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Correio Braziliense

As incríveis histórias do lavrador que largou a roça para cavar buraco na obra de Brasília


postado em 06/02/2010 08:21 / atualizado em 06/02/2010 08:22

Quando chegou o envelope com o primeiro pagamento na Construtora Rabelo, C$ 5.226, o coração de Clementino Cândido bateu forte como um tambor: “Nunca tinha visto tanto dinheiro, Nossa Senhora!”. O peão sabia que era uma dinheirama, mas quanto? Clementino não sabia contar. Pediu então a um colega que conferisse a quantia recebida. “Ele contando e eu encostado nele com medo de ele pegar meu dinheiro. Se ele tentasse, eu pegava ele até no dente”, conta o candango, com uma gargalhada.

Quem diria que o lavrador, filho de carreiro, que não sabia escrever nem contar, receberia, de uma só vez, muito mais do que havia recebido durante toda a vida? Clementino estava com 27 anos e trabalhava na roça com o pai desde os 6. Depois de conferir que, a cada colheita, a família ficava devendo ao dono da terra, decidiu vender uma plantação, pegou o dinheiro, despediu-se dos pais e do único irmão e partiu com a intenção de procurar emprego no Rio de Janeiro. Parou em Belo Horizonte e ouviu, de um alto-falante vindo de uma Rural Willys, a oferta de trabalho para peão de obra em Brasília.

Muitos envelopes cheios de dinheiro depois, Clementino Cândido é um bravo candango aposentado que de vez em quando acorda de madrugada, olha para o telhado de amianto, as paredes da casa sem pintura e pensa: “Eu já fui gente”. Depois de tirar cascalho do Rio Corumbá, de cavar o chão que sustenta o Palácio da Alvorada, de abrir o Buraco do Tatu, Clementino foi trabalhar no escritório da Rabelo e ao mesmo tempo na casa do dono da construtora, Marco Paulo Rabelo. Conviveu com o “doutor Juscelino”, com empresários, políticos, coronéis e “madames” a quem servia café, para quem lavava as louças e arrumava as camas. “Gente grande não arruma cama, não, senhora”.

Saiu de debaixo de terra e foi para a casa do mais poderoso empreiteiro da construção de Brasília por conta de seu jeito de tratar as pessoas. “Meu pai me ensinou a ser honesto e humilde, a respeitar os outros, tratar bem e trabalhar.” Quando estava tirando cascalho do rio, Clementino sabia que no domingo eles só tinham direito ao almoço. À noite, cada um que se virasse. Então, começou a adular a mulher da cozinha — “puxa-saco mesmo”, diz —para ela se condoer da fome do candango e separar um prato para ele. “Toda vida fui muito adulador das pessoas”. Desse modo, foi conseguindo a simpatia dos patrões até se aposentar a serviço da construtora Rabelo. Mas o serviço de dentro de casa e do escritório não era fácil. “Eu servia almoço às três da tarde e janta às três da manhã. Dormir, não dormia. Se dormisse, era meia horinha. Mas se eu adoecesse, o patrão não me mandava para o hospital do governo. Eu ia pra clínica particular.”.

Burocracia
No dia em que chegou a Brasília, 5 de janeiro de 1957, Clementino sentia os sintomas da gripe asiática — “era como uma pneumonia, só não punha sangue”. Quando mergulhou nas águas geladas do Corumbá para tirar cascalho, inexplicavelmente os incômodos desapareceram. Dois meses depois, numa viagem de caminhão a Brasília, para ajudar o patrão a descarregar o cascalho, Clementino soube pela primeira vez que precisava de ter Carteira de Trabalho e que tinha de pagar INSS (à época, INPS) para ter direito à aposentadoria. Carteira de trabalho, empresa, firma, INPS, aposentadoria — palavras e conceitos que o mineiro da roça desconhecia. “E tem tudo isso?”, ele perguntou, espantado, ao patrão. “Eu só tinha registro de nascimento e nem sabia que era um documento”. Na fazenda, não era permitido nem servir ao Exército nem ir para a escola. “O dono da terra dizia que quem fazia isso era vagabundo.”

O ex-lavrador ficou tentado a trabalhar numa “firma”. Conseguiu uma vaga na maior das construtoras da nova capital, a Rabelo. Trabalhou no pesado durante dois anos — “Era das sete da manhã às sete da noite. Depois, entrava a outra turma, das sete da noite às sete da manhã, e tinha de fazer serão três vezes por semana. E quem não aguentasse, era pra pedir conta e ir embora. Desse jeito é que foi construída Brasília.” Clementino viu mortes na construção da Rodoviária e no Teatro Nacional. Sofreu um acidente de trabalho, quando um fragmento de cascalho caiu perto de seu olho esquerdo, deixou uma cicatriz e comprometeu levemente a visão.

Setenta e nove anos, casado pela quinta vez, pai de oito filhos, a mais nova com 6 anos, Clementino deixou de ser peão de obra para ser chacareiro e contador de histórias. Emenda uma na outra e na outra e nesse longo contar o bravo candango vai revelando uma Brasília que poucos conhecem. Ele lembra do dia em que um bando de operários correu atrás de um veado galheiro, de aproximados 150kg. O bicho cruzava o cerrado perto das obras da Rodoviária quando foi imobilizado, amarrado e deixado ao sol, enquanto os peões foram almoçar. Quando voltaram, o bicho estava morto.

Relata também que, antes da “revolução da Pacheco” (o episódio acontecido no carnaval de 1959), “revolução” semelhante aconteceu, cerca de dois meses antes, no refeitório da Rabelo. “A comida era uma fartura, arroz, feijão, carne, tudo quanto é verdura. Mas a gente encontrava de tudo nela, mosquito, barata, até esparadrapo.” Num domingo, os candangos se rebelaram contra a sujeira, começou um quebra-quebra, a polícia do Quartel do Exército chegou e pôs fim ao protesto. “Na confusão, o encarregado disse que quem quisesse trabalhar era pra subir no caminhão. Eu subi e levei uma sarrafada nas costas. Me chamaram de puxa-saco.”. Na Rabelo, não houve mortos nem feridos. “Aí a Pacheco Fernandes incrementou com aquilo…” Clementino disse que nesse dia ocorreram muitas mortes, mas ele mesmo não viu nenhum corpo. Só ouviu falar.

Chegou o dia da inauguração. “Quando vi Brasília pronta, fiquei bobo. Como é que eu aguentei? Muitos não aguentaram. Trabalhar do jeito que a gente trabalhou não é pra qualquer um, não.” Mas diz que, se tivesse ficado na lavoura, “tinha morrido à míngua”. Brasília lhe deu a chance de tirar os pais e o irmão da roça. Deu-lhe uma chácara, duas casas, uma na Vila Planalto e outra no Recanto das Emas, e histórias de embalar os ouvidos. Meio século depois, o bravo candango se espanta: “Não pensava de alcançar Brasília deste tamanho.” Quando a entrevista acaba, o entrevistado convida os repórteres para uma cervejinha. Como era horário do trabalho, o convite foi gentilmente recusado. Diz então que vai ficar esperando as visitas para almoçar na casa dele, que vai ficar esperando. Sabe tratar bem as pessoas esse Clementino.

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