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Correio Braziliense CRIME EM LUZIÂNIA

Ademar Jesus estava foragido e com o nome trocado

Acusado de tentativa de homicídio na Bahia, pedreiro foi beneficiado por alteração no registro de batismo em novo documento obtido quando mudou-se para o DF. Progressão de pena não teria sido concedida, caso a Justiça soubesse do mandado de prisão contra o suspeito


postado em 15/04/2010 08:21 / atualizado em 15/04/2010 11:56

No fórum de Serra Dourada (BA), equipe do Correio teve acesso ao processo e ao mandado de prisão expedido contra Ademar, que foi encaminhado ao TJDFT(foto: Monique Renne/CB/D.A Press )
No fórum de Serra Dourada (BA), equipe do Correio teve acesso ao processo e ao mandado de prisão expedido contra Ademar, que foi encaminhado ao TJDFT (foto: Monique Renne/CB/D.A Press )
Serra Dourada (BA) — Adimar Jesus da Silva é na verdade Ademar de Jesus Silva. A mudança na grafia do nome não foi um equívoco. O homem que confessou ter matado os garotos Diego Alves Rodrigues, 13 anos; Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16; George Rabelo dos Santos, 17; Flávio Augusto Fernandes dos Santos, 14; Divino Luiz Lopes da Silva, 16, e Márcio Luiz de Sousa Lopes, 19, todos moradores de Luziânia (GO) possui duas carteiras de identidade com numeração também diferente. O segundo documento foi confeccionado depois de ser decretada a prisão dele por uma tentativa de homicídio, em Serra Dourada (BA), ocorrido em 2000.

A mudança no nome do pedreiro fez com que não constasse nos sistemas de buscas de antecedentes criminais e devida pregressa do acusado o mandado de prisão. Com isso, Ademar Jesus da Silva acabou beneficiado com a progressão do regime da pena de 10 anos e 10 meses em regime integralmente fechado pelo abuso sexual contra dois meninos: um de 11 e outro de 13, nas cidades de Águas Claras e Núcleo Bandeirante, ambas no Distrito Federal.

O pedreiro deixou o presídio em 23 de dezembro do ano passado e, sete dias depois, teria cometido o primeiro crime após a saída da prisão. Segundo confessou, abusou sexualmente e matou Diego Alves Rodrigues, 13 anos. “O problema é que os cartórios judiciais não alimentam esses sistemas”, lamentou o promotor de Justiça de Luziânia, Ricardo Rangel. Um dos sistema mais usados, segundo ele, é do Instituto Nacional de Identificação (INI) da Polícia Federal. “Um letra errada faz com que a pesquisa não seja concluída e não conste nada contra o investigado”, acrescentou Rangel.

Rival da família
O mandado de prisão preventiva foi expedido pelo juiz da Vara Criminal de Serra Dourada (BA) Argemiro de Azevedo Dutra, em 17 de maio de 2000. Na cidade natal de Ademar, localizada no oeste baiano, o pedreiro e o irmão dele Manoel Messias da Silva, 48 anos, conhecido como Nequinho são acusados de ter atirado em um rival da família. A vítima, Leitinho dos Santos Oliveira, ficou 32 dias internadaem hospitais de Ibotirama (BA) e da capital Salvador, mas sobreviveu e hoje vive em Brasília.

No fórum de Serra Dourada, o Correio teve acesso ao longo processo — são mais de 50 páginas — sobre o crime ocorrido em 26 de março de 2000, por volta das 22h, no povoado de Riachão, a menos de 20km da entrada do município baiano. Leitinho levou um tiro de espingarda nas costas, na porta de casa. Com base em inquérito policial, o Ministério Público da cidade pediu abertura de processo contra Ademar, conhecido no município como Negão de Deraldo, e o irmão dele Manoel Messias da Silva, 48 anos, conhecido como Nequinho.

Os dois acabaram indiciados por tentativa de homicídio e concurso de pessoas (1). No processo, o MP destaca que a família de Negão e Nequinho era notória inimiga da família de Leitinho, havendo, inclusive, três inquéritos na delegacia da cidade envolvendo os dois grupos. Em 1998, Nequinho levou quatro tiros. As marcas das balas ainda estão pelo corpo. Na época, a principal suspeita recaiu sobre Leitinho, mas ele não chegou a ser preso. Consta do processo que, em virtude desse episódio, havia um desejo de vingança.

No dia seguinte à tentativa de homicídio, Ademar sumiu. “Ele era suspeito. A gente não tinha dinheiro para pagar advogado e ele teve que ir para Luziânia”, disse na terça-feira, ao Correio, Domingos Jesus da Silva, 30, um dos irmãos. De acordo com o processo, existiam informações na cidade de que ele voltaria para se vingar de Leitinho, o que a família nega. Nenhuma das testemunhas ouvidas no inquérito indica certeza sobre a autoria do crime.

O irmão de Negão envolvido no caso ficou 45 dias preso. Foi apontado como o mentor da tocaia. Sem provas que pudessem incriminá-lo, ganhou o direito de responder ao processo em liberdade. O juiz, no entanto, proibiu que ele deixasse a cidade. “Fiquei preso injustamente e Negão sumiu, não sei o que houve. Mas ele (Leitinho) tinha muita intriga, ninguém sabe até hoje quem atirou nele. Eu não fui e Negão também não”, disse Nequinho, em entrevista ao Correio. “Era coisa de criança (a rivalidade entre as famílias). Um dia ele (Leitinho) pegou com força no braço do meu filho e eu tirei satisfação”, tentou explicar.

 

Confira videorreportagem com Domingos de Jesus Silva, irmão do maníaco de Luziânia

 

Regime de urgência
Em maio de 2001, após informações de que Negão estaria no Distrito Federal, a Justiça de Serra Dourada enviou um ofício a Brasília, pedindo que, em 30 dias, as autoridades encontrassem e prendessem Ademar de Jesus Silva. Em setembro de 2003, o Tribunal de Justiça do DF e Territórios informou que não havia conseguido cumprir a ordem e enviou um ofício à comarca baiana para saber se ainda havia interesse no caso. Em março do ano seguinte, o TJDFT voltou a pedir, em regime de urgência, que o mandado de prisão fosse reenviado.

Serra Dourada tem pouco mais de 18 mil habitantes e gira em torno da agricultura. No fórum, não há juiz nem promotor fixos. Somente na última terça-feira, o pedido de reenvio do mandado de prisão do pedreiro — feito duas vezes antes pelo TJDFT — foi atendido. Um delegado de Luziânia ligou para o fórum de Serra Dourada e solicitou o documento para anexá-lo ao processo que começará a correr na Justiça referente aos seis homicídios confessados por Negão. “Não sabemos o que houve, mas durante todo esse tempo ele era considerado foragido”, disse o oficial de justiça da cidade baiana, Henrique Pereira Rosa.

1 - Ação conjunta
O termo jurídico refere-se aos casos em que duas ou mais pessoas agem para cometer um crime.

 

Confira entrevista com Edilson Souza Silva e Terezinha dos Santos Silva, ex-sogros do maníaco de Luziânia

Ouça entrevista com Manoel Messias da Silva, o Nequinho, irmão do maníaco de Luziânia

 

NOVA INVESTICAÇÕES
A delegacia de Serra Dourada (BA) vai investigar o tempo em que Ademar Jesus da Silva viveu na região. Depois que o maníaco de Luziânia começou a aparecer na televisão, “várias pessoas”, segundo o delegado Alessandro Braga, foram até a unidade policial relatar desaparecimentos ocorridos anos atrás. “Elas acham que podem ter alguma coisa a ver, mas, por enquanto, são boatos. Nós vamos investigar”, comentou Braga, que pediu ao escrivão para vasculhar os inquéritos antigos, para saber se o nome de Ademar está relacionado a algum crime sexual. O sistema na delegacia não é informatizado. Segundo familiares do assassino, ele deixou o oeste baiano aos 24 anos, ou seja, 16 anos atrás.

Cronologia
26 de março de 2000
Um homem leva um tiro nas costas no povoado de Riachão, pertencente ao município de Serra Dourada. Ademar e um irmão são apontados como os principais suspeitos do crime. As duas famílias eram inimigas

4 de abril de 2000
Ademar de Jesus Silva, o Negão, tem a prisão preventiva decretada. Àquela altura, não era mais visto na cidade. O irmão já havia sido preso preventivamente

17 de maio de 2000
O juiz da comarca de Serra Dourada expede mandado de prisão contra Ademar

16 de maio de 2001
A Justiça baiana pede ajuda às autoridades de Brasília para encontrarem o pedreiro, enviando o mandado de prisão à capital federal

10 de setembro de 2003
O Tribunal de Justiça do Distrito Federal envia ofício ao município baiano dizendo que não havia encontrado Ademar e perguntava sobre o interesse de continuar as buscas

19 de março de 2004
O TJDFT insiste na consulta à comarca de Serra Dourada, pedindo, com urgência, o reenvio do mandado de prisão

13 de abril de 2010
Após Ademar confessar ter matado seis adolescentes em Luziânia (GO), a Justiça baiana é acionada pela delegacia da cidade goiana e reenvia o mandado de prisão referente à tentativa de homicídio cometida 10 anos antes

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