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Correio Braziliense CRIME EM LUZIÂNIA

Relato de Adimar de Jesus é cheio de incoerências

Adimar Jesus, que confessou ter assassinado os seis jovens desaparecidos no município goiano, não consegue explicar as mortes. Ora acusa uma das vítimas de ser o mandante dos homicídios, ora admite haver abusado dos garotos


postado em 13/04/2010 07:54 / atualizado em 13/04/2010 09:02

>> Guilherme Goulart

>> Luiz Calcagno
Enviados especiais

Caminhão leva móveis da residêndia de Adimar: ele morava com uma irmã, que tenta fugir da raiva dos vizinhos (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Caminhão leva móveis da residêndia de Adimar: ele morava com uma irmã, que tenta fugir da raiva dos vizinhos (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Goiânia (GO) — O pedreiro Adimar Jesus da Silva revela frieza diante da tragédia cometida contra seis famílias de Luziânia (GO). Os sentimentos inexistem durante a confissão dos assassinatos praticados contra os jovens de 13 a 19 anos, que desapareceram do Parque Estrela Dalva, no município do Entorno do Distrito Federal, entre 30 de dezembro e 22 de janeiro. Adimar foi preso em casa no último sábado, no mesmo bairro onde ocorreram os sumiços, e apresentado ontem em Goiânia pela Polícia Civil de Goiás. O homem de 40 anos só se abre às emoções se questionado sobre a vergonha diante dos próprios parentes. “Eu acabei com a minha vida e acabei com a vida deles”, lamentou. Em entrevista exclusiva concedida ao Correio, disse estar arrependido.

Adimar — que é ex-presidiário e foi solto uma semana antes de voltar a praticar crimes — conversa com o olhar voltado para o chão. Troca olhares com dificuldades. Vestido de camiseta azul, calça jeans e chinelo de dedos, não disfarça problemas em se expressar ou organizar as ideias. Não lembra dos nomes das vítimas — refere-se a elas por apelidos criados por ele mesmo — nem da sequência dos crimes. Ao olhar para as fotos, porém, aponta para quem o contratou para matar os demais garotos. Segundo ele, George Rabelo dos Santos, 17 anos, teria prometido R$ 5 mil para que o pedreiro tirasse a vida dos demais. Não pagou. Morreu também.

Ao conversar com o Correio, Adimar repetiu o que fez durante a coletiva que concedeu a outros jornalistas e também a parlamentares da CPI da Pedofilia. Entrou em contradição, teve dificuldades para manter a linha da história por trás dos assassinatos. Ficaram evidentes os problemas dele em contar a mesma narrativa sem que adicionasse ou retirasse uma informação a cada versão. Primeiramente, por exemplo, afirmou ter mantido relações sexuais com duas das seis vítimas — mais tarde, alegou ter feito sexo com os seis garotos.

Dívidas de drogas
Outro ponto que se modifica passa pela motivação da série de homicídios. Em um momento, o pedreiro indica que matou todos os jovens para evitar que fosse identificado após os abusos sexuais. Mas também aponta para recompensa financeira. Afirmou várias vezes que George prometeu pagamento para tirar a vida dos demais — embora o jovem não tenha sido o último a desaparecer, mas o terceiro. “Eles (as vítimas) tinham dívidas de drogas e eu fui contratado para matá-los. Eu tinha acabado de chegar do presídio”, contou Adimar.

O pedreiro também admite raiva ao matar os jovens a pauladas — além de George, Adimar confessa o assassinato de Márcio Luiz de Souza Lopes, 19 anos, Flávio Augusto dos Santos, 14, Divino Luiz Lopes da Silva, 16, Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16, e Diego Alves Rodrigues, 13. Disse que dava a primeira pancada na altura da testa da vítima e logo em seguida batia até a morte — as armas dos crimes variam entre pau, enxada e martelo de pedreiro. Adimar contou ainda que nunca matou antes e não voltaria a matar. “Eu não mataria de novo. Isso acabou”, afirmou. Os responsáveis pela investigação, no entanto, não descartam a participação dele em outros assassinatos cometidos entre Brasília e o Entorno.

Vozes do mal
O pedreiro está em Goiânia desde o início da tarde de domingo. Foi transferido logo após levar a polícia a seis corpos enterrados em covas rasas em uma ribanceira na Fazenda Buracão, distante cerca de 1,8km da entrada de Luziânia. Por volta das 10h30 de ontem, Adimar chegou ao auditório da Secretaria de Segurança Pública do estado, escoltado por policiais civis do Grupo Tático 3 (GT3), armados e encapuzados. Algemado e com um colete à prova de balas, ele falou à imprensa por cerca de 30 minutos, de pé.

O criminoso, que está preso em uma cela da Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos do Goiás (Denarc), entrou na sala da coletiva cabisbaixo, evitando responder as inúmeras perguntas. Pouco depois, porém, mudou de ideia. Falando, ora de cabeça baixa, ora com determinação e olhando para as câmeras, mencionou que ouvia vozes que o instigavam a “fazer coisas erradas”. “São vozes apitando, dizendo: ‘vai, faz isso’. Eu não quero mais, o que eu quero é um tratamento. Depois que eu matava, vinha na minha cabeça que eu não tinha matado, que eles estavam vivos. Mas aí eu via na TV, eu me desesperava.”

Adimar também disse que foi estuprado em um assalto sofrido antes de ser preso pela primeira vez, por abusar de dois menores em Brasília, em 2005. Ele chegou a dizer que abusou dos menores e de dois dos adolescentes que teria matado, por ter sido vítima dessa violência.

Queixas do promotor
A exposição do pedreiro Adimar Jesus da Silva, 40, causou mal-estar entre o Ministério Público de Goiás em Luziânia e a Secretaria de Segurança Pública do estado. O promotor de Justiça Ricardo Rangel classificou de “irresponsável” a atitude das autoridades goianas de conceder aos órgãos de imprensa entrevista com o suspeito antes de ser tomado oficialmente o depoimento dele, que só começou a ser colhido na noite de ontem. “Transformaram o caso num espetáculo de circo”, reclamou Rangel.

Ponto a ponto Adimar Jesus
Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Correio pelo assassino confesso:

PARENTES
“Acabei com a minha vida e acabei com a vida deles. A pior coisa que eu fiz, foi forçado. Depois dos crimes, eu voltava para casa e ficava sozinho. Não uso drogas. Também não usei para fazer tudo isso.”

MORTES
“Eu dava uma pancada na cabeça, na altura da testa. Nunca fiz nada parecido com isso na minha vida. Eu não mataria de novo. Isso acabou. O Zé (como ele chamava George dos Santos) deveria ter me pagado R$ 5 mil, mas não me pagou. Por isso eu matei ele. Sentia raiva. Não sei o porquê.”

PRISÃO
“Eu não ia fugir. Minha irmã dizia que eu não podia sair por causa do outro processo. Senão eu ia voltar para a cadeia. Eu obedecia ela. Eu obedecia minha irmã. Mas tava doido para ir para a Bahia e ver meus filhos. Mas ninguém da minha família sabia de nada do que eu fiz.”

JUSTIÇA
“Eu não sei o que vai acontecer.”

ASSASSINATOS
“Eles (as vítimas) tinham dívidas de drogas e eu fui contratado para matá-los. Eu tinha acabado de chegar do presídio. Eu tinha que levá-los até lá (cerrado) para matar. Iam numa boa. Dizia que tinha droga lá, que era maconha, e eles iam. Eles tinham dívida, mas eu não sabia. Foi o Zé (como ele chama George) que me falou. Mas ele (George) não me pagou. Disse que ia me entregar o dinheiro, mas não pagou. Por isso, eu o matei. Atraí todos pelo mesmo motivo: droga. Dois deles reagiram. Um deles queria tirar foto. Queria bater foto e eu não quis.”

O criminoso está preso em uma cela da Delegacia Especial de Repressão a Narcóticos
O criminoso está preso em uma cela da Delegacia Especial de Repressão a Narcóticos
Família do acusado se muda de Luziânia
Escoltados por dois camburões do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Goiás, familiares de Adimar de Jesus da Silva, 40 anos, assassino confesso dos seis jovens desaparecidos de Luziânia, deixaram a casa onde moravam havia 12 anos. Um caminhão de mudança, uma Belina I e um Fiat Palio branco repletos de roupas, móveis, utensílios domésticos e até com uma antena parabólica deixaram o da Rua 29 da Quadra 81 do Parque Estrela Dalva 4 às 16h35 de ontem. O novo endereço será mantido em sigilo pela polícia, mas a nova residência não fica no município goiano.

A mudança foi a maneira encontrada por Irineia da Silva, 46 anos, de fugir da fúria dos moradores do bairro, onde residiam cinco das seis vítimas de Adimar. Era com a irmã mais velha, o cunhado e um sobrinho maior de idade que o acusado morava desde que fora liberado da Papuda, em 23 de dezembro passado. A rua havia sido isolada pela PM desde domingo, um dia após a detenção do pedreiro, já que havia ameaça de depredação da residência.

Ao deixar a casa(1) que já foi sua, Irineia não abriu os vidros do Palio, apesar do calor do meio da tarde, para não ouvir os impropérios vindo dos vizinhos, que se aglomeraram na esquina da rua 29. O policiamento permanecerá por tempo indeterminado.

Mãe
Entre as pessoas que observavam a movimentação na Rua 29 era Maria Lúcia Lopes, 50 anos, de Márcio Luiz Lopes, 19 anos, último dos seis jovens a sumir, em 22 de janeiro. Diferentemente dos vizinhos que assistiam à mudança da família do suposto assassino, ela não queria xingar nem colocar a casa de Adimar abaixo. “Quem vai punir ele vai ser a Justiça, só vim ver a movimentação”, resumiu.

Abatida e irritada com a curiosidade dos moradores do Parque Estrela Dalva, Irineia da Silva afirmou que jamais desconfiou do comportamento do irmão e disse que ele precisa de tratamento, sem especificar de que tipo.

“Estamos muito mal quanto à família dos meninos. Para nós, não está sendo fácil, também estamos sem dormir”, afirmou.

Irineia não disse se considerava Adimar culpado. Já outra irmã dele, que ajudou na mudança mas não quis se identificar, não tem dúvidas da participação dele nos assassinato s. “Mesmo que apanhasse muito meu irmão não confessaria o crime se não tivesse sido ele”, assumiu. Segundo essa irmã, o suspeito não mantinha contato com os demais familiares, apenas com Irineia. “Somos 17 ou 18 irmãos, não sabemos nem quais estão vivos”, contou. Ela também disse que Adimar não merece estar solto. “Prisão faz mal a todo mundo que fica lá, mas uma hora a pessoa tem que se consertar por conta própria. Ele teve outra chance e não deu certo. Agora, vai pagar.”

1 - Simplicidade
Com amplo terreno em que se destaca um pé de mexerica, a casa de Adimar não era pequena, mas muito simples. Entre as paredes de reboco aparente e sob o teto de amianto, um sofá furado da cor bege e franjas marrons, uma televisão de 16 polegadas na sala e um armário recheado de troféus de plástico com imagens de goleiros dourados segurando uma bola. Na cozinha, a louça estava suja sobre a pia e os armário abertos e revirados pela polícia. A cama de solteiro utilizada por Adimar foi levada na mudança.

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