Publicidade

Correio Braziliense

Faixa (in)segura para o pedestre

Treze anos após campanha de conscientização, números parciais do Detran indicam que mais gente morreu no DF em 2009 ao tentar atravessar no lugar certo. Desrespeito vem de todos os lados


postado em 01/04/2010 08:00 / atualizado em 01/04/2010 08:31

No dia em que a Polícia Militar retomou a campanha de conscientização, o Correio flagrou nas vias da área central de Brasília a falta de respeito tanto de motoristas quanto de pedestres ao romperem as faixas(foto: Foto: Iano Andrade/CB/D.A Press )
No dia em que a Polícia Militar retomou a campanha de conscientização, o Correio flagrou nas vias da área central de Brasília a falta de respeito tanto de motoristas quanto de pedestres ao romperem as faixas (foto: Foto: Iano Andrade/CB/D.A Press )
Motivo de orgulho dos brasilienses, o respeito à faixa é cada vez menor no Distrito Federal. E quanto mais longe do Plano Piloto, pior para o pedestre. Em números absolutos, a quantidade de vítimas em 2009 está entre as maiores dos últimos 13 anos, quando o governo lançou a campanha de conscientização. Os dados apurados pelo Departamento de Trânsito (Detran) só serão divulgados hoje. Trata-se de um levantamento detalhado sobre o perfil das vítimas e condutores envolvidos em acidentes fatais sobre as listras criadas para serem territórios seguros para os que andam a pé. Já no primeiro semestre de 2009, o balanço parcial dava sinais de que a situação era preocupante. Na metade do ano, já tinham sido contadas seis mortes na faixa em todo o DF, enquanto que, durante todo 2008, ocorreram oito. Um relatório preliminar ao qual o Correio teve acesso indica 12 mortes na faixa em 2009. Porém, o Detran não confirmou o número e informou que a estatística não estava fechada. Há que se levar em conta que, em 13 anos, o número de faixas saltou de 600 para cerca de 5 mil. A frota de carros, que era de 585 mil veículos em 2000 — esse é o dado mais antigo disponível no site do Detran —, hoje é de 1.150.940. Mas, para o comandante de policiamento da PM, coronel Luiz Henrique Fonseca, o crescimento do número de faixas e de veículos nas ruas do DF não justifica o aumento das mortes. “A gente nota que falta atenção dos pedestres e motoristas. Se ambos tivessem mais cuidado, parte das mortes seria evitada”, assegura. Diante da constatação de que motoristas e pedestres estão menos cuidadosos, o Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTran) aproveita que em abril a faixa de pedestre completa 13 anos em Brasília para lançar a campanha A faixa está viva. A mobilização vai durar todo o mês e terá policiais militares em várias faixas alertando motoristas e pedestres sobre como devem agir. A primeira etapa da campanha será de conscientização. Os militares vão relembrar as dicas de segurança (veja quadro) e lições de cidadania que fizeram de Brasília referência nacional. “Não há dúvidas de que ainda respeitamos a faixa. Aqui o pedestre ainda tem tranquilidade para atravessar na faixa. Os pais sentem-se mais seguros em relação aos seus filhos porque o motorista para. Mas temos o que melhorar”, reconhece Fonseca. No lançamento da campanha, os grupos de Teatro Rodovia da Polícia Militar e do Teatro Lobo Guará foram às ruas. Um ator representando a faixa “puxou a orelha” de várias pessoas que atravessaram fora da linha de segurança. Envergonhadas, nenhuma delas quis comentar o deslize. O Lobo Guará fez a escolta de um grupo de pedestres, mas nem a presença dele impediu que o motorista de um carro branco cruzasse a faixa antes que as pessoas concluíssem a passagem. O Minhoca, outro personagem, também esteve lá e relembrou que as pessoas precisam descer da bicicleta para atravessar na faixa. Flagrantes Não é preciso observar muito tempo para ver que a cidadania dos motoristas e de pedestres, construída e fortalecida nos primeiros anos de campanha, está caindo no esquecimento. Na plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto, sobram flagrantes de falta de respeito de ambos os lados. A reportagem constatou situações que nem mesmo a presença de crianças sobre a faixa fizeram o motorista parar. Foi o que ocorreu no fim da manhã de ontem, na faixa em frente ao Edifício Boulevard Center, na área central da capital. A cabeleireira Ângela Caetano Moura, 44 anos, e os dois filhos, Priscila e Pedro, ambos de 8 anos, pararam na calçada e acenaram os braços. O condutor que vinha na primeira faixa parou. Os três iniciaram a travessia. O veículo que vinha na segunda faixa de direção também parou. Mas o condutor da terceira acelerou obrigando a mulher e os dois filhos a ficarem estáticos no meio da pista. A má conduta não surpreende Ângela Moura, que também dirige. “Alguns (motoristas) não respeitam de jeito nenhum. Quando a via é muito movimentada, você cansa de balançar o braço (gesto de sinal de vida) e ninguém para”, conta. Quando está na condição de condutora, Ângela também assiste ao desrespeito. “Às vezes, você para e o de trás, não. O risco de acidente aumenta muito”, ressalta. Os filhos da cabeleireira só vão pegar o volante daqui a 10 anos, pelo menos. Mas já têm opinião formada sobre os motoristas que desrespeitam a faixa. “ São malucos. O pedestre pode morrer atropelado”, resume Priscila.
O que diz a lei Prioridade absoluta De acordo com o Artigo 70 do Código de Trânsito Brasileiro, os pedestres que estiverem atravessando a via sobre a faixas têm prioridade de passagem. Nos locais com semáforo, os motoristas devem dar preferência ao pedestre que não tenha concluído a travessia. O Artigo 69 é claro quanto à obrigação do pedestre. Antes de iniciar qualquer travessia, ele deve sempre observar se está sendo visto, a distância e a velocidade do veículo. Deve ainda usar a faixa sinalizada ou passagem a ele destinadas sempre que uma ou outra existir numa distância mínima de 50 metros. (AB) Análise da Notícia Pelo resgate de um símbolo Marcelo Tokarski Está passando da hora de Brasília voltar a abraçar um símbolo que, com o passar dos anos, foi sendo relegado: a faixa de pedestres. Aliás, a faixa não, o respeito à ela, regra que transformou a capital em referência nacional em termos de segurança no trânsito. Infelizmente, nos últimos anos, o que era exemplo para o país começou a cair no esquecimento. A cena de um carro avançando a faixa diante de um pedestre tornou-se comum. E os acidentes se multiplicaram. Para que não só Brasília, mas todo o Distrito Federal volte a mostrar para o país que a prioridade é a vida, e não os carros, é preciso reforçar a fiscalização e promover uma campanha de reconscientização. Além disso, motoristas e pedestres precisar mudar suas posturas. Só assim a cidade poderá dar à sociedade brasileira pelo menos um bom exemplo de cidadania, em meio ao mar de denúncias de corrupção e irregularidades que mancharam a imagem do DF.

 

 Veja vídeorreportagem sobre os 13 anos da faixa de pedestres

Artigos ESPAÇOS DISPUTADOS Os antigos manuais de trânsito ensinavam que “trânsito é o movimento ordenado de pedestres e veículos pelas ruas da cidade. A calçada é para os pedestres; a rua é para os veículos ”. É um conceito simples mas que, em verdade, traduz a posição de pedestres e veículos na conhecida guerra de ocupação e uso dos espaços. Pedestres e motoristas não são adversários, embora vivam em eterno conflito. O pedestre muitas vezes arrisca sua vida infringindo normas de segurança, atravessando fora da faixa, correndo pela pista em ziguezague, esquecendo-se dos sinais luminosos e desprezando passarelas e viadutos. A faixa de pedestres pintada ou demarcada no leito carroçável, segundo o artigo 85 do Código de Trânsito Brasileiro, é o local destinado à travessia da via pública. É o porto seguro do pedestre, é o salva-vidas do mais fraco. O despreparo tanto do condutor do veículo como do próprio pedestre é motivado pela irritação, pela pressa e, principalmente, pela ausência de conscientização quanto às responsabilidades próprias do motorista e do pedestre. Só com educação e severa fiscalização atingiremos o estágio do mútuo respeito. Cyro Vidal — Advogado e presidente da Comissão de Trânsito da OAB – SP e um dos autores do anteprojeto do atual Código de Trânsito Brasileiro AÇÕES SÃO ESPERADAS A faixa de pedestres proporciona uma travessia segura desde que observadas algumas condições. A primeira delas é que a velocidade da via seja reduzida, menos de 50km/h. Em segundo lugar, é preciso que o motorista tenha uma boa visibilidade da faixa. Ela não pode ser colocada em uma curva, nem ficar escondida por plantas na lateral da pista. A iluminação é outro ponto muito importante. Infelizmente há muitas faixas onde essas condições não são observadas, o que implica em insegurança para o motorista, para o motociclista e, principalmente, para o pedestre. Os óbitos na faixa são a pontinha do iceberg. Para cada morte há cerca de 20 acidentes com feridos graves, leves ou com escoriações. E um número ainda maior de pessoas que não sofreram violência física, mas psicológica. Muitas vezes, a insegurança subjetiva tem consequências duradouras e graves. São os quase-acidentes, quando o pedestre que, desrespeitado, teve menos de três segundos para recuar. É o motorista que precisa frear bruscamente para não atropelar o pedestre que entrou repentinamente na faixa. Os órgãos de trânsito ficam permanentemente recitando os números das tragédias, mas são poucas as ações que adotam para corrigir os problemas. É preciso pegar os últimos cinco anos de acidentes com morte na faixa, por exemplo, descobrir as causas e corrigir os problemas. As estatísticas são imprescindíveis, mas precisam gerar ação. David Duarte — diretor do Instituto de Segurança no Trânsito e professor da Universidade de Brasília A partir de maio, multa pesada no bolso Ao completar 13 anos, o respeito à faixa de pedestres no Distrito Federal será lembrado não apenas pela retomada das blitzes educativas. A Polícia Militar anunciou que, a partir de maio, vai multar o motorista que ignora as linhas brancas destinadas à travessia segura do pedestre. A falta de atenção custará ao infrator R$ 191. O erro é considerado gravíssimo e, por isso, o infrator também perde sete pontos na carteira. A medida, segundo o comandante do policiamento da PM, coronel Luiz Henrique Fonseca, é para garantir que o DF continue sendo lembrado como referência de cidadania. “Infelizmente, o brasileiro parece só mudar o comportamento quando sente os efeitos no bolso. Primeiro, vamos apelar para a consciência. Mas imediatamente após o fim de abril, vamos colocar policiais em pontos estratégicos para multar os infratores”, avisou. O taxista Manoel Cardoso Beiron, 72 anos, assistiu ao início da campanha da faixa no DF. “Foi na época do governo Cristovam (Buarque). Teve muita orientação para o motorista, o ciclista e o pedestre. As pessoas descuidaram um pouco. Têm uns relaxados por aí que não param”, diz. Mas, ainda assim, Manoel acha que, de um modo geral, a faixa em Brasília é respeitada. A redução das mortes depende não apenas do condutor, mas também da prudência do pedestre. E não é isso que se vê nas ruas. Nem mesmo a travessia sinalizada é respeitada. Ontem, a reportagem flagrou pedestres atravessando a via entre os carros na faixa semaforizada que fica perto do Conjunto Nacional. Irritado, um motorista que dirigia um carro vermelho tira a mão para fora do veículo e grita para os pedestres que o sinal está verde para os veículos. Ainda assim, eles seguem calmamente como se o protesto não fosse com eles. Professor de psicologia do trânsito na Universidade de Brasília (UnB), Hartmut Günther defende que campanhas de educação e a fiscalização caminhem juntas, sempre. “Quando tem a campanha de conscientização e, ainda assim, a pessoa é flagrada pelo agente, aceita melhor a multa e ainda fica envergonhada”, explica. Além disso, Günther defende a fiscalização permanente. “Se a pessoa não sabe quando e onde será fiscalizada, se obriga a andar sempre na linha”, diz. A imprudência mata mais idosos. O balanço de 2008 do Detran revela que das 64 mortes ocorridas na faixa entre 1997 e o ano retrasado, 40,6% das vítimas tinham 60 anos ou mais. As crianças representaram 15,6% das vítimas. Nesse período, as cidades que mais registraram mortes na faixa foram Ceilândia e Gama. Sinalização ruim Aos 4 anos de idade, Gabriela já aprendeu o que tem que fazer antes de atravessar sobre as linhas brancas. “Tem que fazer assim com o braço”, ensina, sacudindo o braço para cima e para baixo. Ontem, ela teve uma companhia diferente ao atravessar a via. Além dos pais, o fotógrafo Anderson Ueslei Oliveira Cruz, 33 anos, e a vigilante Shirley Alves Martins Cruz, 32, a Faixa de Pedestre, personagem do Teatro Rodovia da PM, fez a alegria da menina. Na opinião de Anderson, os órgãos de trânsito precisam melhorar a sinalização. Segundo ele, boa parte das faixas está apagada. Também falta iluminação e um grande número de pedestres entra de uma vez na via. “A culpa sempre recai sobre o motorista. Mas nem sempre somos os únicos responsáveis pelos acidentes”, lembrou. (AB) BOM E MAU EXEMPLOS Em 23 de janeiro de 1998, a capa do Correio Braziliense trouxe a manchete “Faça como eles, não faça como eles” que destacou a entrada em vigor do novo Código de Trânsito Brasileiro. O jornal estampou a famosa capa do disco Abbey Road, dos Beatles atravessando na faixa de pedestre. Embaixo, uma foto mostrando um mau exemplo: o então governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque, e Marta Suplicy (ambos do PT), que na época era deputada federal, atravessando a via próximo ao Palácio do Buriti fora da faixa. No mesmo dia, o carro que levava o então presidente Fernando Henrique Cardoso entrou na contramão de uma via da capital. Memória Tragédias recorrentes Março de 2009 O pintor Manoel da Silva, 34 anos, e a namorada Júlia Alves Rodrigues, 37, foram brutalmente atingidos por um Fiat Tempra enquanto atravessavam em uma faixa de pedestre na DF-290, sentido Valparaíso/Gama. O responsável pelo acidente, Gerson Alves de Oliveira, 38, não prestou socorro às vítimas. Segundo policiais militares, o motorista fez o teste do bafômetro, que acusou concentração de álcool de 0,52 mg/l no sangue. O condutor tentou fugir, mas foi capturado. Ele foi autuado por homicídio doloso (com intenção de matar), crime com pena prevista de seis a 20 anos de prisão. Novembro de 2009 Deolinda da Conceição Oliveira, 66 anos, morreu ao ser atropelada na faixa de pedestre pela motorista do Ford Fiesta branco placa JFR 8349-DF, a bancária Juliana do Nascimento Silva, 26. A aposentada morreu na hora. O corpo de Deolinda Oliveira foi arremessado a 10 metros de distância da faixa na Avenida dos Pioneiros, no Gama. A aposentada caiu no gramado do canteiro central. Dentre as possibilidades, segundo o plantonista da 14ª Delegacia de Polícia (Gama) Sérgio Bautzer, está a de a motorista não ter visto um primeiro carro parado na faixa da direita para Deolinda atravessar. Dezembro de 2008 Geovanna Vitória de Assis, 5 anos, morreu após ser atropelada em um faixa de pedestre de Planaltina. Ela estava com a babá Francilda da Paz, 36, que escapou com vida. O motorista, o professor David Silva da Rocha, então com 46 anos, submeteu-se ao teste do bafômetro. O resultado, segundo o inquérito que corre na Promotoria de Justiça da cidade, deu positivo. O professor nega veementemente que tenha ingerido bebida alcoólica naquele dia. Setembro de 2006 O jornalista Guálter Loyola Alencar, 74 anos, morreu 10 horas depois de ser atropelado em uma faixa de pedestres no Sudoeste. Guálter já estava na metade da travessia quando foi atingido pelo Fiesta placa JGR 6017-DF, conduzido por Carlos Alberto Ramalho. Segundo testemunhas, o motorista não era de Brasília e não sabia que se para na faixa de pedestres na capital.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade