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Correio Braziliense ESPETÁCULO DA VIDA

O encantador de pássaros

Arquiteto capta pelas lentes de sua máquina digital o espetáculo da vida no Parque Olhos d'Água, na Asa Norte. Ele já catalogou 43 espécies de aves e seu trabalho virou uma exposição


postado em 11/10/2009 07:15 / atualizado em 12/10/2009 01:50

Com uma frágil escada de metal na mão, máquina fotográfica pendurada no pescoço e paciência de monge, ele tatua poesia nos retratos que tira. Como diriam os índios, em relação à fotografia, ele “rouba” a alma do que fotografa. É mais que um clique. Muito mais que um disparo. É o registro da vida. Durante um mês, todos os dias, fez a mesma coisa. Incansavelmente, caminhava por aquele lugar como se vai atrás de um tesouro perdido. Achou-os. E, depois de encontrá-los, está em estado de graça. Extasiou-se com o que descobriu. Encheu-se de bem-querer e acreditou ainda mais que a vida é dom. Tancredo Maia Filho é um homem incomum. Aos 62 anos, casado, três filhos, três netos, depois de aposentado, buscou um novo sentido aos seus dias. E, por acaso, fez do novo ofício a razão de tanto encantamento. Um dia, ele catava folhas secas para modelos de suas xilografias, no Parque Olhos d’ Água, na 413/414 Norte. Sem pressa, andava pelo local, observando a natureza que se mostrava exuberante. De repente, deparou-se com um ninho de beija-flor numa árvore. Cuidando dele como o ourives lapida sua joia, estava ela, a dona da casa, sua excelência mãe passarinho. Tancredo não acreditou na sutileza e no encantamento da cena. No dia seguinte, voltou ao mesmo lugar, todo equipado — máquina fotográfica e escada. Nunca mais parou de descobrir ninhos e pássaros, dos mais diferentes tipos. Em um mês, catalogou 47 espécies e 13 casinhas. Dos ovos ali depositados explodem vida. As cenas captadas pelas suas lentes são absolutamente cinematográficas. De tão belas, viraram exposição, inaugurada no dia do aniversário do 16º ano do parque, em 17 de setembro. Ficará até dezembro. Mas quem é Tancredo? Por que o interesse dele em passar dias e dias assistindo a ninhos se formando, ovos se rompendo, passarinhos saindo dali e lutando pela vida? Mamães e papais voando para alimentá-los ? O que leva alguém a transformar paciência — e cansaço pelas horas de espera em captar cada cena — em sentido para um novo começo? Tancredo responde: “É como voltar à infância, às margens do rio Juruá, lá no Acre”. Longe dos confins da Amazônia, o homem de 62 anos admite, comovido: “Ver um ovo ser chocado e assistir ao nascimento me leva às lágrimas”.
Arquiteto formado pela Universidade de Brasília, aposentado há um ano, Tancredo nasceu em Rio Branco. Criou-se numa cidade chamada Cruzeiro do Sul. Lá, o rio Juruá se mostrava majestoso. Viveu ali dos 3 aos 10 anos. E ali aprendeu que a natureza é mágica, sábia e incrivelmente transformadora. Modifica até vidas. Empapuça olhos. Aos 16 anos, em 1963, desembarcou em Brasília. A terra de JK ainda era sonho e clarão. Aqui, na casa de um tio, o menino que corria de calção pelo rio acreditou que podia ir mais além. Terminou o científico, no Colégio Elefante Branco. Prestou vestibular para arquitetura. Queria construir casas, embelezar cidades, ajudar a erguer monumentos. Ainda na faculdade, tomou gosto pela fotografia. Mas era apenas uma disciplina. Nada que pensasse em levar adiante. Reinvenção da vida O tempo passou. O menino do Acre se formou, em 1971. Voltou para a terra natal. Abriu escritório de arquitetura. Trabalhou na área, como sempre quis. Em 1978, retornou ao lugar que o acolheu na adolescência. Foi para o Ministério da Educação. “Fiquei na área de construção de câmpus universitários inaugurados em várias partes do país.” Em 1992, mudou de área. Foi para o setor de estatística. Virou gestor de educação e se torna diretor do Provão. Um ano antes de aposentar, em 2008, retornou à arquitetura. Virou o menino Tancredo, que sonhava em desenhar palácios. Aos 62 anos, aposentou-se. Mudou-se da 305 Sul. Há quatro meses mora na 215 Norte, ao lado do Parque Olhos d’ Água. E, desde então, para não ficar deprimido ou fazer palavras cruzadas — palavras dele —, decidiu que inventaria uma nova vida. “Fiz aula de canto, oficina de xilografia e escrevo contos. Tô acabando um livro para os meus três netos — Samuel, Tomás e Letícia. Vai se chamar A janela do vovô. É tudo que fotografei da minha janela, como vi a vida passar diante dela”, ele explica, com cara de avô embasbacado com neto. Numa dessas atividades de xilografia, o homem aposentado precisava encontrar folhas secas para terminar um trabalho. Correu para o parque. Encontrou mais do que imaginava. Viu um monte de vida e canto por todos os lados. Viu a majestosa beija-flor vigiando o seu ninho, esperando que o ovo arrebentasse para que ela pudesse alimentar a cria. Aquela cena o paralisou e lhe marejou os olhos. Daquele 16 de agosto pra cá, Tancredo nunca mais deixou de ir um só dia para o mesmo lugar.
Reencontrou-se com o menino de calça curta lá dos confins do Acre. Virou estudioso do assunto. Comprou livros. Fez pesquisas na internet. Tornou-se autodidata. Nos passeios diários, descobriu aves raras. Fotografou-as uma a uma. Gravou seu canto. Deixou-se ser seduzido. E apaixonou-se pela perfeição como elas tecem seus ninhos para que ali brote. m vidas. O arquiteto do traço reto e do cálculo preciso descobriu que a natureza é mais perfeita do que a exatidão dos projetos que comandou na vida. Com teia de aranha, musgos e gravetos, cada espécie constrói sua “casinha” da melhor forma possível. Viram palacetes. Os desenhos são os mais variados. Boquiaberto, o homem que ergueu obras de concreto rendeu-se: “As aves ensinam a nós, humanos, como fazer uma boa arquitetura, com conforto, segurança e beleza”. Emoção Manhã de quarta-feira. Lá estava Tancredo, com sua escada, a máquina digital e uma vontade de criança, louco para descobrir mais um ninho. O Correio o acompanhou nessa caminhada pelo parque. É como andar com um menino levado. Ele se empolga a cada aparição de uma ave. Diz: “Esta aí é um quero-quero. Olha ali um beija-flor”. E nos leva aos ninhos que descobriu: “Esse aqui é de um joão-de-barro; aquele, de um sabiá-barranco. Esse é de um peitica-de-chapéu-preto, aquele de um bem-te-vi. Olhem! Olhem! Esse é de um corruíra. Também é chamado de garrincha”.
No mesmo dia, ele descobriu o 13º ninho, ao lado do córrego. Estava pendurado no galho de uma árvore. Nem se o homem quisesse, conseguiria reproduzir coisa igual. Era de um pitiguari. Os olhos do arquiteto se encheram de lágrimas. E, ao chegar perto, percebeu que os dois ovos haviam acabado de se romper. As aves, enfim, nasceram. Ainda estavam assustadas com o mundo. A mãe? Tinha saído em busca de comida. Tancredo subiu na velha escada, num terreno em declive.
Olhou-os. As pernas bambearam. E disparou sua digital. Parecia ter descoberto o maior tesouro do mundo. Segurou o choro. Exausto, encerrou a caçada pela vida naquela manhã. E voltou para casa. O administrador de Olhos d Água, Ezequias Vasconcelos, 56, diz, agradecido: “Ele fez um inventário sobre os pássaros do parque”. E avalia: “Deixará um legado para toda a comunidade de Brasília”. No texto que apresenta a exposição, a curadora Madalena Rodrigues escreveu: “O Tancredo arquiteto e fotógrafo, em seus contentes 62 anos, vê-se novamente menino, como nos tempos de catar penas e ovinhos, nos barrancos do Juruá, no extremo Acre...”. Diante do texto, pergunto, no fim da entrevista, como se define. Ele me responde, olhando para as árvores, atrás de mais um ninho: “Um arquiteto por formação, às vezes fotógrafo, sempre observador da natureza”. Podia dizer mais: agora encanta pássaros. Hoje, assim que o parque abrir seus portões, o menino de Cruzeiro do Sul estará lá, novamente, no mesmo lugar de 21,5 hectares, atrás de mais uma ave, nova construção, uma vida que irá se romper, para depois voar e seguir seu rumo. Como é o fluxo natural de vidas — humanas ou não. “Eu converso com eles baixinho, digo que não vou lhes fazer mal, que não tocarei nos ovos. Eles parecem entender ...”
Longe de repórteres, ao se deparar com mais um espetáculo da natureza, certamente chorará, como chorou copiosamente em setembro. Ele viu o nascimento do primeiro beija-flor, o mesmo que acompanhou desde a construção do aconchego. “Havia minutos ele tinha nascido. Tava transparente, molhado, indefeso”, lembra. Tempos depois, alimentado pela cuidadosa mãe, o bichinho empinou-se e bateu asas. Quis ser livre, como livre deve ser. Hoje, o menino que se banhava no rio Juruá não sonha mais em projetar nenhuma obra fantástica. Deseja apenas ver ninhos serem feitos com gravetos e teias de aranhas, para que a vida possa arrebentar lá de dentro. Talvez tenha descoberto o verdadeiro sentido de sua existência.

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