A reportagem do Correio conversou ao longo dos últimos dias com algumas pessoas próximas ao casal Villela. José Guilherme é descrito como uma pessoa tranquila e reservada. Pela manhã, o casal fazia caminhadas ao redor da SQS 113 e depois comprava pães para o café da manhã na padaria Bellini. Depois, ele ficava em casa, onde despachava com um funcionário de seu escritório de advocacia. À tarde, seguia com a mulher, que era sua sócia, para a sede da empresa, no Setor Comercial Sul (SCS). Geralmente, os dois retornavam apenas após as 21h.
Uma das funcionárias que trabalhava pela família confirma a preocupação de Maria Villela com a segurança. ;Ele (Guilherme) até que era muito tranquilo. Mas ela parecia assustada com a questão da violência. Sempre quando saía mandava a gente trancar as portas e conferir para ver se estava trancada. Somente a Francisca (empregada) tinha as chaves do apartamento. Não entendo como eles (criminosos) fizeram para entrar;, disse a mulher ao Correio. O apartamento 601/602 era monitorado por uma empresa de segurança privada.
A residência dos Villela não era muito movimentada. Entre os familiares, quem mais frequentava a casa era a neta mais velha, Carolina, que almoçava com o casal uma vez por semana ; foi Carolina quem estranhou o fato de os avós não terem ido trabalhar na segunda-feira, dia 31. Com a ajuda do namorado, que é policial federal, ela chamou um chaveiro e abriu o apartamento, no fim da tarde. O rapaz viu um dos corpos e rastros de sangue, não deixou Carolina entrar no apartamento e acionou a Polícia Civil.[SAIBAMAIS]
Pessoas ligadas à família disseram que a filha do ex-ministro do TSE, Adriana Villela, raramente ia ao apartamento dos pais. As visitas do filho, o também advogado Augusto, eram feitas quase sempre nos fins de semana. Os Villela também não recebiam com frequência a visita de amigos e raramente davam festas ou jantares. No convívio com os vizinhos, eles eram muito discretos.
Alertas
Nos últimos anos, em pelo menos duas oportunidades
Maria Villela demonstrou publicamente sua preocupação com a segurança. Em 2006, ela enviou uma carta a todos os condôminos do Bloco C alertando para a assaltos praticados em outras quadras do Plano Piloto. Na época, alguns apartamentos foram invadidos por bandidos que se disfarçavam de funcionários de uma companhia telefônica ou de uma operadora de TV a cabo. Tempos depois, ela distribuiu novo comunicado pedindo mais atenção dos moradores em relação ao trancamento das portas social e de serviço da portaria 01/02, onde o casal morava.
Embora tivesse um bom patrimônio ; além dos dois apartamentos unificados no Bloco C da 113 Sul, os Villela possuem vários imóveis na cidade, incluindo casas no Lago Sul ;, o casal não era de ostentações. O advogado dirigia um VW Passat importado, mas com 10 anos de uso. A mulher circulava a bordo de um Corsa Sedan também com alguns anos de uso. As joias que acabaram roubadas pelos assassinos também só eram usadas em ocasiões especiais. Maria Villela guardava brincos, colares e aneis em uma caixa no closet, e fazia questão de avisar aos familiares a localização dos bens, justamente para que eles fossem entregues a bandidos em caso de assalto.
Perfil
Dedicação ao direito
José Guilherme Villela nasceu em Manhuaçu, interior de Minas Gerais, em 12 de agosto de 1936. Morreu aos 73 anos. Teve uma dedicação quase integral ao trabalho. Formou-se em direito pela antiga Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, em 1959. Iniciou a carreira em Belo Horizonte. Em Brasília, onde chegou no início dos anos 60, trabalhou como procurador jurídico do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), ocupou uma vaga de auditor na mesma Corte, foi ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e professor da Universidade de Brasília (UnB).
A seriedade e dedicação à advocacia são características destacadas por antigos colegas. Amigos fazem questão de ressaltar o talento e a carreira brilhante de José Guilherme. Ele ficou conhecido por defender o ex-presidente da República Fernando Collor de Mello, durante o processo de impeachment no Congresso Nacional, em 1992. Mas sua trajetória foi muito mais ampla que esse episódio. Defendeu, por exemplo, o também ex-presidente Juscelino Kubitschek, o atual presidente do Senado Federal, José Sarney, o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto e o deputado federal Paulo Maluf. Villela também atuou no caso do mensalão, na defesa de uma corretora de valores.
Amigos contam ainda que ele era discreto, mas tinha o temperamento forte. Era contundente em suas defesas durante as sustentações de causas como advogado. José Guilherme mantinha o escritório Villela Advogados Associados, que ocupa todo o 14; andar do Edifício Denasa, na Quadra 1 do Setor Comercial Sul. Ele costumava chegar para trabalhar entre 13h e 14h e ficava até as 21h, quase sempre o último a deixar o local. O ex-ministro não variava muito os hábitos diários. Pela manhã, passava o dia em casa, depois de uma caminhada. À tarde, seguia para o trabalho.
José Guilherme casou-se jovem com Maria Carvalho Mendes Villela. O companheirismo do casal chamava a atenção. Eles estavam sempre juntos, em casa, no trabalho e nas caminhadas pelas quadras vizinhas à SQS 113. Maria Carvalho também era advogada e sócia no escritório Villela Advogados Associados. O casal teve dois filhos: Adriana e Augusto, que também trabalhava no escritório. Tinham ainda duas netas: Carolina, 22 anos, e Sofia, 6. José Guilherme adorava viagens, gastronomia e futebol. Era fanático torcedor do Atlético Mineiro. (Diego Amorim)