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Correio Braziliense CAIXA DE PANDORA

Todo o estafe sob investigação

A crise abateu os principais assessores de Arruda no governo. Para a PF, eles são suspeitos de atuar como operadores do suposto esquema de corrupção


postado em 14/02/2010 09:35 / atualizado em 14/02/2010 09:45

A Operação Caixa de Pandora — que levou à prisão o governador afastado José Roberto Arruda do Distrito Federal — atingiu praticamente o estafe principal do chefe do Executivo local. Entre os investigados no Inquérito nº 650 em curso no Superior Tribunal de Justiça estão quase todas as pessoas do círculo próximo de Arruda, aquelas que o acompanham há décadas e escolheram dedicar a vida a seu projeto político: o secretário particular, o chefe de gabinete, o tesoureiro de campanha, o assessor de imprensa, o escolhido para gerenciar os projetos governamentais e o porta-voz para assuntos do Legislativo e Judiciário.

Antes de ser preso, na quinta-feira, Arruda despachava na residência Oficial de Águas Claras com uma equipe que não escolheu. Do círculo mais próximo, Rodrigo Arantes, considerado por ele quase como um filho, era um dos poucos com condições de aparecer em público como assessor. Ele já havia aparecido no vídeo em que Arruda recebe dinheiro de Durval Barbosa, numa das mais famosas produções do delator do suposto esquema de corrupção. Mas sucumbiu diante da acusação de que foi o portador do dinheiro que teria sido usado para subornar o jornalista Edson Sombra, para que este ajudasse a desqualificar provas que incriminariam Arruda. Rodrigo nega a acusação e diz que seu nome foi usado indevidamente.

O argumento não foi suficiente para evitar a decretação da prisão preventiva de Arantes. Na última quinta-feira, depois de Arruda, ele foi o primeiro a se entregar à Polícia Federal (PF). Acostumado a ser bajulado por quem queria se aproximar do governador, Rodrigo Arantes foi transferido na última sexta-feira para uma cela da PF na Papuda. Lá, ficará em ambiente afastado de quem cumpre pena, mas manterá a mesma rotina dos demais detentos, com banho de sol e visitas em horário determinado. Comerá a mesma comida e usará um vaso sanitário sem tampa. Rotina igual será adotada pelo ex-chefe da Agência de Comunicação do DF Weligton Moraes, que acompanha Arruda há mais de 15 anos, desde que o governador afastado do DF assumiu o primeiro cargo no governo Roriz.


Apaziguador
Secretário de Comunicação das gestões de Joaquim Roriz, Weligton sempre soube amenizar crises. Ele é acusado de intermediar um acordo com o jornalista Edson Sombra. Desde a crise deflagrada pela Operação Caixa de Pandora, ele andava abatido. Chegou a anunciar que deixaria o governo porque se sentia desconfortável em permanecer no cargo devido à conhecida relação de amizade que sempre manteve com Durval Barbosa. Ficou por insistência de Arruda. Na área de comunicação, outro personagem é alvo de investigação e deverá ser denunciado por corrupção: o jornalista Omézio Pontes, que trabalha com Arruda desde que este ingressou na política, em 1994.

Omézio já havia superado outra crise do chefe: a renúncia ao mandato no episódio da violação do painel do Senado. Mas o assessor nunca havia sido diretamente acusado de envolvimento de desvio de recursos. Ele aparece em dois vídeos recebendo dinheiro de Durval Barbosa, mesmo constrangimento do conselheiro Domingos Lamoglia. Ele e Arruda são amigos há décadas a ponto de o governador afastado dizer no ano passado, na posse do ex-chefe de gabinete como conselheiro do Tribunal de Contas do DF, que os dois pareciam ser a mesma pessoa. O governador fez o que estava a seu alcance para nomear o conterrâneo de Itajubá (MG) na função de fiscalizador dos gastos públicos. Por conta da crise deflagrada pela Operação Caixa de Pandora, Lamoglia foi afastado do cargo.

Centralismo
Para assumir o cargo no TCDF, Lamoglia deixou a função de chefe de gabinete de Arruda. Seu sucessor, Fábio Simão, escolhido para comandar o gabinete mais próximo do governador, também é investigado. Simão foi alvo de duas operações de busca e apreensão da PF. Presidente da Federação Brasiliense de Futebol, ele viu, assim, mais distante a possibilidade de se tornar o grande organizador dos preparativos de Brasília para a Copa de 2014, atribuição que vinha exercendo no governo.

Centralizador, Arruda sempre teve dificuldades para delegar funções. Mas entregou ao secretário de governo, José Humberto Pires, o papel de coordenar todas as suas obras e projetos sociais. Era considerado o “gerentão” do governo, apelidado pelo próprio Arruda de sua “Dilma Rousseff”. Hoje, é investigado como possível arrecadador de recursos do esquema.

