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Correio Braziliense MUNDO ANIMAL

Ratos assustam servidores do Senado

Com as obras do Palácio do Planalto, animais correram para o prédio onde funcionam a rádio, a TV e o Centro de Processamento de Dados do órgão. Eles devoram alimentos e viraram assunto entre os servidores da Casa


postado em 10/04/2010 08:13

Os ratos saíram do Palácio do Planalto e invadiram o Senado Federal. De acordo com a Zoonoses, a reforma no prédio onde trabalha o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ter espantado centenas de roedores, que desde o início das obras buscam abrigo nas instalações do Congresso Nacional. São animais grandes (ratazanas) ou pequenos (camundongos) que andam apavorando funcionários do prédio onde estão a rádio, a TV, o Centro de Processamento de Dados (Prodasen) e ameaçam até o restaurante dos senadores.

Os relatos das vítimas, servidores da Casa, são assustadores. Sorrateiros, os ratos entram pelas frestas do prédio, se instalam no assoalho das salas e roem de biscoitos a ovos de páscoa. Alguns se servem de barras de cereais. Reviram papéis e trituram até a fiação de telefone e dos equipamentos de sons. A proliferação dos ratos virou assunto na rede interna de e-mails da Rádio Senado. São dezenas de bilhetes eletrônicos dando conta da astúcia dos roedores (veja fac-símiles de algumas mensagens).

O servidor Hunald Vale pegou em flagrante o animal, que lhe roubava um biscoito club social à luz do dia. E não conversou. Matou a pau a ratazana. “Foi nojento”, reviveu. Daí em diante, todos os gêneros alimentícios foram acondicionados numa espécie de armário-cofre, com chaves, sem brechas para o oportunismo selvagem emergido dos escombros do Palácio do Planalto.

Samara Sadeck conta que, ao abrir uma gaveta, notou a falta de chocolate. Achou que era coisa de gente. Ao examinar os vestígios chegou à autoria do mundo animal: “Gente, a coisa tá séria mesmo. Comeram 3 ovinhos de chocolates que deixei na gaveta, só ficou o papel laminado picotadinho e aquela sensação horrorosa de que andaram por tudo que é canto”, disse, em um dos e-mails que circularam na Rádio Senado.

O tema aguçou a criatividade dos funcionários, que fizeram até um repente para ilustrar a invasão dos ratos. Adriano Rodrigues de Faria escreveu: “É um rato diferente/que não gosta de queijo/Afana escova de dente/E na rata lasca um beijo. É o tal do dinheiro/E isso deixa a gente pasma/Até o início de fevereiro/O rato era bicho fantasma”.

Funcionário do setor de ondas curtas da Rádio Senado, o jornalista José Carlos Sigmaringa Seixas se sentiu inspirado e respondeu a Adriano com poesia: “Que este rato misterioso roa apenas biscoito, bolacha e limão/ E não venha por favor roer nossa intenção de continuar trabalhando em prol dessa nação. O sistema de ondas curtas é o único tipo de transmissão que alcança as regiões mais remotas do país, onde às vezes não pega sinal de televisão, nem telefone, nem luz elétrica”.

Restaurante
A invasão dos ratos, ratazanas e camundongos acomete principalmente as salas voltadas para a Avenida N2, a mesma que dá acesso aos fundos do Palácio do Planalto. Mas há relatos da aparição de gabirus em outras repartições do Senado. Conta-se que um deles foi o responsável por dar cabo a uma maçã deixada na copa que atende à Presidência do Congresso. “A sala estava trancada, ninguém teve acesso ao lugar e no outro dia a maçã estava no chão, roída”, contou um dos garçons da Casa.

Os boatos deixaram em estado de alerta os usuários do restaurante dos senadores, que fica no mesmo patamar onde os ratos procuram abrigo. Funcionário há 19 anos do lugar, o garçom Valdinar Ângelo Veras, no entanto, assegura que os roedores não chegaram à cozinha. “Aqui não tem essa história, não. Rato não é uma coisa que dá para disfarçar, eu saberia se tivesse aparecido algum”, afirma.

