Jornal Correio Braziliense

Cidades

Polícia Federal entra nas investigações

Delegado de Combate ao Crime organizado da PF junta-se à equipe que apura o desaparecimento de jovens no município goiano. Irmãos detidos há 11 dias continuarão na cadeia

Passados três dias desde que o Secretário de Segurança Pública de Goiás, Ernesto Roller, aceitou o auxílio(1) da Polícia Federal nas investigações sobre o desaparecimento de jovens em Luziânia, finalmente a PF entrou no caso, ontem. Hellan Wesley Almeida Soares, delegado de Combate ao Crime Organizado, será o responsável por dividir o trabalho com a equipe do chefe do Departamento Judiciário da Polícia Civil goiana, Josuemar Vaz de Oliveira. Os dois titulares ainda não se reuniram para discutir as próximas medidas a serem tomadas nas buscas dos adolescentes. Mas o encontro deve acontecer em breve. Enquanto isso, os dois irmãos detidos há 11 dias, suspeitos de aliciamento para exploração sexual, tiveram prisão prorrogada por mais 30. Eles serão transferidos de Luziânia para a penitenciária de Niquelândia (GO) - distante 300km do município - por suspeitas de abuso sexual de pelo menos seis crianças da cidade.

Eduardo Alves Siqueira e Aldo Aparecido Siqueira são acusados pela Polícia Civil de Niquelândia de abusarem de meninos de 11 e 12 anos. Ambos foram presos pela Polícia Civil de Luziânia - distante 66km de Brasília - suspeitos de ter envolvimento com o sumiço de Márcio Luiz de Souza Lopes, 19 anos, que desapareceu em 22 de janeiro. Os irmãos foram ouvidos pela equipe de investigação, mas alegam não ter nenhuma relação com o sumiço do jovem. Segundo Josuemar Vaz, a suspeita surgiu por Eduardo já ter dividido casa com Márcio por quatro meses, morar no bairro Estrela Dalva 4 - o mesmo do rapaz - e ter antecedentes de aliciamento para exploração sexual.

A prisão dos irmãos pela acusação, que não chegou a ser confirmada, teria desencadeado a solução para vários casos de abuso sexual na região. Até ontem, o titular da Delegacia da Polícia Civil de Niquelândia, Gerson José de Souza, teria colhido seis depoimentos de crianças e familiares que contam ter sido vítimas dos irmãos. "As pessoas têm medo de denunciar. Agora, conseguimos a prisão temporária deles e, com isso, acredito que o número de vítimas dos irmãos deve aumentar", contou o delegado.

Sete erros
Hellan Wesley Almeida Soares comandou a Operação Sete Erros, em 2007, que desmantelou a quadrilha de irmãos libaneses que mantinha um esquema de introdução sistemática de grandes quantidades de mercadorias estrangeiras no país. Produtos de informática, sem o pagamento dos impostos devidos pela importação, eram revendidos sem notas fiscais na Feira dos Importados, conhecida como Feira do Paraguai.

O esquema funcionou pelo menos durante o período de janeiro de 2004 a novembro de 2007. Nas investigações da Polícia Federal, que duraram cerca de um ano, apurou-se a existência de crimes de formação de quadrilha, descaminho, facilitação ao contrabando ou descaminho, violação de sigilo funcional e lavagem de dinheiro. A família de libaneses, que controlava nove bancas de produtos eletrônicos de alto valor agregado na Feira dos Importados, foi detida.

1 - Pressão
Subordinada ao Ministério da Justiça, a Polícia Federal está apta a atuar em três casos: crimes federais, como, por exemplo, tráfico internacional de drogas ou de pessoas ou lavagem de dinheiro público; interestadual (quando as polícias de dois ou mais estados ficam impedidas de agir); e quando há uma requisição do governo estadual ao Ministério da Justiça. Qualquer ação da PF que não seja em uma dessas situações caracteriza-se como interferência federal na autonomia estadual. Por isso, o governo de Goiás foi pressionado pelas mães dos desaparecidos de Luziânia a colocar a Polícia Federal no caso.

Colaborou Edson Luiz


Carnaval com medo

O primeiro carnaval após o desaparecimento dos seis jovens em Luziânia terá um clima de insegurança misturado às fitas e confetes no ar. Com medo, mães dizem que vão tentar limitar os horários dos filhos nas ruas. Foliões preferem não participar da festa deste ano. E uma parcela de moradores programa sair da cidade durante o feriado prolongado. A professora Valquíria Meireles, 35 anos, adora pular carnaval, mas não vai sair de casa nos próximos quatro dias. "Eu adoro a festa, mas vou ficar em casa. A violência aumentou muito na cidade", contou.

O segurança Celso de Araújo, 25 anos, que geralmente trabalha na proteção dos foliões, também não assistirá às bandas Vitrine, Tô de Zoeira e Imagem, que se apresentarão nos dias de festas no Ginásio José de Araújo Leite, no centro da cidade. "Nos últimos cinco anos, a violência cresceu muito nessas festas. Vou evitar a bagunça este ano", disse. As três filhas, de 14, 15 e 17 anos, de Adilina Alves da Silva, 41, também não vão sair de casa durante os dias festivos. "É muito tumulto nas ruas. Prefiro elas em casa, por perto."

A rotina dos moradores de Luziânia mudou depois que seis jovens sumiram misteriosamente do bairro Parque Estrela Dalva. Os desaparecimentos começaram em 30 de dezembro, quando Diego Alves Rodrigues, 13 anos, não retornou mais para casa. Diego saíra da residência, no Parque Estrela Dalva 4, para ir a uma oficina de carros. Ele nunca mais foi visto. Na sequência, Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16, George Rabelo dos Santos, 17, Flávio Augusto Fernandes dos Santos, 14, Divino Luiz Lopes da Silva, 16, e Márcio Luiz de Souza Lopes, 19, também sumiram. (NT)