Após quase quatro décadas em funções de chefia no GDF, como secretário de Saúde, presidente da Companhia Energética de Brasília (CEB), da Companhia de Saneamento de Brasília (Caesb) e secretário de Serviços Públicos, José Geraldo Maciel agora é suspeito de coordenar o pagamento de propinas para a aprovação de projetos na Câmara. Ele tinha a função de articulador político com os deputados e de relacionamento institucional com o Judiciário. Saiu de cena depois que conversas que teve com Durval sobre desembargadores e deputados foram interceptadas pela PF. Primo de Arruda, é o responsável pela vinda dele para Brasília, como engenheiro da CEB, e sempre incentivou os planos do familiar de comandar o DF.

A Caixa de Pandora também debilitou o tesoureiro de campanha de Arruda, José Eustáquio de Oliveira, responsável pela coordenação do escritório político do governador — antes, naturalmente, do afastamento. Ele também é investigado como um dos operadores do suposto esquema de corrupção instalado no Executivo.

 

Quem é quem


(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
Weligton Moraes

Chefe da Agência de Comunicação do DF, Weligton é aliado de Arruda há mais de 15 anos. A aproximação começou quando ambos integraram o primeiro governo de Joaquim Roriz. Sempre foi conhecido como um apaziguador de crises. Na última sexta-feira, foi transferido para a Penitenciária da Papuda por ter sido denunciado como intermediador de um suborno ao jornalista Edson Sombra








(foto: José Varella/CB/D.A Press)
(foto: José Varella/CB/D.A Press)
José Eustáquio de Oliveira

Tesoureiro das campanhas de José Roberto Arruda, Eustáquio foi presidente da Novacap, o braço das obras do Executivo no primeiro ano de governo. Deixou o cargo para se dedicar ao escritório político de Arruda na 502 Sul, onde eram organizadas as ações eleitorais. É investigado por supostamente ser um dos arrecadadores de recursos para o governador








(foto: Jose Varella/CB/D.A Press)
(foto: Jose Varella/CB/D.A Press)
Fábio Simão

Presidente da Federação Brasiliense de Futebol, Simão tinha muitas atribuições. Além de coordenar o projeto da Copa 2014 em Brasília, ele era um dos articuladores na Câmara Legislativa. Substituiu Domingos Lamoglia na chefia de gabinete. Também era um dos aliados de Arruda na executiva regional do PMDB. É investigado por ter supostamente recebido dinheiro para apoiar o governador








(foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press)
(foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press)
José Humberto Pires

Considerado o gerente do governo, Humberto era o coordenador de todas as obras e projetos. Tinha como atribuição resolver problemas para fazer as coisas andarem. Também organizava eventos públicos. Nada acontecia sem passar pela Secretaria de Governo. Agora, é investigado como arrecadador de recursos oriundos de propina para abastecer um suposto caixa 2 e contas pessoais de Arruda








(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Rodrigo Arantes

Secretário particular do governador, Arantes é filho de um amigo de Arruda que já morreu. Ele é também muito próximo de José Geraldo Maciel. Atendia os telefones do governador, anotava pedidos de audiência e resolvia problemas do dia a dia. Ele apareceu em vídeo levando a sacola com dinheiro entregue por Durval Barbosa a Arruda. É acusado de entregar o dinheiro que seria usado para subornar o jornalista Edson Sombra









(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Domingos Lamoglia

Amigo de Arruda há mais de 30 anos, Lamoglia foi assessor dele no Senado e chefe de gabinete no governo até setembro do ano passado, quando foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do DF numa negociação com a Câmara que contou com a participação direta e decisiva do governador. Depois do escândalo, ele foi afastado do cargo porque aparece em vídeo recolhendo dinheiro doado por Durval Barbosa









(foto: Marcelo Ferreira/CB)
(foto: Marcelo Ferreira/CB)
José Geraldo Maciel

Primo e conterrâneo de Arruda, José Geraldo Maciel é responsável pela escolha do governador afastado por Brasília. Ele incentivou Arruda a deixar a terra natal, Itajubá (MG), para ingressar na carreira de engenheiro da CEB. No atual governo, era um dos poucos com autoridade para falar em nome de Arruda. Deixou o cargo após conversa com Durval Barbosa em que há evidências de relatos de pagamentos de propinas a distritais







(foto: Monique Renne/CB/D.A Press)
(foto: Monique Renne/CB/D.A Press)
Omézio Pontes

Assessor de imprensa de Arruda há mais de 15 anos, o jornalista deixou nos últimos tempos a atribuição de relacionamento com os repórteres e a divulgação das ações do Executivo para se dedicar à atividade de mobilização política. Organizava audiências públicas com a participação do governador. Saiu do cargo porque aparece em dois vídeos recebendo dinheiro de Durval Barbosa

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