguatur, bloqueando a BR-070, das 4h às 11h, no último dia 12. Em Planaltina de Goiás, a população também incendiou ônibus e o prefeito da cidade, José Neto (PSC), chegou a fazer greve de fome durante seis dias devido ao aumento de R$ 0,20 na passagem.

Os protestos resultaram na criação de uma linha(2) da Viação São José para o Plano Piloto, ao custo de módicos R$ 3, graças à intervenção do Governo do Distrito Federal. Desde o último dia 3, dez ônibus partem da divisa entre Goiás e DF para Brasília. Para chegar à divisa, os passageiros contam com a boa vontade de donos de ônibus e vans, que fazem o transporte de graça por solicitação da prefeitura local.

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


O benefício do novo serviço para os passageiros é inquestionável. “Já fiz as contas: com a passagem a R$ 3, economizo R$ 15 por semana”, conta o ladrilheiro Luís Gonzaga. A economia é tanta que os planaltinenses suportam satisfeitos a falta de estrutura. “Mas e na época da chuva, como isso vai funcionar?”, questiona a recepcionista Renilse Gomes Oliveira, 48, referindo-se ao chão de terra onde os passageiros aguardam a condução. Os poucos ônibus da linha também são motivo de incômodo. A demanda é grande e exige viagens com até 129 passageiros por veículo.

Para o diretor do Grupo Amaral, dono da única linha habilitada pela ANTT para o transporte entre Planaltina de Goiás e o DF, a atuação da Viação São José não tem como se manter, porque seu custo é maior do que os R$ 3 por passageiro e ela depende de transporte gratuito. “Essa linha não é sustentável financeira, mas politicamente”, ataca Eduardo Silva. A Viação Rápido Planaltina, do Grupo Amaral, já sentiu o impacto da concorrência no transporte e questiona judicialmente a iniciativa.

1- Alta circulação
Nove das 10 linhas mais movimentadas do país faziam transporte entre o Entorno e o DF em 2008, segundo levantamento da ANTT. Dos 82 trajetos interestaduais semiurbanos do Brasil, 30 (36%) ligam o Entorno ao DF. No ano passado, 70,7 milhões de passagens foram emitidas nessas linhas em todo o Brasil. Dessas, foram 57,5 milhões (81,37%) entre o DF e o Entorno.

2- Itinerário
Os ônibus começam a deixar Planaltina de Goiás a partir das 5h20 e vão sendo preenchidos à medida que vans e ônibus que realizam o transporte gratuito chegam abarrotados de passageiros recolhidos na cidade. Voluntários organizam a fila, que respeita preferência por idosos e gestantes. Na volta para casa, o serviço de ligação entre a divisa e Planaltina começa às 16h.

Medo no caminho

Além de desconfortável, frequentar as linhas semiurbanas do Entorno pode ser perigoso. Os frequentes assaltos e acidentes são situações que mais assustam os moradores da cidade. Entre as principais queixas, maus-tratos de rodoviários contra usuários. “Eles são imprudentes e agressivos”, resume a analista de crédito Cláudia Flávia Neres de Santana, 29.

Cláudia trocou o aluguel em Ceilândia pela casa própria em Águas Lindas, há três meses, mas não vê a hora de voltar para o DF. Todos os dias, a analista enfrenta uma luta que começa às 6h para chegar ao Setor Comercial Sul. E a volta para casa é ainda mais complicada. “Não durmo por desconfiança. Além disso, sou a segurança dela”, disse, na noite da última quinta-feira, ao apontar para a própria mãe, que dormia no banco ao lado.

Mesmo cansada, a analista não se rende ao sono, pois não confia no motorista do veículo que deixou a Rodoviária do Plano Piloto com atraso, às 18h30. Não é para menos. Da rodoviária ao Estádio Mané Garrincha, o coletivo da Taguatur, cujos bancos estavam velhos e sujos, levou apenas dois minutos.

Ziguezague
Quando os motoristas não abriam passagem, o condutor ziguezagueava pela via, despertando o ar de reprovação e medo de Cláudia, que não era a única a enfrentar a viagem com receio. Cobrador e motorista também não se sentiam seguros ao voltar para Águas Lindas. “Penso em largar a profissão, porque é muito arriscada”, conta o cobrador Mário Lúcio Ferreira, 42, que já foi vítima de dois roubos na linha.

Não há horário para os crimes, segundo o cobrador, que se envolveria em um bate-boca logo depois de Cláudia e a mãe deixarem o ônibus. Um dos passageiros se sentiu ofendido pela forma irresponsável como o motorista guiava e reclamou quando o veículo passou a ignorar as lombadas da cidade. “Você está transportando gente”, bradava o passageiro.

Os gritos foram revidados por Mário Lúcio, que tomou as dores do colega e levantou da cadeira para partir em direção ao passageiro, que, fora do carro, conclamava o desafeto a descer. Apesar dos insistentes pedidos do cobrador para o motorista parar, o veículo prosseguiu mais uma viagem por Águas Lindas.

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