Publicidade

Correio Braziliense ASA SUL

300 anos de ensinamentos

Um deles já tem um século de vida. Outro, 99 anos. O terceiro, 98. Vizinhos de quadra -- moram na 416 Sul há mais de quatro décadas --, eles se reúnem para contar histórias e celebrar cada momento vivido


postado em 09/10/2009 09:19

Há alguma coisa de muito especial naquela quadra. Lá, a vida insiste em viver. E aquela gente gosta de colecionar janeiros. O dia amanheceu quente. Sol a pino. Depois, uma enxurrada que desabou sem mais nem menos. Chuva, sol, calor, um ventinho frio. Eles, especialmente três deles, estão acostumados com as intempéries do tempo. Viram coisas de que até Deus duvida. Mas ainda querem ver mais. Surpreender-se mais. E se emocionar cada dia mais. A inquietação os impulsiona. É o remédio que tomam todos os dias. Um deles, Nelson Magalhães Motta, carioca de Botafogo, todo marrentinho, planeja: “Se der, vou ao Rio para ver as Olimpíadas de 2016. Disposição eu tenho”. Detalhe: esse homem completará 100 anos semana que vem.

Depois da tarde de ontem, o trio se animou e promete muitos encontros(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press )
Depois da tarde de ontem, o trio se animou e promete muitos encontros (foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press )
Ele é vizinho de Gervásio de Sousa Oliveira, 99. E de Gustavo José da Silva, 98. Moram todos na 416 Sul há mais de 40 anos. Viram cada árvore crescer. Blocos sendo construídos. Crianças crescerem. Muitas delas hoje são avós. Somadas as idades dos três, chega-se a quase 300 anos de história. Se for levado em conta o tempo que passaram nas barrigas das mães, a conta fecha com exatidão.

O miudinho Gervásio nasceu em Riachão do Dantas, nos confins de Sergipe. O ex-condutor de bondes Gustavo, sotaque ainda carregado, é conterrâneo de Nelson. Nasceu no estado do Rio de Janeiro, mais precisamente em Teresópolis. Em comum, todos deixaram suas terras e partiram em busca do sonho. Brasília traduzia esperança. Vieram com o peito roxo de saudade. Quando aqui desembarcou, em 17 de abril de 1960, o coração de Gustavo partiu: “Faltavam quatro dias para a capital ser inaugurada. Chorei de tristeza, como menino perdido. Era só mato e escuridão”, conta.

No Rio de Janeiro, ficaram os cinco filhos e a primeira mulher, Mercedes. Tempos depois, ele trouxe a família toda. Primeiro endereço: Cruzeiro Velho. “No Rio de Janeiro, comecei no Ministério da Educação. Era servente. Fui nomeado pelo presidente Getúlio Vargas, em 1939, antes da guerra”, orgulha-se. Em 1970, aos 54 anos, a mulher morreu de derrame. Gustavo, na 416 Sul, chorou de novo choro de menino perdido.

Gustavo, 98 Gervásio, 99 e Nelson, 100 anos completos(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press )
Gustavo, 98 Gervásio, 99 e Nelson, 100 anos completos (foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press )
Foram longos três anos de viuvez e solidão. Um dia, aos 63 anos, Gustavo conheceu uma simpaticissíma gaúcha de nome Walterlina Porto Silva, 49, solteira, sem filhos. Uma amiga do filho mais velho dele, que era vitrinista da Bi-ba-bô, disse ao rapaz: “Ela nasceu para o seu pai”. Estava certa. Na 416 Sul, onde mora desde 1968, Gustavo se casou com Walterlina. Naquele dia, ela foi chamada apenas de Dinda pela família inteira. Hoje, aos 84 anos, Dinda cuida de Gustavo como se fosse o primeiro dia. Ele a chama de amor. Ela o olha com ternura de mulher apaixonada.

Ascensorista
De Sergipe, o miudinho Gervásio partiu para o Rio de Janeiro. Foi sozinho. ,“Vivi dois anos lá, solteiro. Sabia que um dia voltaria para me casar com ela”, ele diz. Na Cidade Maravilhosa, o sergipano virou ascensorista de um edifício comercial do centro. “Era na Avenida Graça Aranha, 26. Depois, tomei conta de um prédio na Nilo Peçanha”, ele lembra, com memória invejável.

Juntou um dinheirinho e retornou a Sergipe. Tinha uma missão: pedir a mão da linda jovem Benita. E lá se foi o casal atrás de sonho e começo. No Rio, nasceram os três filhos do então ascensorista Gervásio. Brasília inaugura. Um cunhado dele, motorista da Câmara, escreve. Conta sobre a nova cidade. Diz que aqui haveria chance para recomeçar. Gervásio parte com a família. Começa o ano de 1963. Aqui, vira porteiro. Mora em Taguatinga. Em 1969, muda-se para a 416 Sul.

Nunca mais deixou a quadra. “Eu gosto muito de Brasília. Aqui, pude criar meus filhos, dar educação a eles”, diz, com os olhos em lágrimas, o homem de 99 anos. Os três filhos do porteiro Gervásio se formaram e hoje moram no Lago Sul. Benita, hoje com 95 anos, a única e sempre companheira, repara: “Com as coisas do passado, ele sempre se emociona”.

Três charutos
Benita, 95 anos, fala sobre seu marido Gervásio %u201CCom as coisas do passado, ele sempre se emociona%u201D(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press )
Benita, 95 anos, fala sobre seu marido Gervásio %u201CCom as coisas do passado, ele sempre se emociona%u201D (foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press )
De bermuda, camiseta e boné do time do coração, o aniversariante da semana que vem é carioca de alma e inspiração. É quase um moleque. “Nasci na General Severiano, em frente à sede do Botafogo. Não podia torcer por outro clube”, ele constata. Na sala, um cheiro de charuto. Pergunto se ele ainda fuma. A resposta? “Apenas três por dia e uma cervejinha gelada.”

Esse é Nelson Motta, 100 anos, de bem com a vida, viúvo duas vezes, devoto de Nossa Senhora Aparecida. “Minha primeira mulher morreu cedo demais. Tive um filho com ela. Só ficamos casados durante cinco anos. Com a segunda, a Regina, vivi 69 anos. Há seis anos, ela morreu. Tivemos quatro filhos”, diz. Maria Antônia de Araújo, 51, que há 32 anos mora com a família e dela faz parte, conta: “No dia em que a dona Regina morreu, ele chorava como criança. Soluçava. Nunca tinha visto ele tão triste”. Nelson, então com 94 anos, sobreviveu à perda da amada. Enxugou as lágrimas e resolveu que viveria por ela também.

No Rio de Janeiro, o botafoguense roxo trabalhava no extinto Departamento Nacional de Saúde Pública. “Depois, virou Ministério da Educação e Saúde”, explica. Era do setor de almoxarifado. “Com a mudança da capital, saiu minha transferência. Mas ainda continuei no Rio, Só mudei pra cá em 1964.”

Onde parou? Na 416 Sul. Ali criou os cinco filhos, todos nascidos no Rio. Aprendeu a admirar e a gostar da cidade que não tinha praia nem a sede do Botafogo no quintal de sua casa. Passou a defendê-la. Compreendeu o canto das cigarras e a imensidão do cerrado. Hoje, admite que da terra de JK não sai mais. “O Rio tá muito violento. Faz tempo que não vou ali.”

Encontro emocionante
No início da tarde chuvosa de ontem, o Correio conseguiu juntar Nelson, Gustavo e Gervásio. Cada um mora num bloco de uma das quadras mais populosas do DF. Nelson e Gustavo eram velhos conhecidos do Ministério da Educação. Gervásio nunca tinha visto Nelson nem Gustavo, mesmo morando há 40 anos no lugar. Primeiro, o encontro se deu na casa de Gervásio.

Gustavo se gaba de ter sido um dos fundadores da Aruc, assim que chegou a Brasília. E assume seu amor pela Portela. Gervásio mostra seus dotes. Toca forró numa velha sanfona. Benita entrega: “Vixe, todo dia, ele toca um pouquinho. Parece sumir daqui”. Ao ouvi-lo, o carioca Gustavo, homem de sorriso farto, pede: “Risca um negocinho nessa sanfona, aí, menino...” O tocador de 99 anos embala um xote.

Gervásio, o mais emotivo dos três, chora. Sua Benita pergunta o motivo: “Você tá com saudade de quê ou de quem? Ele enxuga as lágrimas e responde, baixinho: “Do tempo de molecote, da vida na roça. Meu pai era lavrador...” Gustavo admite que sente saudades da irmãs que já morreram, do Rio e da praia.

Depois da prosa gostosa na casa de Gervásio, ele e Gustavo partiram para o bloco de Nelson. Na casa do botafoguense, os três se reuniram pela primeira vez. O miudinho Gervásio, a princípio mais caladinho, brinca: “Vai ser o encontro de três jovens”. A conversa flui como se eles fossem íntimos. Lembranças e emoção de um tempo que só eles viveram.

Insisto em saber como se faz para viver tanto. Gervásio entrega a longevidade a Deus: “Tá na vontade Dele”. Gustavo nem procura explicar muito: “Eu quero é viver mais e mais. O resto a gente vai driblando”. Nelson, o mais velho e mais irreverente dos três, sapeca, sem lero-lero: “É não levar a vida a sério demais. Ela sempre passa. Ela vai passando e a gente vai vivendo. Não tem mistério”. E conta uma tragédia para explicar o sentido que a vida tem pra ele: “Meu filho mais velho tinha 70 anos. Um dia, há quatro anos, veio pro meu aniversário aqui em casa. Estava bem. Quando foi embora, caiu na porta, quase nos meus braços. Morreu de enfarte. A vida é que leva a gente...”

Para comemorar os 100 anos do homem que fez da sua vida um prêmio, no próximo dia 17, numa casa de festas no Park Way, seus filhos lhe farão uma feijoada. Chamarão os netos e bisnetos e os amigos mais próximos. “Se eu bebo? Só não tomo veneno. O resto tá bom”, ele brinca, às gargalhadas.

Passava das 15h quando a prosa animada terminou. Os três homens com alma de menino se abraçaram e prometeram se encontrar com mais frequência. Fizeram planos de novas conversas. “Puxa vida, somos vizinhos, apareçam mais”, pediu um jovial Nelson a Gustavo e Gervásio. Os dois convidados disseram que sim. Na 416 Sul, a vida foi, de vez, desmitificada. E sabe qual a essência de tudo? É simplesinha. De fato. Não há mistério. Basta nunca esquecer o conselho do centenário Nelson, o sábio: “A vida sempre passa. Não leve ela muito a sério”. Certíssimo.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade