Cidades

O exemplo de Saulo

Aos 80 anos, ele descobriu que a vida só tem sentido se estiver acompanhada de um sincero e constante desprendimento. O exercício do voluntariado é o que o mantém com espírito mais jovial que o de gente que não chegou ainda à metade de sua idade

postado em 24/11/2009 07:05 / atualizado em 19/10/2020 14:50

Belo Horizonte, carnaval de 1949, como Corcunda de Notre Dame e entre os pais, o médico João e a jornalista Miêtta    Arquivo pessoal
A entrevista aconteceria às 14h30. Mas, ao telefone, uma voz com sotaque mineiro brada ao fundo: ;Não, diz pra ele vir depois da minha novela, por favor;. A dona da casa manda. Remarcamos para as 16h. E é ali, naquele apartamento simples da 109 Sul, de móveis igualmente simples e antigos (o piso de taco é original e nunca foi feita qualquer reforma no imóvel), que mora uma gente muito simples, de hábitos comuns, mas de uma trajetória de vida incomum. Há 57 anos, o dono daquela casa se dedica aos trabalhos voluntários. É incansável. Em todos os movimentos sociais, em defesa da vida, da paz e da segurança, lá está ele.

Com Amélia Júlia: companheirismo firmado em 1975, para toda a vidaO nome dele? Saulo Santiago Manso Pereira. A idade desse homem com disposição juvenil? Oitenta anos. Aos 50, ele aprendeu a dirigir. Aos 60, descobriu que era um menino. Aos 70, ratificou o que sempre soube: a vida só teria sentido se continuasse com sua luta em defesa das causas sociais, do bem comum, da promoção da paz. Agora, aos 80, ;com corpinho de 75; e cabelos que ele nem pinta, pois mantêm a cor natural até hoje, ninguém o detém.

Pois bem, até hoje, todos os dias, ele acorda com vontade de transformar o mundo. E peleja para que sua luta não seja em vão. Mas a história desse homem tem um começo bom. Filho de um médico ; João Manso ; e de uma mulher revolucionária para a época ; Miêtta Santiago, que foi advogada, jornalista, poeta, escritora e militante na luta pela emancipação da mulher brasileira ;, Saulo teve em casa as primeiras lições que norteariam sua vida.

Ele nasceu em Orlândia, interior de São Paulo, em 1929. Aos três anos, a família mudou-se para Belo Horizonte. Aos 10, mais uma mudança. O pai e a mãe resolveram morar no Rio de Janeiro. E foi na então capital do país que o menino começaria sua vida acadêmica. Estudou na Faculdade Nacional de Direito (Universidade do Brasil). Saiu dali advogado. Não contente, também se graduou em administração na Fundação Getulio Vargas. E logo começou a trabalhar. Foi nomeado na Companhia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda. Logo em seguida, requisitaram-no para o Ministério da Indústria e Comércio.

Paralelamente à sua atividade profissional, começava a fazer pequenos trabalhos sociais. Tornou-se voluntário num grupo de alcoolismo e usuários de drogas. Ele sabia o que o álcool pode fazer na vida de um ser humano. Saulo começou a beber ainda muito moço. Na juventude, o que era diversão passou a ser vício. E o vício quase o fez perder o foco da própria vida. Resolveu que pararia. Iniciou-se uma longa batalha. E conseguiu. ;Faz 47 anos que não coloco uma dose de álcool na minha boca;, ele diz, com alegria incontida. Mas todo dia é um recomeço. Ele sabe disso.

No Rio de Janeiro, Saulo casou-se pela primeira vez. A união durou apenas oito anos. Estéril, não podia ter filhos. A mulher um dia partiu, não quis mais viver com ele. Saulo sofreu horrores. Chorou horrores. Pediu para voltar. Ela não quis. Venceu o primeiro golpe sem um gole de álcool na boca. Sentiu-se forte. E descobriu que estava pronto para seguir sua vida.

À primeira vista
Em 1969, ainda morando no Rio de Janeiro, Saulo veio a Brasília com a mãe, a revolucionária Miêtta. Era apenas um passeio. Ele queria mostrar-lhe a capital que contava apenas 9 anos. ;Me encantei de cara com a cidade. Sabia que moraria aqui.; O menino nascido em São Paulo, com passagem por Minas Gerais e carioca de coração, sabia que aquele passeio iria mudar sua vida.

Em 1975, com 12 dias de casado com a segunda mulher, Amélia Júlia de Moraes Pinto, hoje com 70 anos, Saulo mudou-se para Brasília. Veio transferido pelo Conselho Nacional de Siderurgia, órgão ligado ao Ministério da Indústria e do Comércio. Amélia Júlia era mãe solteira de uma linda menina. Saulo, que não podia ser pai biologicamente, assumiu a pequena Alice (hoje com 41 anos) como se filha fosse. ;Hoje, tenho uma netinha de 9 anos, a Júlia, que é minha paixão;, derrete-se o avô coruja.

