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Correio Braziliense TRABALHO

O difícil primeiro emprego

Na última década, o desemprego caiu 48% no DF. O dado exclui os inexperientes, que ainda enfrentam a resistência dos empregadores. Eles engrossam a taxa de desocupação, hoje, em 15,3%


postado em 12/11/2009 08:29 / atualizado em 12/11/2009 08:44

A redução do desemprego verificada durante esta década no Distrito Federal foi excludente: deixou de fora os brasilienses que não têm experiência anterior de trabalho. O desemprego registrado em setembro deste ano é o menor dos últimos 15 anos (veja quadro), mas a situação só está melhorando entre os trabalhadores que têm registro em carteira de trabalho. Os novatos continuam enfrentando os mesmos problemas do início da década. A taxa de desemprego deles permaneceu inalterada entre 2000 e 2009, enquanto que a dos brasilienses com registro em carteira teve uma redução de 48%. Apesar de facilitar o ingresso no mercado de trabalho, a experiência anterior não garante um salário elevado nem um tempo maior de permanência no posto. A saída para quem procura o primeiro emprego é se qualificar, recomendam especialistas.

A taxa de desocupação total —15,3% da População Economicamente Ativa (PEA) em setembro deste ano —, representa a soma dos profissionais que já trabalharam anteriormente e os que não têm experiência no mercado de trabalho, que são em menor quantidade, por isso contribuem com um percentual inferior. Os números mostram que os inexperientes contribuem com os mesmos 3,7% da taxa de 2000, ou seja, permanece inalterada a quantidade de trabalhadores que enfrenta dificuldade de encontrar um posto de trabalho. Na contramão, os que têm experiência estão conseguindo se sair melhor no mercado de trabalho brasiliense. O desemprego entre eles diminuiu ao longo dos anos, passou de 17,2%, em 2000, para 11,6% da PEA este ano. “Este é um problema clássico. Os empregadores querem experiência, mas as pessoas precisam ter um primeiro emprego para ter experiência. Os programas do governo ajudam, mas não solucionam”, afirma o economista Júlio Miragaya, especialista em mercado de trabalho.

Os números foram apurados pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED)(1), realizada mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Um outro estudo do Dieese mostra que, apesar da exigência dos empregadores, ter experiência anterior não garante um salário elevado e muito menos uma permanência maior no posto. A pesquisa Estratégias de Procura do Traba-lho, Uso do Seguro-Desemprego e Qualificação Profissional no Distrito Federal mostra que quando o pré-requisito para a contratação é a experiência profissional, o brasiliense fica em torno de 48 meses no posto de trabalho e recebe, em média, R$ 1.420. O salário e o tempo de permanência aumentam quando as exigências são a escolaridade ou o fato de terem cursos e conhecimentos em determinadas áreas. “Como temos grande oferta de mão de obra que atendem a esse pré-requisito da experiência, isso se torna apenas uma exigência a mais, não garantindo um aumento na remuneração”, afirma o economista do Dieese, Tiago Oliveira.

O cenário torna difícil a busca de quem está procurando o primeiro emprego, como a moradora da Vila Planalto Poliana Cabral, 19 anos. Há três meses, a estudante do segundo ano do ensino médio procura uma vaga. Será seu primeiro emprego. Poliana quer trabalhar para conseguir pagar sozinha suas contas e não precisar mais da ajuda dos pais, que moram em Tocantins. Mas está difícil. Na duas entrevistas que participou até o momento, os empregadores lhe pediram experiência anterior. Poliana acabou perdendo a vaga para alguém que tinha registro em carteira de trabalho. A sua continua em branco. “Dizem que eu tenho cursos bons. Mas isso não basta. Preciso ter experiência. Assim fica difícil, para ter experiência, preciso que alguém me contrate”, reclama. Poliana tem cursos de informática e de secretariado no currículo.

Mais qualificado


O levantamento do Dieese mostra que o brasiliense é o profissional mais qualificado do país. Assim como Poliana, 36,8% dos trabalhadores fizeram algum tipo de curso ou de treinamento nos últimos três anos. A qualificação é uma boa estratégia para driblar a falta de experiência, recomenda a especialista em recursos humanos Marillac de Castro. “Os jovens devem procurar participar de programas de trainne e de estágio ou trabalhar como jovem aprendiz, é uma boa forma de entrar no mercado de trabalho. E, além de se qualificar, devem deixar de lado a imaturidade, se comunicarem melhor. As empresas querem gente mais focada, que dê resposta rápida”, orienta.

O problema está no enorme desemprego que atinge o DF, avalia o economista Adolfo Fachsida, da Universidade Católica de Brasília (UCB). “Seria ruim se o empregador não exigisse experiência porque assim só os jovens teriam chances. O ideal seria que tivessem oportunidades para todos, tem que gerar emprego. A taxa do DF é muito elevada.”


1 - Análise do mercado

A Pesquisa de Emprego e Desemprego do Distrito Federal é feita mensalmente em domicílios do Distrito Federal e de mais cinco regiões metropolitanas do país. No DF, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) visita 2,9 mil residências por mês. São coletadas informações de todos os moradores com 10 anos ou mais de idade.

Poliana Cabral não consegue uma oportunidade diante da exigência de experiência anterior(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)
Poliana Cabral não consegue uma oportunidade diante da exigência de experiência anterior (foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)

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