Publicidade

Correio Braziliense CRACK

Crack chega às áreas rurais

Na esteira do tráfico, são registrados crimes nas zonas agrícolas do DF e Entorno, como constantes assaltos


postado em 17/01/2010 08:00 / atualizado em 17/01/2010 08:10

Parece coisa de cinema. A partir das 19h, o movimento de uma das localidades rurais do Distrito Federal diminui a ponto de lembrar uma cidade-fantasma. Em épocas de recesso escolar, então, quase não se vê gente na rua. O motivo? O medo e a insegurança de viver em uma área rural marcada por tráfico de drogas e assaltos. Por ali, comerciantes nem aguardam a chegada da noite para fechar as portas. Agricultores e fazendeiros seguem o ritmo e colocam correntes e cadeados nas porteiras. Tudo isso a 56km do Plano Piloto, na área do Programa de Assentamento Dirigido do DF (PAD-DF).

A polícia e a população local concordam que a criminalidade aumentou na região desde o avanço do comércio de entorpecentes — principalmente do crack — na capital do país. A situação se repete em pelo menos outras duas regiões administrativas com extensa área rural. Além de São Sebastião, que abriga o PAD-DF, Planaltina e Brazlândia (veja mapa) registram as primeiras apreensões das pedras produzidas a partir da cocaína. Em alguns casos, se o tráfico e o uso ocorrem com mais frequência na zona urbana, a região de produtores funciona como passagem e rota de fuga de traficantes.

Um dos flagrantes registrados no ano passado em Planaltina revelou a importância das localidades mais afastadas dos centros urbanos para os traficantes. Em outubro, investigadores da 16ª Delegacia de Polícia, em Planaltina, surpreenderam um homem com 3,8kg de pasta-base de cocaína no núcleo rural Quebrada dos Guimarães. Serviria como matéria-prima para a produção de crack e merla, segundo a apuração da polícia. “O crack tomou conta. Está em muitas cidades do DF, mas também nas áreas rurais, como aqui em Planaltina”, afirmou o delegado-chefe em exercício da 16ª DP, Wellerson Gontijo.

No fim do ano, a polícia flagrou dois adolescentes consumindo a droga em uma área rural da cidade. Segundo Gontijo, os agentes também combatem o avanço do tráfico na área urbana. “Problema maior fica na região da prostituição. Estamos focados nas prostitutas, que ajudam muito a distribuir a droga, principalmente o crack”, explicou. Vários prostíbulos acabaram fechados nas últimas semanas.

Dificuldades

No PAD-DF, a menos de 20km de São Sebastião, o problema do tráfico e a dificuldade na repressão passam pelo tamanho da área e a localização. Quem mora por ali brinca que está no Triângulo das Bermudas,(2) pois a localidade toca nos limites do DF, de Goiás e de Minas Gerais. Ocorre, assim, fenômeno parecido ao do Entorno, onde a população sofre com o descaso das autoridades goianas.

Entre as consequências da chegada do crack ao PAD-DF estão os constantes assaltos na região. Agricultores, empresários e comerciantes colecionam histórias de violência, intensificadas nos últimos meses. Em dezembro, bandidos invadiram a propriedade de um produtor de frutas e levaram uma bomba d’água avaliada em R$ 4 mil. “Vieram com um veículo grande e equipamento especial. Arrebentaram as trancas da porta de metal e a corrente que segurava o equipamento”, detalhou o produtor, que prefere manter a identidade em sigilo.

A bomba d’água ficava instalada logo na entrada da fazenda. Por conta disso, a vítima terá de gastar mais dinheiro para garantir que o maquinário não seja levado outra vez. Para o produtor rural, os roubos e furtos praticados na região têm relação direta com a droga. “Quem mora ou trabalha por aqui percebe que o crime tem aumentado por causa da droga. Vendem equipamentos caros por R$ 200 e compram entorpecente”, disse.

A insegurança continua nos arredores da propriedade. Pelo menos dois vizinhos têm histórias de prejuízos para contar. Um deles conversou com o Correio, mas também preferiu não se identificar. O último assalto na fazenda dele ocorreu há um ano. Criminosos levaram uma bomba d’água pela quarta vez. “Levei um prejuízo de mais de R$ 30 mil”, contou.

O produtor rural também chegou ao limite da paciência depois que gastou R$ 12,5 mil para comprar o novo maquinário. Além disso, autorizou um funcionário armado a atirar caso desconhecidos invadam a terra outra vez. “Se alguém entrar, vai morrer. Dei ordem para atirar para matar”, afirmou.

1 - Diversidade
O desenvolvimento da área teve início em 1977, quando projeto do GDF e da Fundação Zoobotânica incentivou a chegada de produtores com tradição na atividade agrícola e com qualificação técnica. O PAD-DF abrange uma área de 61 mil hectares, onde há plantio de cereais, hortifrutigranjeiros, bovinocultura e avicultura.

2 - Mistério
O Triângulo das Bermudas é uma área de mais de
1 milhão de quilômetros quadrados, localizada no Oceano Atlântico. Fica entre as ilhas Bermudas, Porto Rico e Fort Lauderdale (Flórida), onde diversos desaparecimentos de aviões, barcos de passeio e navios intrigam o mundo.

Corredor da droga
A população de Brazlândia não tinha notícias de crack até o fim de 2008, quando a polícia flagrou Donizete Soares da Silva, em casa, no Setor Veredas, próximo à área rural. Ele acabou surpreendido por agentes da 18ª DP, em Brazlândia, ao vender uma pedra para um morador da região. O acusado ainda guardava em casa 200g da droga. “Comecei a trabalhar nesta delegacia em 2006 e somente dois anos depois tivemos um caso aqui”, revelou o delegado-adjunto da
18ª DP, Fernando Cocito.

Desde então, o entorpecente se espalhou pelas bocas-de-fumo da cidade, que tem uma das maiores áreas rurais do DF. Levantamento feito pela 18ª DP revela que os entorpecentes chegam pela DF-180, de ligação entre Brazlândia a Ceilândia e que serve como corredor da droga na região. Os traficantes também usam uma pista de terra batida, que corta 7km da área rural de Brazlândia, para escapar dos policiais. Em 2009, 22 acusados foram presos, a maioria por causa do crack.

A Polícia Militar do DF conta com policiamento rural e apoio da Companhia de Polícia Militar Ambiental (CPMA) para rondas nas regiões mais afastadas dos centros urbanos. Segundo o capitão Marcus Antunes, da Comunicação Social da PM, os patrulhamentos ocorrem de acordo com as denúncias da população. Apesar da falta de dados estatísticos, o oficial de imprensa disse que houve apreensões de drogas em Planaltina, São Sebastião e Brazlândia.

 

Veja outras reportagens sobre o assunto publicadas em edições anteriores do Correio:


» O crack é a droga que mais cresce em apreensões pela Polícia Civil do DF




» Produzido de maneira simples, o crack se alastra pelo interior do país




» Sem unidades públicas no Entorno para tratar os viciados em crack, famílias se desesperam

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade