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Correio Braziliense

Usuários de ônibus enfrentam manutenção precária e itinerário bagunçado


postado em 24/08/2009 08:08 / atualizado em 24/08/2009 09:30

Ary Filgueira
Leilane Menezes
Rodolfo Borges

 

Os fiscais do DFTrans apreenderam 50 ônibus da Viação Anapolina (Vian), Taguatur, e Rápido Planaltina e Santo Antônio, ambas do Grupo Amaral, durante fiscalização(1) no estacionamento do estádio Mané Garrincha, na última sexta-feira. Um cobrador que preferiu não se identificar aproveitou para denunciar a falta de manutenção dos ônibus durante a apuração do Correio. “Quando o carro quebra, eles passam uma maquiagem, fazem um remendo. Por isso, no dia seguinte, o ônibus quebra outra vez”, relatou. A constante retirada desses ônibus de circulação comprova a péssima condição dos veículos responsáveis pelo transporte semiurbano na região, mas mascara o vácuo de fiscalização no serviço.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) firmou um convênio em 2007 para que o DFTrans fiscalizasse e regulasse as atividades de transporte semiurbano no DF, mas nenhum dos dois órgãos monitora, por exemplo, o cumprimento da tabela de horário. Para a ANTT, isso é responsabildiade do DFTrans. E vice-versa. Enquanto isso, os passageiros perdem as conduções que passam antes do horário ou esperam demais pelos motoristas que demoram para deixar a garagem.



O faturista Marinaldo da Silva, 42, costuma chegar ao trabalho 30 minutos antes da hora por medo de perder a condução. Marinaldo pega o primeiro ônibus de Valparaíso com destino ao Plano Piloto, às 6h06, apesar de só entrar no trabalho às 8h. A viagem dura em média 1h30 e o faturista costuma esperar o horário do serviço na rua. “É melhor pegar o ônibus mais cedo, para não correr o risco de perder um que pode nem passar mais tarde”, explica.

O diretor-geral da ANTT, Bernardo Figueiredo, admite que o serviço oferecido pelas empresas do Entorno é precário. “O preço pago não condiz com a qualidade do serviço oferecido, mas não adianta eu achar que isso é injusto”, considera Figueiredo. “Para o transporte custar menos, alguém precisa subsidiar. O governo teria de criar algum tipo de isenção de impostos. A sociedade toda vai pagar via subsídio”, completa.

Figueiredo lembra que mesmo o transporte solidário em Planaltina de Goiás, que passou a funcionar no início deste mês, não sai de graça para a população. “Alguém está pagando por isso e com certeza não são os empresários”, acrescenta. O empresário Valdir Luís de França, contudo, garante que está tirando o dinheiro do combustível do próprio bolso, pela causa. “Chego às 3h30 para organizar a fila”, conta.

 

Confira videorreportagem sobre o sucateamento dos ônibus no Entorno

 

Para o diretor-geral da ANTT, o aumento no preço das passagens é inevitável. “Além de ser previsto em contrato, esse reajuste varia para repor a inflação”, explica, acrescentando que a situação só vai melhorar depois da licitação que deve abrir concorrência para novas empresas operarem o transporte na região, em 2010.

A permissão para as corporações transportarem passageiros entre o DF e o Entorno venceu em outubro de 2008. Mas a ANTT publicou resoluções (nº 2.968/2008 e nº 2.869/2008) que transformaram todas as permissões em autorizações especiais. Na licitação do próximo ano, deve ser revista a responsabilidade do GDF de fiscalizar os veículos que realizam o transporte no Entorno. “Com a nova concorrência, vamos construir um novo patamar de serviço. É isso que tem de ficar claro para a população”, diz Figueiredo.

Preferência
O gerente da Taguatur, João Caetano da Rocha, garante que a empresa não se sente ameaçada pela concorrência prevista na licitação de 2010. Mas acredita que os empreendimentos que já atuam nas cidades devem ter preferência para continuar nas regiões. “O tempo de serviço prestado deve contar pontos na hora desse processo”, defende o gerente, que nega que a frota da Taguatur seja sucateada.

“Os nossos ônibus têm, em média, 7,2 anos de circulação. Fazemos manutenção preventiva e é raro ver carro da Taguatur quebrado”, garante. Rocha acredita que criticar apenas o transporte do Entorno é uma forma superficial de discutir um problema maior: a má qualidade desse setor em todo o país. “Falar só do Entorno é tapar o sol com a peneira”, afirma.

Para o diretor do Grupo Amaral, Leonardo Silva, o preço das passagens do Entorno é justo. Segundo ele, o valor de R$ 4,25, cobrado na linha Planaltina de Goiás-DF, por exemplo, não é alto, porque a linha é de 72km. Apesar do clamor popular por opções no setor, o executivo não considera que a participação de mais empresas seja a solução para qualquer problema. “Não precisa haver concorrência entre os transportes porque quem faz a tarifa é o governo, que também controla e fiscaliza a frequência e o itinerário dos ônibus”, defende.

1- Impunidade
Os veículos da Vian, que atendem a Luziânia e Valparaíso, estavam entre os mais velhos e danificados. Apresentavam pneus carecas, bancos soltos e para-brisas quebrados. As multas variam de R$ 900 a R$ 4 mil, mas os empresários recorrem à Justiça e geralmente o processo demora meses ou anos para ser concluído.

Eu acho...

