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Correio Braziliense INVESTIGAÇÃO

Assassinos brutais continuam sem punição

Crimes como o da 113 Sul fazem os familiares de vítimas de homicídios não solucionados reviverem toda a dor e a angústia por que passaram


postado em 27/09/2009 08:03 / atualizado em 27/09/2009 08:15

O triplo homicídio da 113 Sul completa um mês amanhã, sem ninguém preso nem sequer acusado de envolvimento no crime. Os policiais também não sabem quantas pessoas entraram no apartamento 601/602 do Bloco C e esfaquearam o casal de advogados José Guilherme Villela, 73 anos, e Maria Carvalho Villela, 69; e a principal empregada deles, Francisca Nascimento da Silva, 58. De certo, segundo a perícia, somente a data da tragédia: 28 de agosto. Os corpos acabaram encontrados três dias depois. A delegada responsável pelo caso, Martha Vargas, e o diretor-geral da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), Cléber Monteiro, declararam diversas vezes que o caso não ficará sem solução, como tantos outros assassinatos com requintes de crueldade, ocorridos há anos, décadas.

Creuza, mãe de Renato Marra, morto em 1994(foto: Monique Renne/CB/D.A PRes - 15/2/09)
Creuza, mãe de Renato Marra, morto em 1994 (foto: Monique Renne/CB/D.A PRes - 15/2/09)
Com a repercussão dos assassinatos da 113 Sul, familiares de vítimas de crimes não esclarecidos revivem a barbárie a que foram submetidos. Revoltam-se porque a polícia não lhes dá resposta, o culpado continua impune ou porque nem tiveram o direito de enterrar o parente. O Correio recuperou sete casos sem solução (confira abaixo). Parentes contam que não superaram a tragédia.

Eurípedes Gomes de Paula Souza, 65 anos, pai do estudante Renato Marra de Paula Souza, 20, — jovem morto em dezembro de 1994 — não sabe como reagiria hoje se descobrisse o assassino do filho. Após 15 anos, o caso permanece sem solução. “Quando soubemos da morte, quase ficamos doidos. Uma situação dessas machuca muito a gente. Quero parar de sofrer”, conta. A mãe do jovem, Creuza Marra, não acredita que uma resposta para o caso diminua a intensidade da dor. “Se pertencêssemos à elite, já teríamos um desfecho para a história”, desabafa.

A situação não é diferente na casa de Raimunda Mendanha, 69. Ela é avó de Letícia, a menina de 9 anos encontrada morta em um córrego a cerca de 3km da casa da família, no Guará II. A criança desapareceu em junho de 2005. “A gente só queria saber o que ocorreu. Se ela foi levada por alguém ou se se perdeu”, explica Raimunda. Jussara, mãe de Letícia, duvida que a menina tenha chegado sozinha ao riacho. “Ela nem conhecia esse lugar.” As duas afirmam não haver consolo para o sofrimento causado pela morte da caçula da família. “Se achassem um culpado, gostaria de olhar na cara dele. Mas isso não diminuiria a saudade”, diz a mãe.

Policial executado
Na lista de crimes não esclarecidos pela Polícia Civil brasiliense, há até aqueles em que integrantes da corporação foram vítimas, como o caso do agente Ivaldino Assêncio Pereira, 42 anos, e do amigo Bruno Souza Lopes, 25. Ambos foram encontrados mortos na madrugada de 29 de janeiro de 2006, às margens do Lago Paranoá. Os corpos tinham sinais de execução.

Raimunda, avó da menina Letícia, morta em 2005(foto: Ricardo B. Labastier/CB/D.A Press - 12/6/04)
Raimunda, avó da menina Letícia, morta em 2005 (foto: Ricardo B. Labastier/CB/D.A Press - 12/6/04)
As vítimas estavam ajoelhadas e se preparavam para tirar os paletós, de acordo com peritos. Na época, o então diretor-geral da Polícia Civil, o hoje deputado federal Laerte Bessa, mandou todas as unidades de elite para as ruas, em uma caçada aos assassinos. Mas em nada resultou, apesar da cobrança interna.

“A polícia tem uma linha de investigação definida, o latrocínio (roubo com morte), pois o carro sumiu. Mas a demora na solução incomoda toda a categoria, pois o Dino (como o policial era conhecido) era uma pessoa muito correta”, lembra o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol-DF), Welington Luiz de Souza Silva. Ele aponta dificuldades enfrentadas pelos investigadores. “Como no caso dos Villela, o crime contra o Dino e o amigo dele demorou a ser descoberto. As primeiras 24 horas de investigação são fundamentais. Depois, tudo fica mais difícil”, comenta. O sindicalista ressalta que a PCDF tem o melhor índice de elucidação de crimes violentos no país. “A média atual é de 74%. Já foi mais, de 84%. Mas, no Rio de Janeiro, por exemplo, não passa de 15%.” Os dados, segundo Welington Silva, são da Divisão de Estatísticas da PCDF.