Aqui, Saulo foi para o apartamento onde vive até hoje, na 109 Sul. E deu vazão aos seus trabalhos sociais como nunca. Engajou-se no Grupo Desafio Jovem de Brasília. Virou prefeito da quadra por vários anos. Lutou incansavelmente em defesa do Movimento da Paz Desarma Brasil, tornou-se presidente do Conselho Comunitário de Segurança. ;Estou no quarto mandato;, orgulha-se, com ares de menino grande. Parou aí? Nunquinha. Ele ainda arruma tempo para fazer parte do Instituto Histórico e Geográfico do DF e ser um dos membros do Conselho de Preservação de Brasília, lutando pela manutenção do status de patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. ;Apesar de amar o Rio de Janeiro, meu lugar hoje é Brasília. Aqui, vivi a experiência transcendental de crescer com uma nova cidade.;

Onde tem uma campanha comunitária, uma luta em defesa dos direitos sociais, uma obra, uma reivindicação, lá está ele. É o primeiro que chega. É um dos que mais se envolvem. Vive aquilo como se aquilo fosse sua grande obra. Saulo está sempre redescobrindo alguma coisa. ;A vida é uma passagem. Nesses trabalhos a gente recebe mais do que dá. Mas é preciso ter vontade verdadeira. Quem não tem enjoa, não faz, não chega ao fim;, diz. Comovido, cita a poeta e feminista chilena Gabriela Mistral, uma de suas escritoras preferidas: ;Ela diz que aquele que não nasce para servir não serve para viver;.

Vidinha simples
Há 40 anos, Saulo e a mineira Amélia Júlia se conheceram, no Rio de Janeiro. Em 1975, recém-casados, mudaram-se para Brasília. Era o começo de uma vida completamente diferente. Ela, que era cabeleireira, tornou-se poeta de improviso. É fazedora de poesia. Encanta o marido com versos singelos. Quando fala dele, é só emoção: ;Ele é de um caráter a toda prova. Não conheço outro como ele. Nem meu pai, homem correto, que era funcionário da prefeitura, foi como o Saulo;. Depois, emociona-se mais uma vez: ;Ele criou minha filha, deu um nome a ela. Registrou como se fosse de sangue...;

E, com bom humor, refeita da emoção, a mulher mineira de Pedra Azul define o companheiro: ;Ele tem a vontade de trabalhar do paulista (o estado onde nasceu), a simpatia do carioca (terra em que morou a maior parte de sua vida) e a pão-durice do mineiro (onde viveu a infância);. Saulo ouve. Apenas ri, como se concordasse com a mulher que o conhece tão intimamente. Há muito para fazer ainda. Há muito para produzir.

Naquela tarde da entrevista marcada ;depois da minha novela;, um aposentado morreu ao sair de uma agência bancária na Asa Norte. Repórteres de televisão correram à 109 Sul. Queriam ouvir a opinião do presidente do Conselho de Segurança Comunitária de Brasília. Ele sempre é requisitado. E isso lhe faz um tanto de bem que só ele é capaz de imaginar. Mantém o homem octogenário ligado aos acontecimentos. ;A mente de um homem de 80 anos não deve parar de adquirir conhecimento;, ensina.

Na sala do apartamento modestíssimo (Saulo é aposentado e vive com menos de R$ 6 mil por mês, depois de 47 anos de serviço público), ele mostra fotos do passado. Embarca numa viagem que só ele viveu. Cheiros que só ele sentiu. Lá está toda a sua história. O que foi e o que, dali, viria a ser. Saulo revê a mãe, a poeta e revolucionária Miêtta, o pai, João Manso, médico, o único irmão mais novo, que mora no Rio de Janeiro. Amigos de infância, parentes. Carnavais em Belo Horizonte. Aquelas fotos em preto e branco recontam sua trajetória. E podem explicar o seu presente.

Pergunto o que ele ainda quer fazer. Com a voz pausada, jeito sábio, ele responde: ;Trabalhar e continuar fazendo minhas atividades. A vida é uma missão. Cada um de nós tem a sua. A minha foi voluntariar. Só assim achei sentido para viver;. O homem que fez da sua vida uma doação pede a Deus: ;Queria terminar meus dias sem dar trabalho a ninguém;.

E constata, do alto de sua experiência: ;No fim da vida, restam três coisas: Deus, a família e poucos amigos;. Amélia Júlia ouve. Dez anos mais moça, segura a mão do homem que a fez virar fazedora de versos. Um passeio de mãos dadas pela quadra celebra a união. Celebra a vida de Saulo. Uma vida inteirinha tentando dizer que é possível se doar, fazer, conquistar... Sem nada em troca. A não ser a felicidade de fazê-lo. Incansavelmente fazê-lo.


Aos 80 anos, ele descobriu que a vida só tem sentido se estiver acompanhada de um sincero e constante desprendimento. O exercício do voluntariado é o que o mantém com espírito mais jovial que o de gente que não chegou ainda à metade de sua idade

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