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Correio Braziliense 50 BRAVOS CANDANGOS

A professorinha do grupo escolar

Desde criança, Olinda da Rocha Lobo, 80 anos, ouvia o pai falar que um dia o Brasil iria mudar a capital para Goiás. O pai morreu sem ver a mudança, mas ela veio dar aulas para os primeiros pequenos candangos


postado em 07/04/2010 09:25 / atualizado em 07/04/2010 09:30

Menina, Olinda ouvia o pai contar que um dia a nova capital seria construída aos pés de Formosa. Ouvia também as histórias de quando Otílio Teodolino Rocha e seu irmão José Teodolino Rocha haviam servido de guias à Missão Cruls, no fim do século 19. O pai de Olinda jamais se esqueceu da imponência europeia daqueles homens de nomes ou sobrenomes estrangeiros. A garota cresceu inspirada na passagem dos cientistas desbravadores pelo leste goiano. Decidiu que seria professora e começou o ofício em Sítio d’Abadia, também a leste do estado. Naqueles anos 40, só se chegava à cidade a cavalo, ouvindo o rosnado das onças.

Olinda deixou um cargo importante em Formosa para vir para Brasília:
Olinda deixou um cargo importante em Formosa para vir para Brasília: "Ganhava muito bem, minha mãe não queria que eu viesse, mas eu vim muito impulsionada pelo ideal de educadora" (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press )
O pai de Olinda, Otílio, já estava cansado de esperar pela nova capital —- “Será que eu vou morrer sem ver essa cidade?” —, quando o engenheiro Bernardo Sayão apareceu em Formosa com a novidade: Brasília iria mesmo ser construída. Mas o guia da Missão Cruls não teve tempo de ver a mudança. Morreu em 1957, aos 76 anos. A filha mais velha, Olinda, continuou percorrendo os 70 quilômetros que separam Formosa de Brasília, vencendo o “asfalto goiano”, terra de chão batido, para acompanhar o surgimento da cidade. De luto pela morte do pai, veio para a 1ª Missa, em 2 de maio de 1957, e continuou vindo em visitas cívicas à nova capital. Até que, em novembro de 1958, Olinda fez valer o desejo do pai e se mudou para Brasília, contra a vontade da mãe. Veio para a capital em construção.

Para tanto, renunciou a um cargo importante, “de autoridade”, que exercia em Formosa. A professora havia se transformado em coletora-tesoureira da Prefeitura. “Ganhava muito bem, minha mãe não queria que eu viesse, mas eu vim muito impulsionada pelo ideal de educadora.” Não veio bater à porta para pedir emprego. O emprego é que bateu à sua porta. A diretora do Grupo Escolar nº 1 (mais tarde, Júlia Kubitschek), Santa Alves Soyer, foi a Formosa à procura de professoras talentosas e dedicadas. A primeira das indicadas foi Stella dos Querubins. Depois, Olinda da Rocha Lobo.

Novo projeto
Depois de passar por teste na Novacap (a candidata tinha que ministrar quatro aulas), Olinda foi aprovada e, no começo do ano letivo de 1959, estava no Júlia Kubitschek, a primeira escola de Brasília, feita de madeira, com pilotis, treliça e varanda, mais uma criação de Oscar Niemeyer. Era o projeto de Anísio Teixeira já em execução: educação em tempo integral, na qual o conhecimento intelectual se mesclava às atividades artísticas e esportivas.

As professorinhas do Júlia usavam um uniforme azul e branco, com a inscrição GE1, sigla que inspirou um apelido: Garotas Enxutas nº 1, bem próprio para a época. Alojadas num acampamento da Candangolândia, as normalistas candangas começavam a aprender e a praticar os princípios da pedagogia de Anísio, a formação intelectual acompanhada de capacidade crítica. Educada num colégio de irmãs dominicanas em Formosa, onde as crianças tinham aulas de francês e cantavam A marselhesa, o hino nacional da França, Olinda se sentia em igualdade de condições com as demais professoras vindas de outras regiões do país. Mas não era assim que os recém-chegados de Goiás pensavam.

“A gente era muito criticada por ser goiana. Era muito marginalizada. Eles achavam que goiano era incompetente. No alojamento, havia gente de todos os lugares, mineiras, baianas, cariocas, e eu não me sentia inferior a ninguém. Eles desconfiavam da nossa capacidade, só porque éramos de Goiás. Eu disse que um dia eu ia falar isso em público, a gente foi muito marginalizada por ser goiana”, conta a professora Olinda, 80 anos, sem sinal de ressentimento no tom de voz, apenas como quem faz o registro histórico de um preconceito.

Do Júlia Kubitschek, a professora Olinda foi para a primeira Escola Classe de Brasília, a da 308 Sul, onde a concepção de Anísio Teixeira começou a ser efetivamente praticada. “Ele foi o homem que trouxe para o Brasil a educação como experiência de vida e não a educação decorada. Naquela época, ele fez duas conferências em Brasília e cinco professoras da Escola Classe e cinco da Escola Parque, eu entre elas, fomos fazer estágio em Salvador (BA).”

Especialização
Ao mesmo tempo em que aprendiam os princípios pedagógicos de Teixeira, as professorinhas candangas recebiam aulas de Plano Piloto e arquitetura moderna. “A Escola Classe era o reflexo de tudo aquilo. Uma escola que nem parecia uma escola, sem janelas altas, sem aquele silêncio absoluto. Não havia cerca nem muro. Era tudo muito livre, o cerrado se misturava à escola. Todos os professores se reuniam para fazer unidades de trabalho.”

Quando chegou setembro de 1959, a Escola Classe da 308 Sul teve de interromper as aulas. A barulho estrepitoso das obras passou a perturbar por demais as atividades. O jeito, então, foi dar férias compulsórias para todos até que as máquinas e os operários se acalmassem um pouco. Nesse período, as professoras foram para o Rio de Janeiro para mais um curso sobre a nova pedagogia que Anísio Teixeira pretendia implantar em todo o país.

O projeto vingou em Brasília até meados dos anos 1970, quando começou o processo de decadência que dura até hoje. A professora candanga atribui o declive à influência política na educação. “Quando não havia política, a direção da escola era escolhida pela competência.” Até 1982, quando se aposentou, Olinda deu aulas na Escola de Aplicação, na Universidade de Brasília, assumiu diversos cargos de coordenação de ensino de matemática e ajudou a fundar a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Hoje, vive entre Formosa e Brasília, entre as pesquisas sobre a história da cidade onde nasceu e as lembranças dos tempos áureos da educação na capital do país.

O número
Nº 45


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