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Correio Braziliense 50 BRAVOS CANDANGOS

"Se a Norma não quiser ir..."

Viúva do empreiteiro que ajudou a construir Brasília embala a saudade com as lembranças das aventuras daquele tempo e cultua a primeira roseira que trouxe


postado em 13/02/2010 09:33

Uma mulher triste e cheia de saudades mora na Península dos Ministros. Mas ela não está sozinha. Tem por companhia uma fortuna de papel: fotografias do tempo da construção de Brasília do marido, um bravo candango que foi seu primeiro e único namorado, com quem ela ficou casada por 60 anos e que morreu há sete meses. O álbum caprichosamente legendado registra imagens inéditas dos primeiros movimentos de operários, de madeiras e de concreto na nova capital.

As fotografias conduzem a carioca Norma Corrêa Meyer Sant’Anna, 84 anos, de volta à aventura que começou numa maternidade do Rio de Janeiro, em 4 de outubro de 1957. A parturiente acordava de uma cesariana quando o cunhado, Victor, entrou no quarto cantando: “Eu vou pra Brasília, eu vou. Eu vou de ‘liforme’ branco, eu vou. Se a Norma não quiser ir, eu vou só. Eu vou só, eu vou só, sem a Norma, mas eu vou…”

A mãe, recém-parida, entendeu que a família iria se mudar para um canteiro de obras no Planalto Central, mas antes de qualquer outra coisa, quis saber: “E meu filho? É menino ou menina? Está tudo bem com ele?” Então, o pai do neném, o engenheiro Cláudio Oscar de Carvalho Sant’Anna, festejou: “Você acaba de lançar um Sputnik”. No mesmo dia, o primeiro satélite artificial tinha ido ao espaço. Uma vitória russa na corrida espacial.

Três meses depois, Francisco, o bebê, chegava a uma casa de madeira na hoje SQS 106, com os três irmãos, a mãe e o pai. Cariocas que a partir de então se transformaram em bravos candangos. A possibilidade de vir para Brasília havia surgido dois meses antes. Cláudio Sant’Anna procurara o presidente da Companha Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), Israel Pinheiro, para tentar vir para Brasília participar das obras. A família dele era proprietária da Kosmos Engenharia. “Daquele jeito meio estabocado, ele (Israel) disse que não conversava com engenheiro de terno e gravata e que se eu quisesse conversar com ele que calçasse botas e viesse a Brasília”, contou Sant’Anna ao Arquivo Público do Distrito Federal, em 1989.

O engenheiro obedeceu. Tirou o terno, veio a Brasília, mas não conseguiu ser recebido pelo todo-poderoso, não naquele dia. A Kosmos Engenharia ficou com os 11 blocos da SQS 106 para serem concluídos em 24 meses, tempo que Juscelino Kubitschek considerou exagerado. “Isso não é prazo para Brasília”, teria dito o presidente em reunião com os institutos de previdência encarregados de construir os blocos residenciais. Ao que Cláudio Sant’Anna interveio e prometeu que sua empresa entregaria os prédios antes do período prefixado. Cumpriu o prazo e mais um pouco: a Kosmos entregou o primeiro bloco inteiramente pronto de Brasília, o número 10, atual Bloco D da 106 Sul.

Enlatados

Antes de essa peleja começar, porém, havia outra que Norma e seus quatro filhos enfrentariam nos primeiros anos de Brasília. “Eu dava banho no bebê na pia de lavar louça”, lembra-se a mulher de Sant’Anna. Depois que o cunhado tentou encantá-la com a marchinha de Dorival Caymmi, o marido lhe prometeu que em Brasília ela poderia fazer os jardins que quisesse, do jeito que sempre sonhara. Quando chegou à Cidade Livre, Norma reagiu: “Isso aqui é muito feio. Me leva pra Brasília”. Ao que o Sant’Anna respondeu: “Pois isso aqui é Brasília.”

A família do engenheiro morava na obra, em uma pequena casa de madeira encostada num dos blocos em construção. A jovem Norma teve de enfrentar a penúria da vida em acampamento. Choveu muito em Brasília entre o fim de 1958 e o começo de 1959, o que paralisou as obras e a chegada dos caminhões com mantimentos para os candangos. “Nesse período, os meus filhos mais novos passaram fome, porque aqui só tinha comida enlatada e eu não queria dar isso a eles.”

Lembranças que não desencantaram a família Sant’Anna. Momentaneamente esquecida de sua dor, Norma ri quando se lembra do dia em que uma empregada levantou uma suspeita de adultério. Segundo a doméstica, a mulher do engenheiro passava boa parte do dia num quarto conversando com um homem “uma coisa que ninguém entende”. Formada em letras germânicas e temendo perder a fluência na língua alemã, Norma comprou um programa de aprendizado de idioma e se exercitava sozinha. “Aqui não tinha telefone, não tinha jornal, nem televisão nem rádio, e eu ficava muda boa parte do tempo. Foi também um modo de ter companhia.” A suspeita da empregada rendeu boas risadas e uma história para contar.

O marido de Norma tinha essa e muitas outras boas histórias sobre a construção de Brasília. É dele o único depoimento de um empreiteiro ao Arquivo Público. São 38 páginas de memórias, boa parte delas com revelações inéditas no campo da construção civil ou comentários singulares de um bom observador. Sant’Anna conta, por exemplo, que as primeiras concretagens de Brasília foram feitas com pedra quebrada à mão. Não havia britador. “A gente fazia um grande caixote de um metro cúbico e empreitava com os operários o trabalho. Parecia que estávamos no tempo da construção das pirâmides do Egito.”

Roseira florida

Salvo um curto período no Paraguai, Cláudio Sant’Anna morou em Brasília até 2 de julho de 2009, dia de sua morte. Além dos blocos da SQS 106, a Kosmos Engenharia construiu, entre outras obras, 50 casas na W3 Sul, o prédio da reitoria e o Centro Olímpico da Universidade de Brasília (UnB), o palanque do Quartel-General do Exército e o Hospital de Sobradinho. Quando Jânio Quadros assumiu a Presidência da República e as obras cessaram, Sant’Anna reuniu os filhos e perguntou se eles queriam ir embora de Brasília. A votação foi unânime: os quatro queriam ficar.

As crianças cresceram, fizeram suas vidas. Norma foi a primeira professora da Casa Thomas Jefferson, e mais tarde diretora da escola. Cláudio Sant’Anna foi por duas vezes presidente da Novacap e recebeu, ao longo da vida, condecorações que enchem uma prateleira da casa.

Passados seis meses da morte do marido, Norma ainda não se acostumou a viver sem o companheiro de quase sete décadas. Os dois tinham 15 anos quando começaram a namorar. Mas nem percebe a alegria que sente quando mostra as rosas vermelhas de Holambra que a acompanham desde a construção da cidade. “Vou fazendo mudas e deixando pelas casas onde andei.” Na quarta-feira passada, a roseira que acompanha a história de Brasília estava florida.

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