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A única forma de resolver esse descaso com o transporte no Entorno é abrir espaço para mais empresas atuarem. Só assim teremos opção. Do jeito que está é ruim demais. Todos os dias, eu chego ao trabalho com o pescoço duro de tanta tensão por causa do estado de conservação dos ônibus. Morro de medo de acidente. Isso tem de mudar.”
Maria Rodrigues Costa, 59 anos, copeira, moradora de Valparaíso.

 

 

 

 

 

Três perguntas para
Bernardo Figueiredo, diretor-geral da ANTT


Por que, no Entorno do DF, a passagem é mais cara do que no restante do país?
A variação tem como base as distâncias percorridas. Dentro do DF, o Caixa Único permite ao passageiro do Plano Piloto subsidiar o preço de linhas mais distantes. O governo tem a liberdade de aumentar as tarifas em zonas mais abastadas para baratear as das localidades mais carentes. No transporte semiurbano, isso não existe. Além disso, não há isenção de Imposto Sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para os ônibus do Entorno e o semiurbano não pode pegar passageiros dentro do DF.

Quando deve ocorrer a licitação para contratar novas empresas e estimular a concorrência?
A licitação será publicada em 2010. Quem oferecer o melhor serviço, pelo menor preço, deve ficar com as linhas. Mas o aumento no preço da passagem deve ser mantido mesmo com a contratação das novas prestadoras. Contudo, pretendemos rever o conjunto de índices que definem o reajuste atualmente e, no futuro, levar em consideração apenas o IPCA. Nunca houve licitação porque a lei que a exige foi publicada em 1995, um ano depois do decreto que permitiu às empresas que realizam o transporte atuar.

Qual seria a solução para os problemas de transporte no Entorno?
A solução é construir um novo patamar de serviço, o que deve acontecer via licitação. Antes dela, vamos ouvir a comunidade em audiências públicas. Na licitação, vamos definir se os veículos terão no máximo cinco anos de uso, poltrona reclinável, ar-concidionado, e quanto isso vai custar. 

 

Personagem da notícia
Reza forte para chegar bem


Maria teme pela segurança ao pegar o ônibus em Luziânia.

 

A diarista Maria Pereira, 53 anos, acorda todos os dias às 5h30. Meia hora depois, ela sai da casa onde mora, em Luziânia, com destino ao Plano Piloto. Maria precisa pegar um ônibus da Viação Anapolina para chegar a Brasília. As dificuldades começam no momento de entrar no veículo. O transporte já chega à parada lotado e Maria não consegue passar pela roleta. Em pé, ao lado do motorista, a única solução é rezar. A diarista carrega um terço na bolsa. De Luziânia até o DF, dá para completar três vezes o circuito de ave marias e pai nossos.

Maria tem dificuldade para fazer as preces em pé. Não é fácil contar as orações do terço, de bolinha em bolinha, e se segurar nas barras de ferro do ônibus ao mesmo tempo. Mas ela não se entrega e vai se equilibrando até o fim da viagem. “Rezo para chegar bem ao meu destino e peço a Deus que o dinheiro do salário sobre no final do mês. Afinal, gasto quase R$ 200 com passagem e ganho R$ 600 com as faxinas”, lamenta. Quando chega à W3 Norte, Maria respira aliviada e desce do coletivo com a sensação de mais um dia de sobrevivência.


Memória

Os acidentes com ônibus que fazem as linhas entre o DF e o Entorno são comuns e costumam tirar a vida de passageiros. Veja abaixo uma relação dos mais graves nos últimos anos:

4 de janeiro de 2000
Dois ônibus da empresa Santo Antônio colidiram de frente na altura do Km 22 da BR-070. Um ia para Brasília e o outro, para Águas Lindas (GO). Um homem morreu e os 79 passageiros dos dois coletivos ficaram feridos. As possíveis causas do acidente foram ultrapassagem perigosa e alta velocidade.

12 de setembro de 2003
Um acidente entre um ônibus da Taguatur e um carro deixou 14 mortos e 75 feridos. Noventa passageiros estavam no coletivo. O condutor de um Monza ultrapassou o ônibus e seguiu em direção a Brasília na BR-070, dentro dos limites de Águas Lindas. Um Gol, que vinha em sentido contrário, bateu na lateral esquerda do Monza e colidiu de frente com o ônibus, que despencou de uma ribanceira.

16 de abril de 2004
Na altura do Km 17 da BR-070, um ônibus, um carro e uma moto envolveram- se em uma batida que resultou em cinco pessoas feridas. O motoqueiro de uma Honda 125 e o motorista de uma Saveiro tentaram desviar de um buraco, no sentido Águas Lindas-Brasília. O coletivo vinha atrás e acabou se chocando com o carro, que rodou e acertou a motocicleta.

25 de março de 2008
Um ônibus da companhia Santo Antônio que saiu da Rodoviária do Plano Piloto em direção a Águas Lindas (GO) perdeu o controle e, depois de sair da pista, capotou duas vezes ribanceira abaixo. O acidente ocorreu 800 metros depois de o coletivo passar pela Barragem do Descoberto, por volta das 21h. Dois passageiros morreram na hora e os outros 51 ficaram feridos — quatro deles gravemente.

6 de maio de 2009
Três pessoas morreram e 58 ficaram feridas depois da colisão entre dois ônibus na BR-020. A tragédia ocorreu por volta das 5h, quando um coletivo da empresa Novo Horizonte, que ia de Santa Maria da Vitória (BA) para Goiânia, acertou a traseira de um veículo da linha 617 da Viplan na altura do condomínio Nova Colina, próximo à entrada de Sobradinho.

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