Aqui não tem essa história, não. Rato não é uma coisa que dá para disfarçar, eu saberia se tivesse aparecido algum”
Valdinar Ângelo,garçom, que nega o aparecimento dos bichos na área do restaurante do Senado



Desratização na terça-feira

A invasão dos ratos provocou um levante dos funcionários da Rádio Senado. Desde o fim do ano passado, eles se organizam para combater os gabirus. Numa tentativa desesperada de se livrar do incômodo, uma servidora tomou a iniciativa de armar uma arapuca. Levou de casa veneno de rato. Era véspera do recesso de ano-novo. No retorno das festas, o cheiro da matança inviabilizou o expediente. “Foi uma semana horrível. No primeiro dia, a gente não conseguiu trabalhar”, relata Adriana Carla Aragão, que se surpreendeu na época com a atitude da colega.

Depois de malograda investida, os funcionários contrataram uma desratização. O extermínio foi feito. Mas não durou. Menos de um mês depois, os camundongos retornaram. Eram maiores, mais numerosos. E toma outra desratização. Mas os roedores são persistentes. E continuam a devorar os lanchinhos dos servidores que têm o hábito de levar marmita para o trabalho. Eles se queixam de que não há um local adequado para fazer as refeições. O restaurante do Senado, com pratos a R$ 50, não é propriamente uma opção.

Os servidores tomaram a decisão de comunicar a Zoonoses. Na semana passada, telefonaram para o departamento especializado em ratos. Foi agendada uma inspeção para terça-feira, e uma nova desratização. Como é especialista no assunto, a Zoonoses vai investigar qual o tipo exato dos bichos. “Usamos métodos diferentes para matar camundongos e ratazanas. A partir das pegadas e vestígios, podemos identificar qual dos dois roedores está no local”, disse a bióloga Fernanda Voietta Pinna, chefe do Núcleo de Finantrópicos. Para os camundongos, a ratoeira. Às ratazanas, veneno. Quem sabe será o fim da multiplicação de roedores no Senado. (LT)


Transmissores de doenças

# Leptospirose
Doença infecciosa febril, aguda e potencialmente grave. Ela é causada por uma bactéria, a Leptospira interrogans. É considerada uma doença de animais ou zoonose, porque primeiro acomete roedores e mamíferos silvestres. Pode contaminar, por meio do contato com os bichos, pessoas de todas as idades.

# Febre da mordedura
Causada por bactéria presente na saliva dos ratos, a Streptobacillus moniliformis. No Brasil, não é considerada uma doença comum e se manifesta em sua versão mais branda. Causa lesões ou feridas de difícil cicatrização. Os ratos mordem, em geral, crianças, bebês e idosos em locais remotos.

# Peste bubônica
Também conhecida como peste negra, pneumônica ou septicêmica. É causada por uma bactéria presente na pulga do rato, a Xenopsyllacheopis. É transmitida ao homem pelas picadas de pulgas infectadas. Se não tratada adequadamente leva à morte.

Memória
Reforma atrasada

A reforma do Palácio do Planalto tem um custo de R$ 88 milhões e inclui a restauração da estrutura principal, a substituição das instalações hidráulica e elétrica e a atualização do sistema de ar-condicionado. Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, o Palácio do Planalto, local de trabalho do presidente da República, começou a ser construído em 10 de julho de 1958. A inauguração ocorreu no mesmo dia da de Brasília – 21 de abril de 1960. O prédio conta com 36 mil metros quadrados, divididos em quatro andares.

A obra estava prevista para ser reinaugurada no dia da festa de 50 anos de Brasília, mas não deve ficar pronta até 21 de abril. Em entrevista coletiva concedida no início da tarde da última quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu atrasos na reforma do Palácio do Planalto. “Acho que não vai ficar pronto. Já estou contando que não mudarei para lá no dia 21”, afirmou. A intervenção na sede do governo federal teve início em março do ano passado e o encerramento foi inicialmente previsto para 30 de março de 2010.

A reforma segue em ritmo acelerado. Os móveis já foram comprados, mas a instalação só poderá ser feita após a conclusão das obras. A ideia original previa a construção de salas de trabalho com mesas padronizadas, capazes de acomodar maior quantidade de funcionários. O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) vetou a proposta. Um painel de azulejos de Athos Bulcão também será recolocado no edifício.


Onde procurar

Quem notar a visita incômoda de roedores, pombos ou morcegos em proporções além do normal deve procurar o Núcleo de Animais Finantrópicos na Zoonoses.
O telefone é 3341-1900

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