CASOS

1973
ANA LÍDIA

Eram 13h30 quando Ana Lídia Braga, 7 anos, desceu do carro do pai na porta do Colégio Madre Carmem Salles, na L2 Norte. O corpo da menina foi encontrado 22 horas depois. O crime, ocorrido em 11 de setembro de 1973, permanece sem solução. A menina teve os cabelos cortados rente ao couro cabeludo. Havia escoriações e manchas roxas por todo o corpo, indicando que ela foi arrastada pelo cascalho. Depois o assassino depositou o corpo nu, de bruços, em uma cova rasa, a menos de 1km da escola de Ana Lídia.

1992
ANTÔNIO

Funcionário aposentado do Banco do Brasil, Antônio Soares Braz, 62 anos, foi encontrado morto em 27 de janeiro, com 35 facadas. Os peritos estimaram que o homicídio ocorreu de cinco a oito dias antes. O assassino abriu os braços do morto, deitado em carpete, e colocou uma mesa de centro perto do corpo. Sobre a mesa, pôs uma gravura emoldurada, réplica do quadro de Salvador Dali no qual Cristo agoniza na cruz. Com o sangue de Antonio, escreveu no espelho da pia: Satiricon. Sobre o peito do morto, deixou um exemplar do livro Estorvo, de Chico Buarque. Até hoje, ninguém foi condenado.


1994

RENATO MARRA
Às 23h de 10 de dezembro, o estudante Renato Marra de Paula Souza, 20 anos, saiu de casa, na QNE 18, em Taguatinga, e não voltou para casa. O corpo dele foi encontrado no dia seguinte, em Samambaia, com cinco tiros. Na época, a polícia levantou a hipótese de sequestro. Alguns vizinhos relataram ter visto Renato acompanhado de dois homens e uma mulher. Em 2002, agentes da 26ª DP procuraram a mãe do rapaz, Creuza, para reforçar que ainda investigavam o assassinato. O caso completa 15 anos em dezembro, ainda sem solução. A família diz não ter informação da polícia desde 2004.

2000

DÉBORA
O sofrimento da família Alves começou em 29 de outubro, quando Débora Fernanda Alves Matos, 14 anos, sumiu de casa, em Ceilândia. O corpo da menina foi achado quatro dias depois, em uma fossa na zona rural de Brazlândia. Débora fora amordaçada e teve as mãos amarradas. O corpo estava em avançado estado de decomposição. A suspeita inicial da polícia era de que Débora tivesse morrido por conta de uma dívida de R$ 13 com traficantes. No dia em que desapareceu, ela estava com uma amiga, apontada como suspeita. Nada ficou provado. O processo acabou arquivado em 18 de maio de 2007.

2005

LETÍCIA
A família não aceita que Letícia Mendanha Silva, 9 anos, tenha morrido por afogamento, como apontou o laudo da polícia. A menina foi encontrada morta em 15 de junho de 2005 no Córrego Vicente Pires, no Guará. A criança foi vista pela última vez na casa da avó, na QE 26 do Guará, uma semana antes da descoberta do corpo. No início da investigação, a polícia descartou violência sexual e roubo. Apesar disso, foi divulgado retrato falado de um homem acusado de seguir duas adolescentes no Guará. O caso saiu da 4ªDP (Guará) e passou para a Delegacia de Homicídios, onde continua em apuração.

VÂNIA
A estudante Vânia Alcântara Diniz, 14 anos, fugiu de casa na noite de 12 de maio, para ir a uma festa. Familiares e vizinhos procuraram pela adolescente até as 10h de 14 de maio, quando um corpo foi localizado às margens de uma lagoa em Cidade Ocidental (GO), onde a vítima morava. A adolescente foi estuprada. Havia cortes no rosto, busto, braço direito e na garganta. O rosto e os lábios foram perfurados. O criminoso escreveu na bochecha e no braço direito da menina as letras C e Y, uma por cima da outra. Até hoje ninguém foi preso
pelo crime.

2006

DINO E BINO
O policial civil Ivaldino Assêncio Pereira, 42 anos, e o amigo
Bruno Souza Lopes, 25, foram encontrados mortos na madrugada de 29 de janeiro de 2006, nas margens do Lago Paranoá, entre a Academia de Tênis e o Clube das Nações. Ivaldino (o Dino) levou dois tiros na cabeça. Bruno (o Bino), quatro. Foram vistos pela última vez quando buscaram uma amiga das namoradas deles, no Núcleo Bandeirante. As jovens subiram ao apartamento da colega e, quando voltaram, os dois e o carro haviam desaparecido. O caso saiu da 1ª DP (Asa Sul) e passou para a Delegacia de Repressão a Roubos, pois a polícia acreditava em latrocínio. Hoje, está na Divisão de Combate ao Crime Organizado.

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