Jornal Correio Braziliense

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Conheça Maria da Glória, a telefonista da construção de Brasília

Antes disso, brincou de carrinho de mão, dançou nos bailes de Brasília e cantou o Peixe Vivo no dia da inauguração

Quando a pequena Maria da Glória pisou pela primeira vez no chão do cerrado, o sapato mergulhou na terra vermelha, a poeira subiu e a menina teve vontade de sumir. Ela vinha de uma cidade pequena, Araxá (MG), mas urbanizada. O sopro de pó que envolveu a mineirinha no Planalto Central parecia desorganizar sua vida até então serena e vagarosa, mas a sensação de desacerto duraria pouco. Os pés da garota foram engolidos pela poeira, a pele quebrou-se feito terra seca do agreste e a menina de pele branca tingida de terra vermelha ganhou o apelido de Tijolinho, dado por um comensal do restaurante. Tijolinho e os quatro irmãos fizeram da Cidade Livre o seu parque de diversões. Brincavam com um instrumento de trabalho muito comum no canteiro de obras de Brasília, os carrinhos de mão da construção civil. "Eu botava meus irmãos dentro dele e saía." Mas usavam botinas, o tempo todo por conta do perigo constante dos pregos por todos os cantos. Daqueles primeiros anos de Cidade Livre, Maria da Glória Chagas dos Santos, 63 anos, guarda uma imagem que até hoje aquece suas recordações de menina. O pai, Clodoveu Ferreira Chagas, havia chegado um ano antes para abrir um restaurante, o Paranoá, destinado a atender funcionários graduados da Companha Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Trouxera com ele uma equipe de garçons, cozinheiros e ajudantes. Todas as noites, depois que o restaurante fechava, a família e os empregados reuniam-se para o jantar. O cozinheiro preparava um bife a cavalo, servia um vinho, punha-se um disco na vitrola (quase sempre Trio Iraquitan) e o pai e a mãe de Tijolinho dançavam sobre o piso de madeira de uma cidade prestes a nascer. "Eu olhava aquilo e achava maravilhoso." Para a pequena Maria da Glória, Brasília era uma sucessão de espantos. Todas as vezes em que o pai ia buscar lenha para o fogão industrial do restaurante, levava os filhos e no caminho ia apresentando a eles o projeto de nova capital do Brasil. Clodoveu parava o caminhão nas proximidades de onde hoje é o Setor Policial Sul. De lá, ele mostrava aos filhos o risco de terra que partia dali - era a W3 Sul. "Eu tentava entender aquilo, mas não tinha a menor noção do que era W3. Depois, ele mostrava o Eixão e dizia que ele iria cruzar o norte e o sul da cidade e que ela tinha a forma de um avião." Enquanto a cidade surgia, Tijolinho se transformava em adolescente. Maria da Glória estudava no Ginásio Brasília, no Núcleo Bandeirante, quando leu um anúncio de emprego pregado na parede da escola, era a Novacap procurando telefonistas. Tinha apenas 13 anos, mas acreditou que poderia conquistar o emprego. "Sempre fui muito madura. Brinquei, fiz tudo o que tinha direito quando criança, mas tinha vontade de vencer na vida." Chegou em casa e contou ao pai e à mãe que queria se candidatar à vaga. "Minha filha, você é muito nova. Espera pelo menos você completar 15 anos", ponderou o pai. Entrou por um ouvido, saiu pelo outro. Maria da Glória se inscreveu ao emprego, fez a prova - questões elementares de matemática e uma carta pedindo emprego -, mas teve a esperteza de omitir a idade. "Deixei também outro item sem preencher, pra parecer que havia sido esquecimento." Glória foi aprovada no teste e chamada para contratação. Ao vê-la, o contratante se espantou: %u201CMenina, quantos anos você tem?". Ela respondeu: "Tenho 13, mas já vou fazer 14". O homem explicou que não poderia dar emprego a menor de 18 anos, ao que Glória contra-argumentou: "Pode sim. Eu sei fazer as coisas e o que eu não souber, vou aprender. O senhor me paga a metade". O empregador conhecia o pai de Maria da Glória %u2014 era cliente do restaurante %u2014 e decidiu procurá-lo: "Clodoveu, como é que eu faço? Sua filha passou nos testes, mas não tem idade para trabalhar". Ao que ouviu: "Ela é muito responsável. Ajuda a mãe dela em casa. Deixe". A hoje delegada da Polícia Federal aposentada havia conseguido seu primeiro emprego, numa época em que as mulheres ainda começavam a lutar pelo direito de participar do mercado de trabalho. Sua função era receber e anotar memorandos das empreeiteiras e encaminhá-los à estação de rádio que transmitia as mensagens para o destinatário. Pouco tempo depois, a telefonista mais jovem da Novacap começava a namorar um dos radiotelegrafistas, Adilson Flores dos Santos, com quem se casaria três anos mais tarde. Antes, porém, Maria da Glória viveu a plenitude da adolescência numa cidade recém-inaugurada. "Minha juventude aqui foi uma beleza. Eu trabalhava e estudava. Saía da escola e ia direto para a Novacap". Aos domingos, o casal de namorados frequentava um clube no então acampamento da Metropolitana. A mãe costurava lindos vestidos para a ex-Tijolinho com tecidos de primeira qualidade trazidos pelos mascates, em geral sírios e libaneses com suas malas carregadas de cortes de seda, colchas e toalhas de mesa bordadas. "Eles passavam na casa das pessoas, deixavam cortes para o freguês escolher. Se ele quisesse, bem, se não quisesse, podia devolver. Era uma confiança que hoje não existe mais." Muito mudou em Brasília e na vida de Maria da Glória desde então. Fez curso de direito, foi uma das três mulheres aprovadas no concurso para delegado da PF em 1979 (ao lado de 47 homens), tem três filhos (Mônica, Alberto e Débora), três netos (Jéssica, Maria Eduarda e Mallu) e mora no Lago Norte, numa casa simpática, que mantém a fachada de linhas modernas dos primeiros tempos de Brasília. %u201CParece que vivo numa cidade pequena. Os vizinhos todos se conhecem, vigiamos a casa uns dos outros, fazemos festas%u201D. Maria da Glória continua um pouco Tijolinho, vive numa Brasília dos tempos inaugurais. Em 21 de abril de 1960, participou do coral da escola e cantou Peixe Vivo repetidas vezes. "Eu estava orgulhosa, no meu uniforme de gala, cantando perto do Congresso Nacional. E aplaudi doutor Juscelino. Toda vez que eu o via, batia palmas. Brasília é uma cidade abençoada."