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Correio Braziliense RECANTO DAS EMAS

Abrigo acolhe adultos e crianças portadores do vírus HIV


postado em 16/09/2009 08:52 / atualizado em 16/09/2009 09:36

O limite que separa 110 crianças e adultos do preconceito é uma rua. Nos 10 hectares de mata verde e plantas nativas, casas colorem o cenário imaginado por Jussara Santos Meguerian, 58 anos, há muito tempo. Na Chácara 11 da Quadra 108 do Recanto das Emas, pessoas que sofrem com a exclusão da sociedade por causa do fato de serem portadoras do vírus HIV(1) vivem em uma comunidade onde todos são iguais e se respeitam. Soropositivos, que conquistaram na Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale) muito mais que dignidade, ganharam uma casa, uma família, amigos e uma profissão.

Jacqueline vive no abrigo:
Jacqueline vive no abrigo: "Foi aqui que aprendi a conviver com a doença" (foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press - 31/8/09)
Antes de morar no vilarejo, Jaqueline Aparecida Silva, 40 anos, nunca havia trabalhado. Era mantida pelo ex-marido — o mesmo que ela acusa tê-la contaminado pelo vírus da Aids. A descoberta veio quando o quinto filho nasceu, há cerca de seis anos. “Não sabia que tinha HIV. Tive de fazer exame nos meus quatro primeiros filhos porque os amamentei. Só uma, a de 11 anos, é portadora do vírus. Os outros não são”, conta. Os filhos de Jaqueline têm 22, 16, 11 e 10 anos. O garoto que nasceu para ajudá-la a descobrir o vírus morreu aos dois anos e 7 meses, vítima das doenças oportunistas. Cinco meses antes, ela havia sofrido um aborto espontâneo e, aos sete meses de gestação, perdera uma menina.

De todo o drama sofrido por ela, ter sido impedida de amamentar o quinto filho foi o mais marcante. “Fiquei em depressão por não poder lhe dar de mamar”, descreve. Ao descobrir o vírus, Jaqueline assume ter perdido temporariamente o sentido da vida. “Quando soube, foi o mesmo que receber uma facada. Vim para cá (a Fale), em dezembro de 2004, em busca de ajuda no tratamento e não conhecia ninguém na chácara”, lembra. Agora, Jaqueline se vê casada(2), rodeada de amigos, trabalhando como babá e ainda é colaboradora em um bazar feito pela entidade para arrecadar fundos para a manutenção das casas.

“Foi aqui que aprendi a conviver com a doença. Aqui, todos têm o mesmo problema e fui me acostumando com as normas, as regras. Hoje, dou palestras em escolas e não escondo de ninguém o fato de ser portadora do vírus”, conta. Na comunidade, as regras são claras. Eles não podem usar drogas nem bebidas alcoólicas. “Muitos deles têm problemas com dependência e às vezes não conseguem ficar na casa porque estão muito ligados ao vício”, explica a presidenta e fundadora do abrigo, Jussara Santos Meguerian. Lá, todos têm vida normal. São donas de casa, babás, pedreiros, jardineiros, eletricistas. “Quando alguém chega sem profissão, logo os outros lhe ensinam a fazer alguma coisa”, conta Jussara. Das 36 casas existentes na chácara, a maioria foi construída pelas mãos dos moradores de lá. E todas as reformas e melhorias também são feitas por eles.

Iniciativa
O sonho contínuo de uma igreja e uma praça em um cenário jamais visto intrigava Jussara Santos Meguerian. Durante anos, a imagem que aparecia na memória dela permanecia sem explicação. Na década de 1990, um problema novo assustava moradores de todas as cidades brasileiras. O contágio pelo vírus HIV causava pânico e preconceito nas pessoas. Os poucos tratamentos também não colaboraram. Os portadores não sobreviviam por muito tempo, devido às doenças oportunistas. De Brasília, Jussara Santos mudou-se para Uberlândia (MG), para acompanhar o marido, transferido. Na cidade mineira, ela teve de passar os primeiros dias em um hotel até que alugassem uma casa. “Naquela manhã, ao abrir a janela do quarto, a imagem dos sonhos apareceu. Rezei e pedi a Deus que me mostrasse o significado daquilo. Ali, nasceu a Fale”, conta.

O sucesso da casa correu o país. “Um dia, abri o jornal e vi que haviam espancado um portador de HIV no parque da cidade. Não podia deixar que fizessem isso com ele”, lembra a fundadora da casa, que nasceu em Brasília em 1995. “Em pouco tempo, devido a uma espécie de propaganda silenciosa, tínhamos mais de 300 pessoas. No início, aceitávamos apenas portadores, mas tivemos que abranger para os filhos de pessoas com vírus que não eram portadores”, relata. “Aqui, eles recebiam amor, carinho, ajuda no tratamento das doenças oportunistas, além de alimentos e um lar.” A instituição, atualmente, oferece mais que carinho e amor. Ela ensina a viver em sociedade. “Formamos um grupo a cada quatro casas. Nesse grupo, há um líder. Se uma casa estiver desarrumada, todos devem ajudar a moradora a dar faxina. Senão, todo o grupo é punido por uma semana. É um exemplo bonito de solidariedade”, completa.

1- Direito do cidadão
A Constituição da República Federativa do Brasil, no artigo 196, garante que saúde é direito de todos e dever do Estado. No caso da Aids, isso significa direito à própria vida, com dignidade e acesso assegurado a um sistema de saúde pública eficiente.

2- Matrimônio espírita
A presidenta do abrigo, Jussara Santos Meguerian, celebra um casamento espírita na chácara para os casais apaixonados. Desde março de 2005, Jaqueline vive feliz com o auxiliar de serviços gerais Celso, 39.

DEPOIMENTO
A volta por cima

Eu nasci em Torres, Rio Grande do Sul, em 1967. Aos 18 anos, mudei-me para Florianópolis. Trabalhei como metalúrgico, tinha um salário até bom, mas não gostava de me sentir preso a um emprego, ter que bater ponto. Fui garçom por um tempo. Vivia numa loucura. Era usuário de cocaína injetável. Aos 21 anos, comecei a sentir uns sintomas diferentes. Durante oito meses, perdi o apetite, sentia algumas dores pelo corpo, cãimbra e insônia. Ao revelar o resultado do exame, fui desprezado pelos meus familiares. (...) Fiquei internado 18 dias à beira da morte. Na última noite, uma pergunta veio à minha cabeça: o que estou fazendo da minha vida? Vim para Brasília há seis anos para aprender a recomeçar a vida. Procurei a Fale. Mas ainda usava muitas drogas. Fui expulso várias vezes. Uma vez, a tia (nome carinhoso que dão a Jussara) descobriu que eu estava mandando um menino comprar merla pra mim e me expulsou. Fiquei um tempo fora e pedi para voltar. Conheci a Dalva. Ela era tudo que sempre pedi a Deus. Uma mulher boa com um filho. Eles vieram. Meu filho (enteado) tem oito anos. Nos divertimos juntos, passeamos de bicicleta. Deus foi muito generoso comigo. Hoje, parei com drogas e consigo fazer meu tratamento de maneira correta. Sofro muito com as injeções todas as segundas-feiras. Mas estou cada dia melhor. Hoje, tenho orgulho de ser coordenador do abrigo. Ganhei dignidade, família e respeito.
Ricardo Areze, 42 anos, coordenador do abrigo

Como ajudar
A Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale) precisa de colaboração para cuidar de todos os moradores. As doações podem ser entregues na Quadra 108, Chácara 11, no Recanto das Emas. Informações pelos telefones: 3331-3556 ou 3273-6249.

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