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Correio Braziliense

Cena da tragédia na 113 Sul foi alterada

Para a Polícia Civil, alguém voltou ao apartamento onde ocorreu o triplo homicídio depois de o local passar por perícia. Provas teriam sido retiradas e objetos inseridos no imóvel com o intuito de enganar os investigadores que cuidam do caso


postado em 09/09/2009 08:18 / atualizado em 09/09/2009 08:46

Doze dias depois do crime que assustou Brasília, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) não tem dúvidas de que a cena do triplo homicídio foi alterada. E teria ocorrido não apenas antes de os investigadores chegarem pela primeira vez ao apartamento 601/602 do Bloco C da 113 Sul na noite da segunda-feira da semana passada, quando foram descobertos os corpos do advogado e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral José Guilherme Villela, 73 anos, da mulher dele, Maria Villela, 69, e da empregada do casal, Francisca Nascimento da Silva, 58. Os três morreram com 72 golpes de faca na sexta-feira anterior, dia 28. Agora, fontes da PCDF admitem que alguém esteve no imóvel depois da primeira perícia, com o intuito de retirar provas e inserir objetos para confundir os trabalhos de apuração.

A delegada Martha Vargas apresentou ontem imagens do circuito interno de TV do prédio onde o casal trabalhava(foto: Cadu Gomes/CB/D.A Press)
A delegada Martha Vargas apresentou ontem imagens do circuito interno de TV do prédio onde o casal trabalhava (foto: Cadu Gomes/CB/D.A Press)
A fita amarela e preta colocada nas portas do apartamento para deter a entrada de qualquer pessoa e evitar a descaracterização da cena não foi suficiente para isolar o local. Essas fitas, inclusive, acabaram recolhidas no último sábado pelo Instituto de Criminalística (IC) para análise de impressões digitais que podem ter sido deixadas pelo criminoso (ou criminosos). Além desses indícios, testemunhas confirmaram que o local sofreu modificações. Documentos teriam sido retirados.

Como o Correio já havia divulgado ontem, a polícia trabalha com testemunhos e outras evidências que comprovariam que pessoas envolvidas nas mortes foram ao imóvel da 113 Sul entre 28 e 31 de agosto. A trama para enganar os investigadores inclui até a faca de 15cm manchada de sangue e encontrada na pia da cozinha. Nas primeiras perícias, acreditou-se que se tratava da arma do crime. Depois, surgiu a certeza: o objeto não foi o utilizado para esfaquear as três vítimas. Maria, José Guilherme e Francisca foram assassinados com extrema crueldade, sem chance de defesa, segundo o laudo cadavérico produzido pelo Instituto Médico Legal (IML) a que o jornal teve acesso com exclusividade.

Suspense
O clima na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) foi de suspense durante todo o dia e início da noite de ontem. Ao chegar às 12h28, a delegada-chefe Martha Vargas comentou que haveria novidades sobre o caso. No entanto, no decorrer do dia, ela permaneceu em silêncio e fez saídas misteriosas pelas portas dos fundos da delegacia.

Na primeira, às 16h, Martha seguiu em um carro descaracterizado em direção ao Lago Sul. De lá, voltou na companhia de um homem magro e alto que trajava calça jeans, tênis e blusa de moleton vermelha. O rosto dele estava coberto com uma touca preta, embaixo do capuz bege da própria blusa. O depoimento demorou cerca de uma hora. Por volta das 17h30, a delegada saiu novamente na companhia do homem e não deu qualquer informação sobre o depoimento. Não se sabe se era um suspeito ou uma testemunha. Segundo fontes da polícia, Martha Vargas ouviu ontem mais duas pessoas.

Filmagem
Meia hora depois, a responsável pela investigação do crime na 113 Sul retornou discretamente apenas na companhia dos agentes. Por volta das 18h, Martha saiu outra vez. Uma hora depois, o carro retornou apenas com um agente. Às 20h20, a delegada entrou pela porta principal da 1ª DP acompanhada do chefe do Departamento de Polícia Circunscricional (DPC), delegado André Victor Espírito Santo. Somente às 21h30, divulgou imagens do circuito interno de TV do prédio onde funciona o escritório de advocacia da família Villela, no Edifício Denasa, no Setor Comercial Sul. O Correio esteve no edifício comercial ontem pela manhã, antes dos agentes e conseguiu as gravações (leia mais na página 23).

As cenas mostram o advogado chegando ao serviço pela garagem do prédio, na sexta-feira, às 14h19. Às 15h24, ele aparece novamente saindo de uma porta do térreo do prédio, que segundo a delegada, seria do restaurante onde ele costumava almoçar, e entrando no elevador. O advogado volta a aparecer às 19h05, saindo do prédio pela garagem. A mulher dele, Maria Villela, e a neta Carolina também são flagradas pelas câmeras. Ambas trabalham na firma da família.

A reunião entre a delegada e o chefe do DPC só terminou às 23h40. Nenhum dos dois falou com a imprensa. Pela primeiro dia desde a segunda-feira da semana passada, nem Martha Vargas nem os peritos se dirigiram ao apartamento onde ocorreu o crime. Ontem à tarde, um dos funcionários do Bloco C consertava a fechadura da portaria 01/02. Alguns moradores haviam reclamado que a trava nem sempre funcionava.

ENTENDA O CASO
Latrocínio ou encomenda?

O casal Villela e a doméstica Francisca da Silva foram assassinados a facadas. Peritos apuraram que o crime foi cometido na sexta-feira (28 de agosto), após as 19h, mas os corpos dos três só foram encontrados, no apartamento onde viviam, na noite da segunda-feira (31 de agosto). A neta dos Villela, após estranhar o fato de os avós não terem ido trabalhar, resolveu chamar um chaveiro para abrir o imóvel. Quem primeiro encontrou os cadáveres foi um amigo que acompanhava a jovem.

Joias de Maria Villela desapareceram do closet do apartamento, o que levou a polícia a enquadrar o triplo homicídio como latrocínio (matar para roubar). Na semana passada, a polícia tinha como suspeito o filho de uma pessoa conhecida das vítimas. Mas ele apresentou um bom álibi, e outros indícios fizeram os agentes praticamente descartar essa hipótese. Na sexta-feira passada, a tese de crime por encomenda ganhou força. A polícia já buscou informações sobre o patrimônio da família e movimentações bancárias das vítimas que pudessem levantar novas suspeitas.

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