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Correio Braziliense

Mercado se volta para consumidores da terceira idade


postado em 15/11/2009 10:14 / atualizado em 15/11/2009 10:17

Com tempo, dinheiro e experiência, muitos dos que chegam aos 60 anos em Brasília passam a fazer parte de um potencial grupo consumidor. Em todo o Distrito Federal, são 198 mil pessoas nessa faixa etária, sendo que 60% delas estão na condição de chefe de família, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) divulgada em setembro último. Ainda que tardiamente, o mercado despertou para esse público que demanda serviços e produtos diferenciados. Aos poucos, os mais velhos da cidade detentora da maior renda per capita do país deixam de fazer número em um segmento marginalizado para se tornar público-alvo ideal.

Maior expectativa de vida — hoje de 72 anos, no Brasil — e o aumento da renda da chamada terceira idade fizeram nascer o conceito de “mercado maduro”. Para o administrador e professor universitário Marcos Morita, não dá mais para abrir mão desse grupo. Os idosos são menos inadimplentes, voltam a usar o produto ou serviço quando ficam satisfeitos e têm uma poderosa rede de contatos.

Em Brasília, o cenário é ainda mais favorável porque conta com um grande número de servidores públicos aposentados. “Se eu fosse abrir um negócio para a terceira idade, abriria na capital federal”, comenta Morita, executivo em São Paulo.

As previsões apontam que, em 2020, o número de pessoas com mais de 60 anos dobre no país. A expectativa da indústria, do comércio e dos prestadores de serviço é que, até lá, esse grupo se transforme no mais importante nicho de consumidores. Brasília, por suas peculiaridades, tem tudo para virar a terra dos baby boomers brasileiros. O mercado se movimenta nesse sentido. Agências de viagem oferecem pacotes turísticos e cruzeiros em baixa temporada para idosos, faculdades abrem turmas específicas para esse grupo e farmácias criam cartões de desconto para os clientes de idade mais avançada.

Estar atento ao potencial dos consumidores mais velhos pode significar bons lucros. O personal trainer Denis de Oliveira, 31 anos, percebeu isso e decidiu investir na terceira idade. Mas, deixa claro, optou por esse caminho não só pelo retorno financeiro. “Essas pessoas são mais dispostas e dedicadas à atividade física. Trabalhar com gente assim dá muito mais disposição”, diz ele, que duas vezes por semana vai a casa de dona Joana de Lurdes Torres, 85 anos. Durante 30 minutos, caminha ao lado dela e a ajuda a erguer os pesos. “Se a gente fica quieta dentro de casa o tempo todo, começa a sentir dor aqui, dor ali…”, comenta a aluna aplicada.

O público acima de 60 anos é o mais fiel nas academias de Brasília e não costuma trancar a matrícula com tanta frequência quanto os mais jovens. “Eles entenderam que a atividade física é o que vai garantir a qualidade de vida”, analisa o personal trainer. Segundo ele, a procura por um instrutor particular nessa faixa etária é cada vez maior. O preço de uma hora de aula varia de

R$ 50 a R$ 100 no mercado da capital. “O adolescente geralmente tem preguiça de se exercitar. O pessoal da terceira idade não. Eles possuem certas limitações, mas têm 10 vezes mais ânimo”, compara Oliveira.

Saúde, bem-estar e autoestima compõem uma receita de vida que pode custar caro. E os idosos mostram disposição para gastar.

Depois que os filhos casam e saem de casa, essa turma tende a olhar mais para si. Geralmente, eles passam a investir em produtos e serviços que antes não eram prioridade. Mais ainda: encaram os gastos como um investimento que trará resultados importantes para essa fase da vida. Para ter de volta um sorriso com a aparência mais jovial, por exemplo, alguns chegam a desembolsar até R$ 40 mil em cirurgias, valor mais alto que um carro popular 0km.

O dentista Eduardo Nascimento especializou-se no atendimento a idosos depois que notou o potencial desse nicho de mercado. O consultório dele tem acesso facilitado para cadeirantes, o que deveria ser regra. As secretárias foram treinadas para lidar com o público mais velho. “Estamos atendendo pacientes que correram a vida inteira e agora estão em outro ritmo. Temos de nos adaptar a eles”, diz o especialista em implantodontia, que destaca ainda a dedicação dos idosos ao tratamento e a propaganda eficaz que eles fazem dos resultados. “Toda semana atendo um amigo de paciente”, conta.

A divulgação boca a boca ajudou também a consolidar a turma para a terceira idade do curso de informática básica oferecido pela Universidade de Brasília (UnB). Cerca de 150 pessoas são formadas por ano. A procura é cada vez maior. “Eles querem saber mexer na internet, acessar blogs, falar com os netos no exterior pela webcam”, enumera o coordenador do curso, Nilton Almeida. “Por ser um centro ligado à universidade, queremos contribuir para a inclusão digital mais que lucrar. Mas se alguém no mercado entrar nesse ramo, com certeza não vai faltar demanda. Só que é preciso ter uma didática própria”, pondera.

Alta renda

É o nome que se dá à geração norte-americana nascida após a 2° Guerra Mundial, entre 1946 e 1964. O grupo inclui cerca de 74 milhões de pessoas, cuja renda anual chega a US$ 157 mil (cerca de R$ 270 mil). Nos Estados Unidos, eles respondem por 48% das compras de carros de luxo e ocupam 70% das vagas em cruzeiros.

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